Conheça a história da Frente Agrária Gaúcha e dos sindicatos de trabalhadores rurais no Rio Grande do Sul

Obra explica qual a influência da Igreja Católica nos movimentos sociais rurais, principalmente, na FAG

livro_bassani-007pq2Pauta: Ana Carolina Contato
Reportagem: Tatiane Hirata
Edição: Vitor Oshiro

O livro Frente Agrária Gaúcha e Sindicalismo de Trabalhadores Rurais é o resultado de uma pesquisa sócio-antropológica coordenada pelo Professor Dr. Paulo Bassani, que buscou resgatar a história do movimento social rural criado pela Igreja Católica do Rio Grande do Sul durante as décadas de 60 e 70, na tentativa de tutelar o movimento camponês. Bassani é graduado em Filosofia pela Universidade de Caxias do Sul e tem doutorado em Ciências Sociais pela PUC ” SP. Atualmente, é professor e pró-Reitor de Extensão da Universidade Estadual de Londrina. Segundo o autor, o livro é voltado para o público acadêmico.

Conexão Ciência – Como surgiu a proposta do livro e qual era o seu objetivo inicial?
Profº Drº Paulo Bassani – A proposta deste livro nasceu no início dos anos 90, e era fazer um estudo sobre os movimentos sociais rurais na América latina. Sobretudo, no campo brasileiro e, particularmente, no sul do Brasil. E então, eu tomei como ponto de partida o Rio Grande do Sul, ou seja, a história de como se formaram os sindicatos de trabalhadores rurais no RS, nas décadas de 1960 e 1970. O objetivo do livro era desvendar a natureza da formação dos movimentos sociais que lutam pela terra e a forma como se constituíram os sindicatos de trabalhadores rurais, no caso específico do RS, tutelados pela igreja católica, por meio da Frente Agrária Gaúcha (FAG). Eu parti do pressuposto de um autor que li muito nessa época e depois na hora de formar o livro, Souza Martins, que diz o seguinte, em um livro chamado “Os Camponeses e a Política no Brasil”: “Nós não podemos entender a história dos movimentos sociais brasileiros sem entender a história pela tutela política desses movimentos sociais”. Eu queria entender que os movimentos, os sindicatos, eles não se constituíam em si. Alguém coordena, alguém tutela e dá a sua chancela.

Conexão Ciência – O que era a FAG?
Profº Drº Paulo Bassani : A FAG foi criada em 1961 e se manteve atuante até fins da década de 70. Era um movimento de agricultores rurais organizado pela Igreja Católica do RS dentro do seu segmento mais conservador, que é o segmento ligado à ala CNBB (Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros), através da ideologia do arcebispo que coordenava a CNBB sul, Dom Vicente Scherer. A FAG deu a origem, o formato, o estilo dos sindicatos rurais do RS.

Conexão Ciência – Que outros movimentos sociais rurais existiram antes da FAG? Em que eles se diferenciavam da FAG?
Profº Drº Paulo Bassani : Já existiam movimentos sociais que lutavam pela terra, como por exemplo, o MASTER (Movimento dos Agricultores Sem Terra do Rio Grande do Sul), que seguia a tendência das Ligas Camponesas no nordeste, com Francisco Julião. Eram movimentos, na época, de esquerda, ligados ao partido comunista, no caso do RS, ao PTB, do Leonel de Moura Brizola, que orientava esses movimentos. A FAG surge, justamente, como reação a esse tipo de movimento, para combater o comunismo. Enquanto os grupos de orientação de esquerda pregavam a luta de classes, a FAG pregava a harmonia entre patrão e empregado. Pregavam que as diferenças sempre existiram e sempre iriam existir.

Conexão Ciência – Por que a Igreja Católica combatia o comunismo?
Profº Drº Paulo Bassani : A intenção era justamente não permitir o avanço da esquerda. Segundo a Igreja, a esquerda pregava o ateísmo. Os fiéis católicos eram, em grande parte, os camponeses. O Papa Pio XII dizia que a Igreja não podia perder os camponeses da mesma forma que perdeu os trabalhadores urbanos do séc.XIX. A Igreja temia que outro modelo de organização social pudesse tirar grande parte dos seguidores. E com a possibilidade de a esquerda ganhar espaço, havia também o receio político.

