Enzima pode potencializar o desempenho das aves

Novembro 23, 2009

Pesquisa de Zootecnia avalia a utilização de diferentes níveis de um complexo enzimático nas rações de galinha


Reportagem: Karina Constâncio

Pauta: Daniela Brisola

Edição: Kauana Neves

A utilização de enzimas digestivas exógenas nas rações de galinhas tem o intuito de melhorar o aproveitamento dos nutrientes, proporcionando melhor desempenho das aves e também reduzindo a quantidade de resíduos depositados no ambiente. É o que afirma o Professor Alexandre Oba, graduado, mestre e doutor em Zootecnia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e coordenador do projeto “Utilização de complexo enzimático nas rações de galinhas poedeiras”.  O projeto, que foi concluído em agosto deste ano, contou com a participação de seis estudantes do curso de Zootecnia da Universidade Estadual de Londrina. O Conexão Ciência conversou com o professor Alexandre Oba sobre os resultados da pesquisa.

Conexão Ciência: O que são enzimas digestivas exógenas? E por qual motivo se dá o uso dessas enzimas nas rações?

Dr. Alexandre Oba: Quando nos alimentamos, se não tivéssemos as enzimas produzidas pelo nosso organismo, não seria possível aproveitar os alimentos, pois o nosso organismo tem a capacidade de absorver apenas moléculas simples. Se comermos arroz, que é amido, nosso organismo não o absorve. Por isso ele precisa ser quebrado até se tornar uma molécula simples que é a glicose, e assim o organismo vai absorver. É isso que acontece com a proteína e os lipídios também, as proteínas precisam ser reduzidas em aminoácidos e os lipídios em ácidos graxos para serem absorvidos. Com as aves, acontece a mesma coisa: as substâncias responsáveis por essa quebra são as enzimas. Têm partes dos alimentos que são facilmente degradadas – as aves vão conseguir quebrar com facilidade e utilizarão aquele nutriente – como também tem partes que não são aproveitadas. Como elas não conseguem produzir determinadas enzimas, pois, não fazem parte do seu hábito alimentar, as aves não vão conseguir aproveitar essa fração nutricional, e consequentemente, isso passa pelo trato digestório sem sofrer absorção. Então, quando colocamos enzimas na dieta do animal, o intuito é facilitar o aproveitamento de nutrientes, fazendo com que ocorra com mais facilidade a quebra desses nutrientes e, conseqüentemente, o animal consiga aproveitar melhor os alimentos.

Conexão Ciência: Normalmente, como essas enzimas podem ser utilizadas?

Dr. Alexandre Oba: Até um ou dois anos atrás, as enzimas eram utilizadas em apenas algumas condições: quando o animal estava doente, quando o tempo estava muito quente, ou quando o alimento estava muito caro. Hoje, como o valor dessas enzimas caiu bastante, elas estão sendo usadas de forma mais constante. Podem ser acrescentadas enzimas que o organismo não produz, com o objetivo de tentar aproveitar aquele nutriente que não pode ser quebrado e transformá-lo em uma molécula simples, ou colocar alguma enzima já produzida pelo animal com o intuito de economizar nutrientes e energia gasta para a produção de enzimas. Muitas pessoas estão usando a fitase, que é uma enzima que aumenta o aproveitamento de fósforo, nas rações. Para se ter uma ideia, dois terços do fósforo presente nos cereais (milho, soja) que o animal come está em uma forma que ele não pode absorver. O animal come, mas não aproveita. Aumentando a quantidade absorvida desse mineral, vai ser liberado menos fósforo no ambiente reduzindo a poluição dos solos e da água.

Conexão Ciência: Quais são as substâncias que não são digeridas pelos animais?

Dr. Alexandre Oba: Podemos citar os ácidos fíticos e os polissacarídeos não amiláceos (PNA’s). Os animais monogástricos (que tem um estômago), em geral, não possuem a capacidade de digerir os polissacarídeos não amiláceos. Uma vez não digeridos, os PNA’s funcionam no intestino como uma esponja retendo água e, como consequência, ocorrerá o aumento da viscosidade da digesta, ou seja, do conteúdo digestivo. Com o aumento da viscosidade, a movimentação é menor e fica mais difícil das enzimas entrarem em contato com os nutrientes aumentando o número de nutrientes não degradados. Além disso, a viscosidade da digesta interfere nas funções fisiológicas do intestino. Se o frango tem também uma digesta rica desses polissacarídeos que não são absorvidos, há o aumento da umidade das fezes, o que prejudica a cama, que é onde o animal vive. A serragem vai ficar muito úmida e, portanto, vai ocorrer maior fermentação, maior liberação de gases e tudo isso é prejudicial para o animal.

Conexão Ciência: Qual o objetivo do projeto?

Dr. Alexandre Oba: O objetivo do projeto foi verificar, a partir de testes em galinhas velhas, ou seja, no final do seu ciclo de produção, se com o fornecimento desse complexo enzimático estas aves passariam a produzir maior quantidade de ovos, ovos com melhor qualidade de casca, se melhoraria a qualidade interna destes ovos, se mudaria o trato digestório em termos de viscosidade e de microbiologia, além de avaliar a ação das enzimas sobre a microflora do intestino delgado e as características da digesta e das fezes.

