Viagens ao mundo alternativo: a contracultura dos anos 80

A obra retrata a viagem do pesquisador Cesar Augusto pelo interior do Brasil

Reportagem: Daniela Oliveira Brisola
Pauta: Ana Carolina Felipe Contato
Edição: Kauana Neves

O livro “Viagens ao mundo alternativo: a contracultura dos anos 80” foi escrito por Cesar Augusto de Carvalho, professor de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Londrina. Graduado em Ciências Políticas e Sociais, pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, com mestrado em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, o autor retrata na obra as suas experiências vivenciadas durante a excursão feita pelo interior do Brasil. A viagem teve a finalidade de encontrar as comunidades alternativas presentes no país e analisá-las segundo a contracultura. O lançamento do livro foi feito no dia 24 de abril na livraria Porto de Londrina.

Conexão Ciência: Quando e como surgiu a idéia da viagem?
Cesar Augusto de Carvalho: A idéia da viagem foi conseqüência de um projeto de pesquisa que eu desenvolvia há muito tempo. Comecei a estudar essa coisa da contracultura no final dos anos 70. Primeiramente estudei ensaios teóricos e depois resolvi fazer uma pesquisa de campo, que foi quando eu descobri que existia gente aqui no Brasil que estava vivendo em comunidade, que se encontravam uma vez por ano e ai eu resolvi fazer essa pesquisa. A viagem acabou acontecendo de uma vez só, porque eu tive uma facilidade. Um amigo meu precisava ir para Paris, tinha que concentrar as aulas dele em um único período, então, ele trocou comigo e eu fiquei com um semestre limpinho pra poder viajar, foi assim que aconteceu a viagem.

Conexão Ciência: Quanto tempo levou a viagem?
Cesar Augusto de Carvalho: Antes dessa viagem principal eu fiz diversas viagens picotadas, nas férias, nos feriados. Quando surgiu a oportunidade de eu fazer a viagem saí no dia 20 de janeiro de 1986 e voltei no dia 17 de julho de 1986, foram seis meses de viagem em cima de uma moto.

Conexão Ciência: Da onde o senhor partiu?
Cesar Augusto de Carvalho: Eu parti de Marília, no Estado de São Paulo, fui para o Mato Grosso do Sul, depois Rondônia, Acre, Manaus, Belém do Pará , então cruzei o sertão nordestino em direção a Salvador, fui até Vitória, de Vitória fui até Brasília, no Centro Oeste porque lá tinha um encontro e de Brasília eu retornei.

Conexão Ciência: Quantos quilômetros deram a viagem?
Cesar Augusto de Carvalho: De moto 16 mil, mais um trecho eu fiz de avião, entre Porto Velho e Rio Branco porque não tinha como ir de moto. O trajeto de barco, porque na Amazônia tem que ser barco. Não sei quantos quilômetros deram, mas eu fui de Humaitá, que é divisa do estado do Amazonas com Rondônia, até Manaus e de Manaus até Belém do Pará de barco.

Conexão Ciência: Por que a opção pela moto?
Cesar Augusto de Carvalho: A idéia da moto não foi uma idéia, foi o que eu tinha. Eu tinha uma moto e para eu ir e usar outro meio de transporte ficava inviável. Porque se eu fosse de ônibus ou fosse fazer o mesmo percurso de avião, primeiro que os lugares que eu visitei eram lugares difíceis de chegar, então a moto facilitava. Claro, não era uma moto fantástica, apesar de poderosa. Era uma 125 bem fraquinha, mas ela agüentou o tranco.

Conexão Ciência: Como a viagem é abordada no livro?
Cesar Augusto de Carvalho: Quando eu fui escrever a tese de doutorado eu tinha algumas opções, mas eu preferi trabalhar a viagem como um relato de viagem mesmo, de forma narrativa. Eu achei que fosse adequado, porque essa viagem reflete aquele famoso arquétipo mítico do viajante. Todo pesquisador é isso, você sai em busca de algo e eu narrei essa procura em busca desse objeto, no caso o objeto do conhecimento, que era o meu objeto de desejo na época.

