Os rumos da pós-graduação no Brasil

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Repórter: Vitor Oshiro

Edição: Betariz Assumpção

Convidado a participar da aula inaugural do curso de “Mestrado em Comunicação – Área de Concentração: Comunicação Visual” da Universidade Estadual de Londrina, o professor doutor Marcius Cesar Soares Freire conversou com o Conexão Ciência sobre a importância desse programa recém-criado pela UEL e como está a pós-graduação no Brasil.

Marcius Freire fez graduação em “Études Cinématographiques et Audiovisuelles” na Université Paris VIII e em “Arts Plastiques” na mesma universidade. Tem mestrado em “Cinéma” pela Université Paris VIII e é doutor em “Cinématographie” pela Université Paris X-Nanterre, com pós-doutorado na New York University. Atualmente é professor doutor da Univesridade Estadual de Campinas (UNICAMP) e coordenador da área de Ciências Sociais Aplicada I, na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, a CAPES.

Conexão Ciência: Como o senhor avalia a criação deste mestrado em comunicação, mais especificamente na área de comunicação visual, na UEL?

Marcius Freire: É muito importante, pois vem preencher um vazio geográfico que nós temos na pós-graduação em comunicação. Ou melhor, alguns vazios. No Paraná, nós tínhamos somente um programa e em todo o sul um total de quatros programas de pós em comunicação, sendo que criamos mais dois agora. Se analisarmos que no Brasil há um leque de 31 programas de pós-graduação na área de comunicação, percebemos que estão muito mal distribuídos em termos regionais. Para termos uma idéia, desses 31 programas, onze estão no estado de São Paulo. No nordeste, nós temos dois. E no norte não tinha nenhum, sendo que criamos um agora no Amazonas. Além da importância em contribuir para melhorar esta distribuição, este mestrado da UEL é relevante porque tem uma originalidade na abordagem. É o primeiro programa nesta sub-área da comunicação, que é a comunicação visual. Então este programa iniciado na UEL tem este traço distintivo em relação a todos os outros programas de comunicação criados no país.

 

ConCiência: Como este mestrado ajudará na produção científica nacional?

Marcius: Na área de comunicação há um desequilíbrio grande entre os programas de graduação e pós-graduação. Existe um número muito grande de cursos de graduação em comunicação muito superior a estes 31 programas de pós. Então se fizermos esta relação, veremos que, na área de comunicação, são formados mestres e doutores para lecionar para os cursos de graduação. Mas, devido a esta diferença numérica ainda ocorre este desequilíbrio. Os programas atuais, como este da UEL, contribuem em dois pontos. O primeiro é formar quadros para suprir estas carências já existentes na graduação e o segundo é na própria produção de conhecimento, pois, na grande maioria das áreas, a produção cientifica é realizada especificamente nos cursos de pós-graduação. Então, este mestrado ajudará na própria produção como também na formação de quadros que contribuirão na formação de graduandos de qualidade para, futuramente, poderem produzir o conhecimento.

 

ConCiência: Há aproximadamente um ano, em entrevista ao Conexão Ciência, o senhor afirmou que a produção científica nacional estava crescendo bastante. Como o senhor avalia este quadro hoje?

Marcius: A produção científica cresceu realmente. Desses 31 programas, 24 foram avaliados e nós tivemos um resultado que supera a média de duas produções bibliográficas por ano por docente, que é o padrão de excelência da área. Salvo raras exceções, todos os docentes desses 24 programas atingiram este padrão. Isso significa que este acompanhamento da CAPES e estes critérios determinados pela própria área estão surtindo efeito. E este crescimento em termos quantitativos aparece também em termos qualitativos, mesmo que ainda tenhamos muito a melhorar. Foi criado há alguns anos uma classificação que atribui conceitos aos periódicos e o que podemos ver é que o grosso da produção ainda é veiculado em periódicos qualificados como nacionais. Precisamos romper a barreira nacional para atingir periódicos internacionais. Se pensarmos assim, em termos quantitativos e qualitativos a produção cresceu realmente, mas com relação à qualidade ainda temos que melhorar um pouco.

 

ConCiência: A CAPES está bem estruturada para exercer o papel de fomentadora da pós-graduação?

Marcius: A CAPES, além dos recursos para bolsa, está criando cada vez mais fomentos para pesquisa. Por exemplo, foi criado há alguns anos o PROCAD (Programa Nacional de Cooperação Acadêmica), que permite o financiamento de pesquisas envolvendo mais de um programa de pós-graduação. Agora, foi criado um programa de pós-doutorado no próprio país. Então, dentro das limitações orçamentárias, a CAPES dispõe de recursos de financiamentos e fomentos de pesquisas. Porém, esta questão orçamentária é complicada. Quando eu assumi a coordenação da área há três anos, havia 19 cursos de pós-graduação em comunicação. Hoje, já está com 31, um crescimento de mais de 50%. Mas o volume de recursos é praticamente o mesmo. Então, por um lado queremos aumentar os programas, mas, por outro, os recursos são os mesmos. Sendo assim, teremos que pensar em alternativas para financiamentos e bolsas. Chegamos a um quadro em que a pós-graduação como um todo cresce muito, mas os recursos não crescem na mesma proporção.

 

ConCiência: Para encerrar, como o senhor avalia a questão do aluno que termina a graduação e já ingressa na pós, sem uma experiência de trabalho?

Marcius: Eu acho que tudo depende do projeto profissional de cada um. Quem quer ingressar no mercado de trabalho não necessita propriamente de uma pós-graduação. Mas se ele quer se dedicar a uma área especifica talvez uma pós o ajude. Aquele profissional que quer uma carreira acadêmica obrigatoriamente tem que passar pela pós-graduação. Então depende do projeto de cada um. O que a CAPES tem estimulado, mas tem tido pouca resposta na área de comunicação, é a criação de mestrados profissionais, que são programas mais dirigidos ao profissional que quer atuar no mercado, mas quer ao mesmo tempo uma especialização. E quando digo que na área da comunicação não há resposta, podemos ver pelos números, sendo que não há nenhum no Brasil e nem mesmo aparecem propostas desse tipo na área de comunicação. Nos últimos três anos, lembro de duas propostas, que foram recusadas pela CAPES, e, quando voltaram, vieram já em forma de mestrado acadêmico. Então existe uma resistência curiosa a estes mestrados profissionais.    

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