Conexão Ciência: Que método foi utilizado para o desenvolvimento do projeto?

Dr. Alexandre Oba: Foram feitos testes com quatro níveis de complexo enzimático (50, 100, 150 e 200 mg/kg), com 9 repetições, de 8 aves por parcela experimental, mais um tratamento com 5 repetições, de 8 aves por parcela experimental, durante um período de 4 ciclos de 28 dias. O complexo enzimático era formado palas enzimas: fitase, celulase, pectinase, protease, amilase, betaglucanase e xilanase.

Conexões Ciência: Que resultados foram obtidos com a pesquisa?

Dr. Alexandre Oba: Após a pesquisa verificamos que as enzimas diminuíram a viscosidade, aumentaram o pH da digesta, mas, em termos de desempenho e qualidade do ovo não houve melhora. A parte microbiológica teve uma diferença, porém, não significativa. Pesquisa é assim, nem sempre temos os resultados esperados e isso não quer dizer que seja um resultado ruim.

Conexão Ciência: Os resultados vão ser publicados?

Dr. Alexandre Oba: Eu pretendo publicar em alguma revista da área de agropecuária, só ainda não pensei em qual, mas, os resultados já foram apresentados no Encontro Anual de Iniciação Científica (EAIC) realizado, este ano, na Universidade Estadual de Londrina.


Mais possibilidades de comunicação para o deficiente visual

Novembro 23, 2009

A partir de um sistema que transforma as informações digitadas no computador em código braile, o deficiente visual tem a mais possibilidade de inserção na sociedade


Pauta: Ana Carolina Contato

Reportagem: Beatriz Pozzobon

Edição: Beatriz Assumpção e Fernanda Cavassana

Os deficientes visuais também são beneficiados pelos avanços tecnológicos. O projeto “Implementação de uma interface de leitura fixa em braile para deficientes visuais”, coordenado pelo professor da UEL, Walter Germanovix, é um exemplo disso, já que o projeto tem o objetivo de melhorar a qualidade de vida de pessoas cegas.

Engenheiro elétrico, formado em 1980 pelo Instituto Nacional de Telecomunicações (INATEL) e doutor pela Universidade de Londres em 1988, Walter Germanovix afirma que todo projeto nasce de uma necessidade ou de uma observação.  O projeto de leitura fixa em braile pode ser considerado que nasceu dos dois fatores. “Estava observando uma pessoa a utilizar o Messenger (programa de mensagens instantâneas) e pensei: Como uma pessoa com deficiência visual poderia estar ali fazendo o uso desse sistema, uma vez que ela teria que teclar os dados no computador? Então eu tive a idéia de que aqueles caracteres que estavam aparecendo no monitor do computador pudessem ser transformados em braile”, afirma Germanovix.

No período de duração do projeto, três anos, o professor elaborou um protótipo*, que ainda precisa ser desenvolvido para ser comercializado.  O produto foi chamado de “Interface** Braile Automatizada”. Essa interface é dividida em duas partes: hardware e software. O hardware é o conjunto eletromecânico do protótipo, responsável em transformar uma superfície, inicialmente plana, em código braile. “A superfície plana é equipada de pontos, para a formação dos caracteres braile, que quando acionados eletricamente, formarão a letra, palavra ou frase escrita na linguagem que o deficiente visual possa ler. O hardware também compreende circuitos eletrônicos analógicos e digitais, onde a parte digital é constituída por microprocessador”, explica Germanovix.

O software (programa criado pelo professor) faz a interface do usuário com o microcomputador e permite processar os sinais elétricos gerados para a formação dos caracteres. O software foi utilizado no teste prático, como explicado por Germanovix: “um aluno deficiente visual utilizou o sistema e, a cada caractere digitado ele leu, por meio do tato, o caractere na interface braile automatizada”.

Esse projeto é inovador na medida em que se comunica com o deficiente visual por meio do próprio código braile. A comunicação com essas pessoas é feita, em outros sistemas do mercado, por meio de sons. Segundo Walter Germanovix, esses sistemas são falhos, pois podem incomodar os que estão por perto em locais como: instituições bancárias, escolas, órgãos públicos, entre outros. A inovação se dá justamente na não utilização de sons como meio de comunicação com o portador de deficiência visual.

O sistema pode também produzir os sons em casos específicos, como na alfabetização de pessoas cegas.  “Na condição de alfabetização, o computador repete as letras que estão sendo geradas”, afirma Germanovix. Como explica o professor, o sistema foi desenvolvido de forma que as pessoas que tenham a visão em condições normais possam interagir e ajudar no aprendizado do alfabeto braile.

O projeto foi iniciado em 2006 e concluído em 2008. De acordo com o professor, a pesquisa foi concluída com a produção do software, ou seja, ainda não foi colocada em prática com o hardware. Germanovix, por sua vez, se mostra confiante na continuidade: “Temos planos para que em breve mais alunos se envolvam para dar continuidade no projeto, e ai sim, ele venha ser uma realidade”. Os resultados foram publicados ano passado na “Semana Nacional de Ciência e Tecnologia” promovida pela UEL. E também foram apresentados no IV Congresso Latino-americano de Engenharia Biomédica realizado na Venezuela em 2007.