Conexão Ciência – O que a Igreja Católica representa no meio rural? Qual a importância dela?
Profº Drº Paulo Bassani : Ela tinha uma importância enorme. No RS, principalmente, junto aos pequenos proprietários rurais, aos camponeses, trabalhadores do campo. A força da Igreja e a orientação dada por ela para esses camponeses eram fundamentais. Nas pequenas cidades, vilarejos, municípios, o padre tem até mesmo mais importância que o prefeito. A FAG foi resultado desse tipo de ação, desse tipo de tutela política.

Conexão Ciência – Ainda hoje a Igreja Católica exerce essa influência no meio rural?
Profº Drº Paulo Bassani : A igreja vai exercer essa forte influência até, mais ou menos, 1975, quando, a partir do encontro de Medelim e Puebla*, que coloca a Teologia da Libertação** em foco, começam a criar as pastorais sociais, entre as quais a Comissão Pastoral da Terra (CPT). A partir daí é que parte da CNBB começa a ter um olhar um pouco mais avançado, mais progressista. A Igreja continua exercendo influência no meio rural, só que de forma diferenciada. Ela passa a ter um registro a partir de uma visão um pouco mais humanitária, que mostra o trabalhador como sujeito da história, e não como objeto.

Conexão Ciência – Que conseqüências a tutela da Igreja católica acarretou para os camponeses?
Profº Drº Paulo Bassani : A Igreja é uma instituição milenar. Ela proporcionou avanços, mas problemas também. Eu diria que no ponto de vista da luta de classes, foi um problema, no sentido de que ela bloqueou, historicamente, o desenvolvimento de uma consciência um pouco mais avançada. Se não houvesse essa grande influência da Igreja, ou se não tivesse sido criada a FAG, poderíamos prever que outro tipo de sindicalismo de luta social poderia ter surgido no RS e poderia ter se derivado para o Brasil todo. Poderia ser dada como conseqüência, até mesmo, uma influência na consolidação do Regime Militar, que se instaurou em 64. A FAG foi criada em 61 e foi a única entidade que continuou existindo após o golpe. Isso é um indicador de que a FAG não comprometia os interesses do regime militar, nenhum dirigente da FAG foi perseguido. Todos os outros movimentos, como o MASTER, as Ligas Camponesas e todos os sindicatos aguerridos foram desmantelados. Não é que ela se coadunava com o regime, ela também denunciava a tortura e foi contra várias atitudes do regime militar, mas isso não preocupava os militares. A Igreja procurou se inserir nesse contexto com esse tipo de sindicalismo até quase o final da década de 70. Depois, com o falecimento de Dom Vicente Scherer, com o surgimento da Comissão Pastoral da Terra e da Teologia da Libertação, outro viés surge muito forte no RS. É no norte do RS e no oeste do Paraná que surge o MST (Movimento dos Agricultores Sem-Terra). Ele surge no final da década de 70 e vai se instituir em 85, ganhando dimensão nacional.

Conexão Ciência – Por fim, gostaria de saber quais as diferenças entre a FAG e o MST?
Profº Drº Paulo Bassani : Diferenciam-se, principalmente, no modelo de organização. O MST passa a bater de frente com o Estado e com as políticas públicas, definindo como eixo central a luta pela terra. A FAG não tinha isso. Lutava muito mais por políticas agrícolas, e não por política agrária. A política agrícola é aquela que dá condições às pessoas que já tem a terra. A FAG não lutava para as pessoas terem mais acesso a terra, como o MST faz.

*Nas cidades de Medellín (Colômbia) e Puebla (México) aconteceram, em 1968 e 1979, respectivamente, a segunda e a terceira Conferências Gerais do episcopado latino-americano, convovadas pelo Papa Paulo VI. No total, aconteceram cinco Conferências, nas quais estiveram em pauta as transformações necessárias, na tentativa de reformular seu projeto político-ideológico dentro do contexto da luta de classes. (fonte: Bassani, 2009)
**A Teologia de Libertação é uma corrente teológica desenvolvida a partir dos anos 70 do séc. XX, inicialmente na América Latina. Baseada na opção dos pobres contra a pobreza, essa corrente pretende promover a ‘libertação’ destes. A Teologia de Libertação esteve em foco durante a realização das conferências de Medelim e Puebla e, sob a sua orientação, a Igreja Católica assumiu uma postura mais progressista. No campo, essa postura se revela a partir da criação, em 1975, da Comissão Pastoral da Terra – CPT, cuja orientação advém da Teologia de Libertação. (fonte: Bassani, 2009)

Crédito da imagem: Vitor Oshiro

Ano 6 ” Edição 62 ” 04/05/2009

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: