Projeto estuda a violência no cotidiano das escolas sob uma nova perspectiva

Observando a crescente incidência da violência nas escolas, pesquisadora da UEL se atentou para os problemas das escolas públicas de periferia

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Pauta: Lígia Zampar
Reportagem: Beto Carlomagno
Edição: Vitor Oshiro

Escola sempre foi sinônimo de aprendizado e um meio para a evolução como ser humano, mas, atualmente, uma das principais preocupações da sociedade, a violência, tem manchado essa reputação. Hoje em dia, nas salas de aulas e nos pátios são encontrados todos os tipos de violência comuns a sociedade contemporânea, vai desde o desrespeito de um aluno para com seu professor até furtos e tráfico. A assistente social e professora da UEL, Andréa Pires Rocha, graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), desenvolveu o projeto Violência que atinge o cotidiano de escolas das periferias de Londrina. O projeto irá analisar casos violentos em escolas da periferia de Londrina, estudando o ensino fundamental, de quinta a oitava série, e o ensino médio.

Conexão Ciência: No que consiste o projeto basicamente?
Andréa Pires Rocha: A idéia do projeto é observar os tipos de violência que se materializam na escola e que perpassam aquela notícia de jornal. Porque eu entendo lendo sobre o assunto, que aquilo é o ápice crítico de vários tipos de violência presentes na escola e que fazem com que a escola se torne um palco de conflito. É uma perspectiva diferente de entender a violência escolar, até porque a violência não é escolar. Ela acontece na escola, mas é decorrente de vários outros tipos de violência, como a violência policial sofrida na porta da escola e o desemprego. Além do próprio professor estar submetido à violência, com as políticas educacionais. Várias questões da violência estrutural interagem e fazem com que, na escola, a violência se materialize de diversas maneiras.

Conexão Ciência: Como surgiu a idéia para o projeto?
Andréa Pires Rocha: No início de 2007, apareceram alguns desses fenômenos na mídia. Algumas questões bem graves. E eu comecei a observar essa questão da violência nas escolas aqui em Londrina. Entre 2007 e 2008, fiquei observando e surgiu um assunto polêmico que é a patrulha escolar, que é a polícia dentro da escola revistando os estudantes como uma forma de minimizar a violência. Então, comecei a ler sobre o assunto e, acompanhando matérias sobre a violência nas escolas, pensei nessa outra discussão: discutir também essa violência que os adolescentes e professores estão submetidos, que não é só essa chamada de agressão física.

Conexão Ciência: Quais são as ações violentas mais comuns nesse ambiente?
Andréa Pires Rocha: Nas leituras preparatórias, observamos que a agressão que faz parte das chamadas, pelo conceito da teorização da violência, violências intersubjetivas aparecem bastante. Elas acontecem entre pessoas conhecidas e entre grupos, como gangues por exemplo. Há também a violência do educador para com o aluno. Outras pesquisas avançam no mesmo aspecto encontrado na minha pesquisa. Nelas, a violência doméstica e a falta de investimento nas políticas educacionais são as causas para que as escolas tenham se tornado palco de violência.

Conexão Ciência: Qual a metodologia utilizada no projeto?
Andréa Pires Rocha: A metodologia do trabalho foi uma pesquisa bibliográfica, desenvolvida ano passado, para preparar os estudantes participantes do projeto para poderem chegar nas escolas e conversar. Agora, estamos com pesquisa de campo por meio de formulários fechados e depois com entrevistas abertas nas escolas com maior número de casos de violência. Pretendemos escolher três escolas dessas e conversar com todos os envolvidos: professores, pedagogos e estudantes. Utilizaremos, nesta parte final, uma abordagem grupal. Ao fim faremos uma análise qualitativa.