*Protótipo é um produto que ainda não foi comercializado, mas está em fase de testes ou de planejamento.

**Interface é a conexão entre dois dispositivos em um sistema de computação. Também usado para definir o modo (texto ou gráfico) de comunicação entre o computador e o usuário.



Pesquisa visa encontrar composto que previna lesões na pele causadas pela radiação solar

Novembro 23, 2009

Projeto na área de patologia estuda os efeitos do raio UVB na pele e uma substância para evitar essas lesões

Pauta: Daniela Brisola

Reportagem: Vanessa Freixo

Edição Beatriz Assumpção e Fernanda Cavassana

 

O sol pode apresentar tanto efeitos benéficos quanto maléficos ao organismo humano. De acordo com informações publicadas no site Spiner (www.spiner.com.br), a exposição solar promove a síntese da vitamina D, necessária para fortalecer os ossos e evitar o raquitismo, além de ter um papel importante na manutenção da saúde mental e do ritmo biológico humano. No site também é informado que o sol, se em excesso e sem a devida proteção (filtro solar e tratamento pós-sol) pode ocasionar vários problemas à saúde, como queimadura, sardas, reações de fotossensibilidade, imunossupressão e envelhecimento precoce da pele.

A professora Alessandra Lourenço Cecchini, graduada em Farmácia e Bioquímica pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), mestre em Bioquímica pela Universidade de São Paulo (USP) e doutora em Toxicologia pela mesma Universidade, está coordenando o projeto “Ação de biomoléculas antioxidantes na prevenção da lesão de células da pele de camundongos expostos a irradiação UVB” e busca alternativas para proteger a pele dos efeitos do raio ultravioleta B. Alessandra afirma que os raios ultravioletas A e B, mais conhecidos como UVA e UVB, são alguns dos raios que compõem a luz solar. Mas, conforme ela, o UVA causa o fotoenvelhecimento da pele e o UVB queimaduras solares.

A proposta deste projeto, segundo Alessandra Cecchini, é “pesquisar um composto que proteja e evite a lesão celular da pele pela exposição ao raio UVB, além de tentar entender o que acontece nela e os mediadores químicos envolvidos nesta lesão”. A professora afirma que os radicais livres são moléculas extremamente reativas, originadas, na maioria das vezes, pela quebra de moléculas de água, e que eles desestabilizam nosso organismo. Por isso, o projeto busca encontrar moléculas antioxidantes (substâncias que inibem a oxidação de moléculas biológicas importantes) capazes de evitar a formação destes radicais livres e as lesões por eles ocasionadas. “A melanina é o pigmento natural da epiderme, produzida pelos melanócitos, que a protege e absorve a radiação ultravioleta. Ela é um antioxidante natural que temos e, no projeto, buscamos outros compostos que ajam da mesma forma”, explica Alessandra Cecchini.

A coordenadora do projeto acrescenta que a pele costuma se proteger por si só, mas ao longo da vida há a diminuição dessa capacidade. Assim, inflamações freqüentes e seguidas no tecido epitelial (aquela vermelhidão que causa ardor e pode causar descamação) podem acarretar em câncer de pele. São três os tipos, de acordo com a professora Alessandra Cecchini: o melanoma, que é o mais grave, o carcinoma espinocelular e o carcinoma basocelar, o mais leve deles. Apesar de corresponder a cerca de 25% de todos os tumores malignos registrados no Brasil, os cânceres de pele têm alto percentual de cura desde que detectado precocemente e retirado com intervenção cirúrgica .

A doutora Alessandra Cecchini certifica que o projeto terá continuidade em 2010. Primeiro, no início do ano, um artigo sobre o envelhecimento da pele será publicado. Depois, ao longo dos meses, o estudo avançará de células animais para humanas, com a cultura de fibroblastos, células da pele.  Dessa forma, biomoléculas antioxidantes provenientes de plantas, principalmente da soja, serão transformadas em fórmula farmacêutica e testadas, para agirem na prevenção de lesões celulares ocasionadas pela exposição ao sol.


Download da edição 79

Novembro 9, 2009

Faça o download aqui da versão em PDF do Conexão Ciência.

Boa Leitura!


Psicopatologia sob os pontos de vista da psiquiatria e da psicanálise

Novembro 9, 2009

Projeto de pesquisa pretende contrastar o modo como as duas ciências concebem a psicopatologia

Edição: Beto Carlomagno e Vitor Oshiro

Pauta: Ana Carolina Contato

Reportagem: Tatiane Hirata

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“É importante adoecer as pessoas, patologizando a sua existência, pra que elas possam consumir medicamentos”, critica a psicanalista Rosane Zétola Lustoza

Enquanto a psiquiatria entende o sofrimento psíquico como algo detectável no campo da objetividade, a psicanálise acredita que a causalidade dos transtornos mentais pode ser entendida por meio da história de vida do sujeito. É o que afirma a Professora Doutora Rosane Zétola Lustoza – Bacharel em Psicologia e em Formação de Psicólogo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; mestre e doutora em Teoria Psicanalítica pela mesma universidade – coordenadora do projeto do Departamento de Psicologia e Psicanálise da Universidade de Londrina (UEL) intitulado “A definição de Psicopatologia na Psicanálise e na Psiquiatria e suas implicações para o diagnóstico e a avaliação da cura”.