Conexão Ciência: A história é narrada em ordem cronológica?
Cesar Augusto de Carvalho: Em um certo sentindo sim. A questão é que à medida que ela vai se desfazendo eu vou narrando. Só que assim, na narração, eu mesclo as minhas reflexões teóricas com os diálogos, então fica uma história quase que ficcional. Aliás, o limite ali da realidade e da ficção é bem tênue, porque a partir do momento que você opta por fazer uma narrativa na primeira pessoa, contando a tua experiência pessoal e dialogando a partir dessa experiência com o objeto que você vai conseguindo nesse percurso, os limites ficam quase ficcionais. Tanto é que eu já tive leituras de pessoas que leram como uma história e gostaram e outros leem e ficam frustrados porque querem encontrar um ensaio acadêmico no sentido tradicional e isso não tem. Toda a discussão intelectual-acadêmica está diluída nas conversas com o pessoal do movimento alternativo, reflexões que eu vou fazendo na medida em que eu vou viajando, fica uma coisa assim, uma narrativa de viagem.

Conexão Ciência: Quais foram as comunidades alternativas investigadas?
Cesar Augusto de Carvalho: Então esse é um problema, porque na verdade as comunidades alternativas naquele momento já tinham ruído. Até tem um momento no livro que eu comento: “acho que o meu objeto não existe”. Porque houve uma grande transformação no movimento alternativo, o pessoal percebeu que essa idéia de montar comunidade é um “furo na água”. Eles percebiam que era muito difícil viver em comunidades e, então, eles mudaram um pouco o tipo de proposta. Então é assim, por exemplo, na Chapada dos Guimarães no lugar de montar comunidade, o pessoal vivia com as suas famílias, normal, e desenvolviam uma política de alto-ajuda, então é uma comunidade no sentido mais amplo da palavra, não mais aquela idéia de comunidade “ah vamos viver juntos, vamos compartilhar tudo”, porque todo mundo que tentou esse tipo de comunidade tradicional acabou tendo problemas. Os problemas foram maiores do que as soluções e eles acabaram desistindo.

Conexão Ciência: Como foi feita a análise das comunidades alternativas?
Cesar Augusto de Carvalho: Confesso a você que eu não sigo nenhum autor em particular, eu não sigo uma linha. Claro que tem ali uma série de autores que acabam influenciando, porque a viagem na realidade, apesar de o objeto ser a contracultura, eu estou menos preocupado com a contracultura, eu estou mais preocupado em encontrar uma outra forma de produzir conhecimento que não seja exclusivamente conhecimento lógico-racional, que tenha uma metodologia prévia, nada disso. Então, a abordagem intelectual, nesse sentido, ela é original, ela vai se fazendo na medida em que eu vou construindo o objeto e eu defendo uma série de idéias que, se quiser rotular, é uma abordagem holística na qual eu procuro perceber a interdependência dos elementos. Eu levo em conta valores que não são extremamente racionais. Então, é um objeto que vai se fazendo com base em muitos tipos de informação sem que um deles se sobreponha ao outro. É uma abordagem metodológica bem original.

Conexão Ciência: Por que o senhor estudou a contracultura?
Cesar Augusto de Carvalho: Porque na verdade quando eu comecei a estudar a contracultura eu já estava em busca de um novo tipo de conhecimento e a contracultura, desde o início dela nos anos 50 com a geração beatniks nos Estados Unidos, sempre propôs essa busca, era uma espécie “olha, a sociedade que existe é ruim, ela é inflexível, autoritária, não temos liberdade” e nós queremos pensar no mundo de forma diferente e participar do mundo de forma diferente. E era uma crítica ao status , não só ao status como modo de comportamento como também em relação ao modo de pensar, porque toda contracultura busca uma nova percepção. E tinha uma identidade entre mim e a contracultura, porque eu também buscava uma nova percepção do conhecimento, da realidade para produzir um conhecimento diferenciado.

Conexão Ciência: A viagem ocorreu na década de 80, por que o lançamento do livro só ocorreu agora?
Cesar Augusto de Carvalho: Essa é uma grande pergunta. Eu demorei vinte anos para deglutir, para processar essas informações. Porque o que aconteceu: quando eu voltei de viagem os meus paradigmas conceituais estavam absolutamente ruídos. Eu não conseguia encontrar um caminho para trabalhar isso e fui levando. Até que chegou na época do doutorado, quase vinte anos depois, e eu consegui perceber que eu já estava preparado para trabalhar aquelas informações. Se eu estivesse escrito esse livro logo depois da viagem ele não traria, nem para o leitor nem para mim, nenhuma contribuição, seria uma viagem chinfrim. Então eu precisei esperar todo esse tempo para amadurecer as idéias, para arrumar a cabeça, construir uma nova forma de pensar.

Professor Cesar Augusto, autor do livro, viajou durante seis meses atrás das comunidades alternativas espalhadas pelo país

Professor Cesar Augusto, autor do livro, viajou durante seis meses atrás das comunidades alternativas espalhadas pelo país

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