Conexão Ciência: Qual o número de escolas estudadas?
Andréa Pires Rocha: Entre 30 e 35 escolas. Todas escolas públicas, estaduais, e só da periferia. Escolas centrais não entraram na pesquisa porque paralelamente à pesquisa estamos tentando conhecer o que há para o jovem da periferia de Londrina. Queremos saber quais as políticas que podem fazer, de uma forma ou outra, que o adolescente canalize as energias em outras atividades. Porque a violência é também resultado de uma negação de direitos, o que não tira a responsabilização do adolescente por seus atos. Não naturalizamos a atitude violenta do adolescente, mas pretendemos refletir mais profundamente o porquê daquilo.

Conexão Ciência: As escolas possuem uma participação ativa no projeto?
Andréa Pires Rocha: Existe uma dificuldade inicial, porque quando os estudantes participantes do projeto ligam para as escolas para marcar, algumas instituições tem uma dificuldade para aceitar a visita, há uma certa resistência. Na bibliografia que li para o projeto, vi que normalmente a escola é culpabilizada e acredito que seja esse o medo deles. Mas, depois que conseguimos chegar à escola e mostramos o projeto, eles percebem que a intenção do nosso projeto é o contrário: não culpabilizar a escola, e sim mostrar que a escola e a juventude merecem ser olhadas com mais atenção. A partir disso eles aceitam mais facilmente.

Conexão Ciência: Qual deve ser a reação de um educador diante de um ato violento?
Andréa Pires Rocha: Temos que tentar entender a diferença entre um problema de comportamento de um adolescente e um ato infracional, que é a ação de um adolescente que pode ser comparada a um crime. Muitas vezes, o professor se depara com uma questão de comportamento, um xingamento, por exemplo, e chamam o conselho tutelar e a polícia, para resolver questões de comportamento, o que deveria ser resolvido na própria escola. Agora, em uma situação que pode ser enquadrada dentro do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) como ato infracional, a escola tem que proceder como deve, dependendo da gravidade até com um boletim de ocorrêcia. Mas, eu não defendo nunca polícia dentro da escola.

Conexão Ciência: Mas, não seria culpa da própria escola e dos estudantes ela ter que recorrer à polícia como uma maneira de reprimir e controlar essa violência?
Andréa Pires Rocha: Vejo, e ainda estou vendo, que a escola quer a intervenção policial. Por escola digo, professores e diretores. Em alguns encontros pude notar isso. A reflexão que se deve fazer com essa informação é “Por que que a escola quer a intervenção policial?”. É porque se sente impotente diante de tanta violência. Não dá pra dizer de quem é a culpa, mas também não dá pra acreditar que a intervenção policial vá resolver. É certo que vai reprimir. Tendo um policial na escola, os adolescentes terão mais receio de ter uma atitude mais violenta, mas isso não quer dizer que resolveu. Eles podem sair da escola e promover a violência fora dela. Então, a violência é um fenômeno muito complexo. A escola deveria ser um lugar para discutir e fazer com que canalizem essa violência. Eu não culpo os professores e diretores por acreditarem que a única saída é a polícia. Eles estão submetidos a muita pressão.

Conexão Ciência: Qual a previsão para o término do projeto?
Andréa Pires Rocha: Pretendo até agosto ou setembro fechar essa parte quantitativa, de identificação da violência, para, a partir de setembro, iniciar a outra parte, de conversa mais próxima, com três escolas. Essa parte deve ir até o fim do ano, para poder começar a produzir sobre o assunto, já que o projeto se encerra em abril de 2010.

Conexão Ciência: Quais são os resultados esperados?
Andréa Pires Rocha: Primeiro, na identificação da violência, que é o objeto central, não esperamos muitas novidades no que vai aparecer, já que existem muitas pesquisas sobre o assunto e Londrina não está fora desse universo geral do país. Todavia, o que esperamos com o levantamento dessas informações e com a comprovação de que Londrina está dentro do contexto geral de escola pública no Brasil é criar um debate sobre o assunto e trazê-lo para a UEL, envolver outros departamentos, levar os Conselhos – o de Educação e o de Direito da Criança e do Adolescente – a pensar estratégias, possibilidades, que não dependam muito do protagonista, para uma melhora. Além de lutar por políticas públicas voltadas para o jovem, eles precisam de lazer e cultura.

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