 

Conexão Ciência: O que é psicopatologia? E qual o objetivo do estudo?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Psicopatologia é o estudo dos processos psíquicos anormais. Quanto ao projeto, ele pretende fazer uma distinção entre as definições de psicopatologia na psicanálise e na psiquiatria.

Conexão Ciência: De que forma o estudo ocorreu?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Nós fizemos um levantamento bibliográfico da história da psiquiatria – etimologia da psiquiatria e da psicanálise. Eu usei, sobretudo, a obra do Lacan(1), psicanalista francês que releu a obra de Freud. Lacan trata as psicopatologias não como anormalidades ou estudo dos processos psíquicos anormais, mas sim como lógicas diferentes de funcionamento. Ele considera três lógicas de funcionamento como referência para o estudo da psicanálise: a psicose, a neurose e a perversão. Para ele, inclusive, não existe um indivíduo normal – totalmente saudável, no pleno exercício de suas capacidades. Baseado na obra de Freud, Lacan afirma que todos nós temos dificuldades em duas coisas: assumir a nossa identidade sexuada e assumir os nossos papéis na sociedade, nossos deveres em uma rede simbólica. Todos temos essa dificuldade. Ele entende o sujeito como uma ‘falta-ser’. Nós nos estruturamos tentando dar conta dessa falta. Isso não é uma anormalidade. Nem normalidade. Todos nós temos dificuldade em lidar com problemas de existência.

Conexão Ciência: Quais as principais diferenças nas formas como a Psiquiatria e a Psicanálise concebem a psicopatologia?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: A psiquiatria possui hoje um Manual de Diagnósticos Estatísticos de Transtornos Mentais – o DSM IV(2) – que trabalha com a noção de transtorno, entendido como um conjunto de sinais e sintomas, em casos considerados anormais. O sinal é algo que o médico observa e o sintoma é algo que o paciente relata. A partir deles, é feito o diagnóstico dos transtornos mentais. Esse manual foi elaborado com o intuito de acabar com a confusão que reinava no campo da psiquiatria, sobretudo no início da década de 70, em que havia uma multiplicidade de diagnósticos e ninguém se entendia quanto às causalidades das doenças. Os psiquiatras que participaram do comitê de elaboração do DSM pretendiam chegar em um nível consensual, que produzisse acordo entre os diferentes pesquisadores. O comitê então decidiu permanecer no campo descritivo – sinais e sintomas. O intuito do DSM IV é permanecer em um plano não-litigioso. Eles pretendiam um manual descritivo e ateórico, ou seja, sem compromisso teórico explícito. Eu digo explícito porque há certo compromisso teórico implícito, pois o DSM acabou dando força para uma re-medicalização da psiquiatria. Há hoje um peso muito grande da psiquiatria biológica, ou seja, a hipótese biológica é hoje uma das mais fortes. Implicitamente, o DSM acabou dando impulso também para uma leitura biológica das psicopatologias. A psicanálise entra tentando resgatar uma leitura que contemple o sentido dos sinais e sintomas. Não só a descrição, mas uma explicação que não seja biológica, que esteja ligada à história do sujeito. A psicanálise quer entender o sentido desses sintomas. O sentido para Freud tem duas acepções diferentes. A primeira: de onde vieram os sintomas, qual a ligação deles com a história e o passado do sujeito? A segunda: para que serve? Qual a finalidade? Os dois sentidos são contemplados no conceito de sentido em psicanálise. Eu diria que a psicanálise não quer permanecer nesse plano puramente descritivo. Ela quer ir para um plano do sentido, um plano que eu diria causal.

Conexão Ciência: É possível detectar a forma mais adequada de conceber a psicopatologia?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Eu sou psicanalista. Então, obviamente, estou trabalhando a partir do referencial da psicanálise. Para reconhecer uma doença, nunca é suficiente permanecer apenas no campo objetivo. É necessário contar com o relato do sujeito, com o depoimento, a posição dele em relação à ‘coisa’. É a partir do sujeito que você sabe se determinada regra do organismo vai mal. Mas é importante dizer que isso não significa desqualificar o saber médico. Nem estou falando de psiquiatras específicos. O que está sendo discutido é o uso que se faz do medicamento. O medicamento tem uma eficácia comprovada, inegável, ele é um aliado do tratamento psicanalítico. O que deve ser evitado é a medicalização do psíquico – tratar exclusivamente o transtorno mental como se tivesse uma origem orgânica, descuidando de aspectos importantes, que são ligados ao sentido que aqueles sintomas tem na história do sujeito.

Conexão Ciência: Quais os resultados obtidos até agora e quais são as perspectivas até o fim do projeto?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Eu falaria de dois pontos relevantes. O primeiro é justamente a inexistência de uma fronteira nítida separando o normal do patológico na psiquiatria. Isso faz com que o psiquiatra não consiga se proteger, tanto de resultados falso-positivos quanto falso-negativos. Na prática, o que ocorre é uma super elevação dos resultados falso-positivos, por conta dos interesses da indústria farmacêutica e todo um complexo médico industrial que vende a ideia para os pacientes de que é preciso identificar em si próprio alguma espécie de transtorno. Ligada a esses interesses de mercado, há uma epidemia de diagnósticos, pois o paciente já chega ao consultório se rotulando, por exemplo, como deprimido. Isso exerce uma pressão sobre o médico, para dar determinado resultado para o paciente, ocasionando uma medicalização extrema do psíquico. O segundo ponto refere-se ao fato de que, na psiquiatria, os transtornos não estão claramente ligados a uma causalidade específica. Eles são apenas descrições de sinais e sintomas. Não há a doença, propriamente dita, em psiquiatria. Isso quer dizer que é errado dizer, por exemplo, ‘eu não tenho vontade de trabalhar, porque estou deprimido’, como se a depressão fosse a causa de não querer trabalhar. A depressão não é uma causa, é um transtorno. A causa da depressão é que é a questão. A psiquiatria biológica tende a dizer que é uma causa biológica. A psicanálise vai justamente tentar dizer que é uma causalidade psíquica, ligada ao sentido que tem esse sintoma na vida do sujeito.

Conexão Ciência: Os resultados foram ou serão publicados em revistas científicas ou publicações do gênero?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Eu já publiquei resultados parciais na Arquivos Brasileiros de Psicologia(3) , sobre ‘medicalização do psíquico’. Na revista Fractal(4) da UFF (Universidade Federal Fluminense), um artigo sobre naturalização do psíquico. Na Ágora(5), que é uma revista específica de psicanálise, há um artigo sobre ‘discurso capitalista’, que é um produto da minha pesquisa. Há também um artigo que eu enviei, mas não foi publicado ainda, para a revista Psicologia em Estudos, da Universidade Estadual de Maringá, que tematiza as ‘estruturas clínicas na psicanálise’.

Conexão Ciência: A senhora disse algo interessante agora sobre a relação entre a sua pesquisa e o capitalismo. Para finalizar, poderia nos dizer como é isso?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Este é um aspecto novo que eu ainda estou estudando. Há várias relações. Uma delas, talvez a menos complexa, trata do seguinte: essa epidemia de diagnósticos atende a interesses de mercado, claramente. O capitalismo trabalha com o princípio de que a oferta cria a demanda. Como, no capitalismo, um volume crescente de mercadorias é oferecido, esse volume precisa ser escoado. Então, é necessário provocar a demanda. Acho que, hoje, o discurso médico provoca o adoecimento nas pessoas. É importante adoecer as pessoas, patologizando a sua existência, para que elas possam consumir medicamentos. Isso atende a interesses não só da indústria farmacêutica, mas de todo um complexo médico industrial. Então, eu trabalho com essa hipótese, de que a demanda crescente por medicamentos atende a interesses de mercado.

 

(1) Jacques-Marie Émile Lacan, Formado em Medicina, passou da neurologia à psiquiatria, tendo sido aluno de Gatian de Clérambault. Teve contato com a psicanálise através do surrealismo. A partir de 1951, afirmando que os pós-freudianos haviam se desviado, propõe um retorno a Freud. (Fonte: Wikipedia)

(2) O DSM IV é um manual de classificação de doenças mentais elaborado pela Associação de Psiquiatria Norte-Americana. Este manual de diagnósticos passou a tomar importância a partir da 3º edição, na qual foi optada uma postura descritiva das doenças (fenomenológica), sem qualquer conotação etiológica ou explicativa, restringindo-se ao trabalho de descrever os sintomas e agrupá-los em síndromes. (Fonte: Psicosite)

(3) O artigo pode ser conferido na página: http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672008000100011&lng=pt&nrm=iso

(4) O download do artigo pode ser efetuado através do link: http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/Fractal/article/viewPDFInterstitial/196/271

(5) O artigo sobre a relação entre psicopatologia e discurso capitalista também está disponível na rede: http://www.scielo.br/pdf/agora/v12n1/03.pdf

Créditos Foto: Tatiane Hirata


Semana de Comunicação da UEL recebe profissionais para discutir sobre a função e o futuro do comunicador

Novembro 9, 2009

Evento abordou temas variados e contou com uma série de atividades para os estudantes e interessados na área

Edição: Beto Carlomagno e Vitor Oshiro

Pauta: Ana Carolina Contato

Reportagem: Lucas Oliveira Martins

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Palestra de abertura da semana, com a jornalista Rachel Bragatto, cuja discussão envolvia o papel da mídia na democracia de um país

A importância da mídia para a democracia, relações entre comunicação e cultura, assessoria de imprensa, marketing e tantos outros assuntos foram abordados pelos eventos que ocorreram durante a I Semana de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), que se realizou entre os dias 26 e 29 de outubro no Centro de Educação, Comunicação e Artes (CECA).

Segundo o presidente do Centro Acadêmico de Comunicação e graduando do 3º ano de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo da UEL, Auber Silva, a semana teve o objetivo de discutir a prática comunicacional entre estudantes, professores e profissionais. Ainda segundo ele, o evento recebeu 95 inscrições, atingindo um pouco menos do que um terço de todos os estudantes de Comunicação Social da Universidade.

Entre as oficinas oferecidas pelo evento, estavam atividades de produção gráfica, jornalismo online, produção radiofônica e de oratória. De acordo com Auber Silva, “a origem de cada oficina tem como base a necessidade ou de introduzir algum conhecimento importante ou de aperfeiçoar este conhecimento já apresentado nas disciplinas dos cursos.”

Para abrir a Semana, a jornalista Rachel Bragatto (graduada em Comunicação Social – Jornalismo/Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Paraná, mestre em Sociologia – na área de Sociedade e Políticas Públicas nas Democracias Contemporâneas na mesma instituição, e membro da Comissão Paranaense Pró-Conferência Nacional de Comunicação) ministrou palestra sobre o papel da mídia na democracia de um país.

Para Rachel Bragatto, “a liberdade de expressão e o acesso à informação são direitos de todos. Entretanto, no Brasil, esse direito não é respeitado pelos detentores dos meios de comunicação.” Além disso, ela afirma que “94% dos proprietários das emissoras são de identidade privada e não apresentam nenhum comprometimento com a função de noticiar a verdade para a população”.

Na palestra, a jornalista ainda declarou que tudo que é veiculado pela imprensa apresenta alguma forma de intenção ou uma razão que esteja de acordo com os interesses dos donos da chamada “grande mídia” – os principais meios de comunicação nacional.

A seguir, a cobertura de duas mesas redondas da Semana.

 

Jornalismo esportivo

“Marginalizado e precisando de renovação”. Essas foram as palavras citadas por Lúcio Flávio (graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela Faculdade Metropolitana de Londrina – IESB – e repórter esportivo da rádio Paiquerê AM desde 1997) e Diego Prazeres (formado em Comunicação Social – Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR – e editor da seção de esportes do Jornal de Londrina) para descrever a atual situação do jornalismo esportivo.

Segundo os participantes da mesa redonda que ocorreu na manhã do dia 27 de setembro no CECA, essa modalidade do jornalismo sempre foi considerada à parte de todas as outras. Eles explicam que isso ocorre porque “há muita promiscuidade no meio esportivo”. Os convidados da mesa redonda contaram que, a exemplo disso, são solicitados e abordados, várias vezes, por dirigentes de clube e até mesmo por parentes de jogadores para que promovam a imagem do atleta ou do próprio time. Para superar essa confusão, Lúcio Flávio atenta que é necessário que o profissional saiba separar o que é fonte e o que não passa de uma tentativa de promoção pessoal ou coletiva motivada por interesses.

Questionados sobre a preferência dos profissionais da área em querer só cobrir assuntos futebolísticos, os jornalistas argumentaram que essa predileção por futebol é uma questão cultural e que essas são as notícias mais lidas e procuradas pelo público do jornal. Eles afirmaram que, para tentar mudar essa situação, eles dão destaques a fatos referentes a outras modalidades esportivas.

A colaboração da tecnologia nas coberturas de campeonatos também foi pauta para a mesa redonda. Diego Prazeres e Lúcio Flávio explicaram que, graças às inovações tecnológicas, várias dificuldades encontradas anteriormente pelos profissionais da área estão sendo superadas. Eles ainda destacaram que é preciso ficar atento para não se tornar dependente dessas modernidades para cumprir uma reportagem.

Os integrantes da mesa ainda responderam às perguntas feitas pelos participantes e abordaram sobre alguns aspectos da política esportiva brasileira em relação à Copa e Olimpíadas.

 

Comunicação Online

Profissionais que começaram no meio impresso e que passaram a expressar suas ideias nas páginas da internet foram os convidados para a mesa redonda da noite do dia 27 de setembro, que tinha como assunto, a comunicação online. Nelson Capucho (autor do portal Londrix*) e Claudio Osti (graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela UEL e criador do blog Paçoca com Cebola**) discutiram sobre essa nova forma de se fazer jornalismo.

Para os participantes da mesa, a migração do impresso para o meio virtual é um processo irreversível. Eles acreditam que, daqui a 15 ou 20 anos, os leitores dedicarão tempo para se informar somente por meio da internet. Capucho e Osti também afirmam que a comunicação online será uma das ferramentas que dará ao jornalismo um novo fôlego. Entretanto, para que isso ocorra, será necessário que esse canal sofra algumas mudanças.

Entre essas modificações, está uma melhor forma de se controlar os direitos autorais dos criadores da notícia. Pois, segundo Osti, a internet é um meio onde não há leis e que, consequentemente, a originalidade daquilo que é veiculado pela transmissão online perde a sua função.

Durante o debate, Capucho ainda afirmou que não existe uma padronização em relação à linguagem utilizada por esse meio. De acordo com o criador do portal Londrix, existem endereços eletrônicos que utilizam um tipo formal e outros que se valem da linguagem mais informal. Entretanto, ele acredita que esse processo nunca mudará devido às inúmeras ferramentas de comunicação digital que são criadas.

