Alimentos – Carne bovina perde espaço no mercado interno

Consumo da carne vermelha teve queda de 2% em 2008

Reportagem: Leonardo Felix
Pauta: Lígia Zampar Bernardo
Edição: Kauana Neves

A carne vermelha sempre foi um alimento muito presente na mesa dos brasileiros. Uma pesquisa realizada pela comunidade científica National Geographic Society e pelo instituto GlobalScan mostram que o Brasil é atualmente o segundo país do mundo que mais consome carne bovina, perdendo apenas para a Argentina. Seja cozida na panela de pressão, assada, grelhada, frita, à milanesa, à parmegiana, à rolet ou mesmo moída, é um dos itens preferidos na dieta de muita gente no nosso país. Os vendedores de calçados, da loja Humanitarian, Augusto Gregório Alves e Larissa Tomás de Aquino são exemplos de consumidores assíduos de carne bovina. Ambos comem esse tipo de alimento de uma a duas vezes por dia, quase todos os dias da semana.

Entretanto, a carne bovina tem perdido espaço nos últimos anos para outros tipos de carne, principalmente a de frango. De acordo com a Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), só em 2008 o consumo de frango no Brasil subiu 5,8% enquanto o de boi teve queda de 2%. Hoje, segundo a Abrafrigo, cada brasileiro consome em média, durante um ano, o equivalente a 41 quilos de carne de frango. Quando se trata do gênero bovino, o consumo por pessoa num período anual tem média de 37 quilos.

Aline Suddat Cuper é proprietária do restaurante Come-Come, desde 2002, e confirma que, de fato, a maior parte dos clientes prefere a carne de frango e que a procura pela carne vermelha diminuiu. “Do início [desde a aquisição do restaurante] para cá teve uma queda [na procura pelo gênero bovino]. O pessoal comia mais carne de boi”. A fim de contornar a queda e estimular a volta ao consumo da carne bovina, a Associação Nacional dos Produtores de Bovinos de Corte (ANPBC) lançou, durante a 49ª Exposição Agropecuária de Londrina, em abril, uma campanha que divulga os benefícios desse tipo de carne para a alimentação.

Mas quais serão os fatores determinantes para a diminuição da escolha pela carne vermelha? Para a professora pós-doutora pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), com especialização em produção animal, Ana Maria Bridi, uma das causas é a propaganda negativa de que consumir carne bovina seria prejudicial à saúde. Ela também ressalta outro fator: “a carne vermelha tem diminuído o consumo não só por questões nutricionais, mas também pelo valor do produto”.
Pelos dados do Instituto de Economia Agrícola (IEA), só de dezembro de 2007 a dezembro de 2008, o preço da carne bovina para a compra em varejo subiu 26% no Brasil. Tamanha alta explica porque a artesã de bijuterias Eliete Veiga Lopes e a professora de ensino pré-escolar Alessandra Cristina da Silva comem atualmente a carne vermelha poucas vezes durante a semana, apenas uma vez ao dia e em porções pequenas. A artesã é enfática ao responder o motivo pelo qual restringiu o consumo da carne de boi: “diminuí por causa do preço!”.

Ana Maria Bridi explica que não é recomendável excluir totalmente a carne vermelha de uma dieta alimentar: “é possível sobreviver sem o consumo da carne vermelha? É. Mas você vai ter dificuldades para encontrar alimentos que substituam todos os nutrientes que a carne bovina proporciona. Porque a carne [bovina] tem uma [alta] quantidade de ferro, de aminoácidos, de zinco e principalmente de vitamina B12, que fazem parte de vários aspectos do desenvolvimento de um indivíduo, e que a carne vermelha já traz prontos”.

A professora coordena o projeto de pesquisa “Ciência e tecnologia de carnes e derivados”, que estuda como os recursos científicos e tecnológicos podem auxiliar no aumento qualitativo da criação do gado bovino e, consequentemente, numa maior qualidade da carne comercializada. Ela aponta melhorias já consumadas na produção de carne vermelha, como a queda no percentual de gordura dos bois criados nos dias de hoje. Bridi ainda prevê que a tendência para o futuro é a busca pela melhoria na qualidade da alimentação do gado, promovendo assim uma carne com maior quantidade de nutrientes.

A nutricionista Elaine Cristina de Melo, especializada em nutrição clínica pela Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru, concorda que a carne bovina é um elemento essencial na alimentação de qualquer indivíduo. Ela destaca que a biodisponilidade do ferro contido nessa carne é muito maior do que a do ferro encontrado em alimentos de origem vegetal. Isso significa que o ferro existente na carne do boi é mais bem aproveitado pelo nosso organismo do que o ferro contido no feijão, por exemplo. A nutricionista também ressalta que a carne vermelha disponibiliza proteínas necessárias para a formação e reposição de nossos tecidos musculares e aminoácidos que ajudam em nossa imunidade e no transporte de nutrientes.

Mas Elaine Cristina de Melo faz alguns alertas quanto ao consumo da carne de boi: “o problema maior da carne vermelha é o excesso. Uma quantidade pequena ou razoável por refeição, uma ou duas vezes por dia, já é o suficiente. Só que a quantidade tem que ser pequena, equivalente a um bife médio, por exemplo. E tem pessoas que comem o dobro, o triplo dessa quantidade”.

A nutricionista recomenda a inserção da carne vermelha na alimentação em uma freqüência de três a quatro vezes por semana, numa quantidade de 100 a 120 gramas por dia, para uma pessoa de estatura e peso médios, que não realiza nenhuma atividade com grande gasto calórico. Dá também uma dica: é melhor comer alimentos de gênero animal durante o dia, pois o nosso sistema digestivo tem maior dificuldade em realizar a digestão de alimentos pesados no período noturno. Elaine Cristina de Melo alerta ainda para um cuidado maior na ingestão de peças mais gordurosas do boi, como picanha, costela, cupim e bisteca. Segundo ela, mesmo que se separe a fibra muscular da gordura exterior desses tipos de carne, a peça ainda conterá um alto teor gorduroso. “Essas carnes gordurosas têm embutida no meio da fibra da própria carne a gordura. E é o mesmo tipo da gordura que está aparente”, diz. “Não é que você nunca deve comer [carnes mais gordurosas]. As pessoas que adoram costela, picanha, vão poder comer. Só que com menos freqüência”, reitera.

Elaine Cristina de Melo conclui que em uma dieta alimentar é até possível substituir carne bovina por outros alimentos, dos quais ela destaca a mistura entre arroz e feijão e também a soja. Porém, nem todos os nutrientes contidos na carne vermelha serão encontrados da mesma forma nessas outras fontes.

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