Os participantes da mesa ainda responderam às perguntas das pessoas presentes que se referiram sobre a censura dos comentários na internet, a febre do twitter, o processo pelo qual o jornalismo impresso está passando e sobre o futuro dos jornalistas quanto às novas práticas midiáticas.
* http://www.londrix.com.br/

** http://pacocacomcebola.blogspot.com/

Créditos Foto: Vitor Oshiro


Jornada da Liga do Trauma orienta no socorro a vítimas de acidentes

Novembro 9, 2009

Oficina ministrada por ex-coordenador do SIATE atenta aos cuidados que se deve ter na hora dos primeiros socorros

Edição: Beto Carlomagno e Vitor Oshiro

Pauta: Ana Carolina Contato

Reportagem: Leonardo Caruso

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Capitão Wilson demonstra técnicas de primeiros socorros na jornada da Liga do Trauma realizada no Hospital Universitário

Sirenes, Polícia, bombeiros, ambulância. Cena típica de um atropelamento ou de uma batida entre automóveis. Os motivos que ocasionaram o acidente podem ser analisados posteriormente. O importante agora é salvar as vidas em perigo. Os primeiros socorros são essenciais nesse momento.

E é sobre este assunto queo Capitão Wilson Oliveira Paulino, ou apenas Capitão Wilson, formado pela Academia da Polícia Militar de Guatupê, ex-coordenador do SIATE (Serviço Integrado de Atendimento ao Trauma e Urgência) e atualmente Oficial do Corpo de Bombeiros de Londrina, trabalhando no Departamento de Pessoal, falou na oficina ABCD Primário, ministrada durante a VIII Jornada da Liga do Trauma. O evento, realizado entre os dias 28 e 30 de setembro, no anfiteatro e nas salas de aula do Hospital Universitário (HU), contou com a participação de profissionais e estudantes da área de saúde.

A primeira palavra do oficial dos bombeiros na oficina foi “prevenção”. Mas, e quando a prevenção não evita que um acidente ocorra? É neste ponto que entram os primeiros socorros. De acordo com o Capitão, não existe uma teoria de primeiros socorros e sim uma doutrina. Teoria você contesta, doutrina você cumpre”, enfatiza.

“O primeiro dos itens a ser cumprido é o controle de cena”, diz o Cap. Wilson, que vê esta etapa como a mais importante em um primeiro instante. “Muitas vezes a pessoa fica desesperada e se esquece de fazer coisas simples, como desligar o motor do carro e sinalizar a área, e que podem evitar o agravamento de uma situação”, explica.

Durante a palestra, o socorrista afirmou que, quando você se identifica como médico ou enfermeiro, a vítima se sente mais tranqüila e até coopera mais, mas, mesmo assim, ele é da opinião de que todos deveriam ter oficinas de primeiros socorros. “As escolas deveriam ter no currículo algumas aulas sobre noções de primeiros socorros”, argumenta.

Ariana Martins Coutinho, do curso de Enfermagem, e Nathalia Monti Arone, do curso de Medicina, ambas estudantes da Universidade Estadual de Londrina (UEL), concordam com o Capitão. Para elas, “é uma obrigação as pessoas saberem o básico” e acrescentam que atividades desse tipo ajudam a sanar dúvidas.

Sempre reiterando que o mais importante é a segurança da vítima e das pessoas que estão ajudando, o capitão instrui: “As pessoas, sejam especialistas de saúde ou não, ao se depararem com um acidente, devem manter a calma, analisar a situação, sinalizar o local adequadamente, checar se há outros riscos e acionar apoio”.

Com vários anos de experiência na área, o Cap. Wilson, que esteve recentemente no Japão em um curso de combate a incêndios, analisou a cultura e as tradições japonesas e aponta a causa do grande número de tragédias no trânsito brasileiro como sendo um problema cultural. “No Brasil, as pessoas são egoístas. Só pensam em suas agendas e se esquecem que as leis existem para garantir a integridade humana”, explica.

A Liga do Trauma promove e colabora com outros eventos, como campanhas de prevenção, semana do trânsito e outras atividades que levam informações úteis aos estudantes do Hospital Universitário e à sociedade em geral. As estudantes de Medicina na UEL e organizadoras da Jornada, Alyne de Angelis e Débora Anhaia, afirmam que ter noções de procedimentos de primeiros socorros é essencial e, por isso, ressaltam que é um tema de destaque no evento. “Devido à relevância do assunto, a oficina é item obrigatório em toda jornada realizada pela Liga do Trauma”, concluem.

Créditos Foto: Leonardo Caruso


Projeto visa descobrir as causas e as possíveis soluções para a criminalidade juvenil

Novembro 9, 2009

A pesquisa leva em conta todos os fatores que induzem o jovem a entrar na criminalidade, como a história social e familiar e o anseio pelo reconhecimento da sociedade

Edição: Beto Carlomagno e Vitor Oshiro

Pauta: Ana Carolina Contato

Reportagem: Guilherme Santana

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A Dra. Vera Lúcia Suguihiro afirma que o projeto alcançará o resultado desejado quando conhecer a motivação do envolvimento do jovem com o crime

Quem é o responsável pela criminalidade infanto-juvenil? O jovem infrator? O governo mesmo? Ou a sociedade? Se essas e outras perguntas sobre o tema norteiam seus pensamentos, a resposta provavelmente virá com o projeto de pesquisa “Criminalidade Juvenil: A vulnerabilidade dos adolescentes”. Segundo a coordenadora do projeto, assistente social e professora Dra. Vera Lúcia Tieko Suguihiro¹, o estudo tem como objetivo encontrar as razões que caracterizam o envolvimento do jovem com a criminalidade.

Além do acompanhamento da Dra. Vera Suguihiro na prática do Serviço Social, o projeto possui a colaboração da psicóloga professora Dra. Mari Nilza Ferraride Barros². As duas professoras identificaram a ampliação do envolvimento de adolescentes em relação à criminalidade junto da grande discussão sobre reduzir a maioridade penal³, e segundo a psicóloga, os dois fatores coincidindo dão o significado de que a sociedade vem imputando ao jovem a culpa de seu crime. “Nós percebemos que é mais fácil transferir ao adolescente um nível de envolvimento com o crime do que pensar em políticas públicas”, afirmou a coordenadora, que em seguida cita duas questões que permeiam o trabalho: “Porque o jovem está se envolvendo com a criminalidade?” e “O  que determina esse aumento de infratores?”.  A pesquisa, de acordo com a assistente social, resgatou toda a condição sócio-histórica e familiar das crianças e dos adolescentes em situação de risco para entender o envolvimento com o crime e, a partir daí, encontrar as falhas das políticas públicas de atendimento ao adolescente.

O projeto se desenvolveu em duas etapas. A primeira, pesquisa quantitativa, com um levantamento estatístico de quantos jovens cumpriram medida sócio-educativa nos últimos cinco anos no CENSE II (Centro de Sócio-Educação). “Tentamos realizar o trabalho no CENSE I, mas pela permanência nesse órgão ser pequena, 45 dias, não era possível conseguir resultados sem um grupo focal, então passamos para o CENSE II, que é onde os jovens já estão cumprindo a medida sócio-educativa e de internamento, determinada pelo juiz”, explica a Dra. Mari Nilza Barros, a respeito da maneira como se deu o primeiro passo do projeto, que ainda levaria em conta o registro de passagem, se há ou não reincidências, a natureza do crime e a idade desse jovem.

A segunda etapa, segundo a Dra. Mari Nilza, é baseada em entrevistas com os adolescentes no CENSE II. “Explicamos o objetivo da pesquisa, pedimos autorização para os familiares, pois era importante reconstruir a história familiar, socialização e o histórico da prática de delitos. Ao mesmo tempo eram realizadas entrevistas com os familiares para conhecer a história familiar e todos os aspectos da criação dos filhos”, esclarece a pesquisadora. De acordo com a Dra. Vera Lúcia Suguihiro, até o fim do ano será formulado um relatório que será encaminhado à Secretaria de Estado da Criança e da Juventude (SECJ) cuja sede fica em Curitiba. “A intenção é elaborar medidas públicas que possam prevenir a criminalidade na juventude, ou seja, a partir dos programas, evitar os problemas e não mediá-los depois”, afirma a coordenadora.

Até o momento, o projeto já obteve alguns resultados com o grupo focal no CENSE II. A psicóloga Mari Nilza explica que há vários programas que podem ser implantados: “o que nós observamos é que, antes de praticarem os delitos, muitos desses jovens estavam trabalhando. Por lei, eles não podem trabalhar antes dos 14 anos (a partir dessa idade e antes dos 18, são considerados aprendizes). A maioria não conclui a escola, deste modo acabam fracassando”, completa. “Esses adolescentes têm necessidade de reconhecimento social, como não conseguem isso dentro da legalidade, e sua necessidade continua, ele busca outras estratégias, às vezes o tráfico, ou o roubo”, continua a psicóloga, que logo finaliza: “Eles querem dinheiro, status, poder, essas coisas que todo ser humano procura; mas o tráfico é mais sedutor. Geralmente se engajam nessas práticas por não terem projeto de vida, e vivem o momento em um consumismo e loucuras para se satisfazerem”.

Algumas soluções apontadas pela coordenadora Vera Lúcia são o desenvolvimento de habilidades e competências que esses adolescentes possuem, além de os estimularem a acreditar em si mesmos. A psicóloga Dra. Mari Nilza complementa que “é necessário um envolvimento desses jovens em outros projetos, como de artes cênicas, literatura, entre outros. Dessa forma, valorizar a capacidade desse adolescente que não se sente valorizado, que é discriminado e anseia por reconhecimento social”.

<i>¹ Vera Lúcia Tieko Suguihiro, graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), mestrado e doutorado em Políticas Sociais na Pontifica Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

² Mari Nilza Ferraride Barros, graduada em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), com pós-graduação e mestrado em Psicologia na PUC-SP.

³ A maioridade penal, também conhecida como “idade da responsabilidade criminal”, é a idade a partir da qual o indivíduo pode ser penalmente responsabilizado por seus atos, em determinado país ou jurisdição. A maioridade penal no Brasil ocorre aos 18 anos, segundo o artigo 27 do Código Penal, reforçado pelo artigo 228 da Constituição Federal de 1988 e pelo artigo 104 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) – Lei nº 8.069/90.(fonte: www.wikipedia.com.br)

Créditos foto: Guilherme Santana


Download da edição 77

Outubro 27, 2009

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Download da edição 76

Outubro 19, 2009

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