A evasão nas universidades aumenta

junho 29, 2009

O programa “Profissão Certa” pode ser uma saída para estudantes com dúvidas em relação aos caminhos profissionais que escolheram

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Pauta: Lígia Zampar
Reportagem: Willian Casagrande Fusaro
Edição: Kauana Neves

Foi preocupada com a questão da evasão na universidade que a Pró-reitoria de Graduação da UEL deu início ao programa “Profissão Certa”. Ele é coordenado pela psicóloga Ingrid Caroline de Oliveira Ausec, graduada e especialista em Marginalização na Infância e Adolescência pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e especialista em Educação Especial pela Universidade Norte do Paraná (UNOPAR). Segundo Ingrid Ausec, o projeto é aberto a alunos do cursinho pré-vestibular da UEL e estudantes da graduação, e consiste em uma reorientação profissional, reforçada por pesquisas e conversas realizadas entre os psicólogos e os participantes, bem como estes e profissionais que atuam em diversas áreas. As inscrições para participar do programa podem ser feitas na Pró-reitoria. O Conexão Ciência conversou com Ingrid Ausec e a psicóloga explicou os métodos e as expectativas do programa.

Conexão Ciência: Quando esse projeto surgiu?
Ingrid Ausec:
Surgiu em setembro de 2008, só com a questão da orientação profissional. No início desse ano, ele expandiu com a contratação de mais psicólogos e voltou-se um pouco mais aos estudantes de cursinho pré-vestibular, para orientar melhor os futuros universitários.

Conexão Ciência: Como o projeto funcionará? Ele realizará também palestras com diversos profissionais de áreas distintas?
Ingrid Ausec:
Na reorientação, são realizadas entrevistas individuais com os estudantes, nas quais perguntamos as motivações que o fazem pensar em desistir. Após quatro ou cinco entrevistas, dependendo do ritmo do aluno, ele desenvolve subsídios para tomar decisões em relação à sua profissão e ao seu curso. Motivamos os alunos a fazer entrevistas, conversar com profissionais da área em que está ou de áreas de importância, realizar pesquisas em relação aos cursos de interesse, fazer progressões do futuro da profissão etc. As palestras podem ser efetivadas futuramente, pois o programa está ainda começando. Outras atividades serão avaliadas adiante.

Conexão Ciência: A PROGRAD divulgou estatísticas de evasão de cursos ou o “Profissão Certa” é uma medida preventiva?
Ingrid Ausec:
A média de evasão, segundo a Divisão de Política de Graduação, está em torno de 9%. Observamos que os alunos pensam de três formas quando pretendem desistir dos cursos: alguns continuam no mesmo, desanimados, acreditando que ele se tornará mais atrativo adiante; outros desistem e trancam a matrícula quando se sentem insatisfeitos; alguns, mesmo apáticos em relação ao curso, continuam e decidem prestar o vestibular no fim do ano. A maioria dos estudantes, segundo as estatísticas, resolve levar o curso mesmo descontentes, e só uma pequena parcela desiste de vez.

Conexão Ciência: Qual é o perfil do aluno que procura os serviços do programa?
Ingrid Ausec:
A maior demanda é de estudantes do primeiro ano, os que ingressam no ensino superior e já se assustam. Quanto aos períodos, a menor procura vem de estudantes do período integral. Alunos mais jovens, principalmente os que ingressam logo após terminar o Ensino Médio, são os que mais recorrem ao programa. É interessante observar o papel da família do aluno, que muitas vezes o pressiona para que ele fique e termine o curso para não “perder tempo” com cursinho pré-vestibular.

Conexão Ciência: Há alguma relação entre os problemas familiares ou financeiros com a indecisão ou a desistência do estudante?
Ingrid Ausec:
Muitos problemas somam-se e podem confundir o estudante. Muitas vezes a família não apoia a escolha do aluno, o estudante tem de trabalhar e estudar e se sente carregado ou não acompanha o andamento do curso. Há também alunos que não conhecem muito bem os cursos e que sustentam certos “mitos” sobre eles. Para esses, o programa aconselha conversas com profissionais da área formados na universidade que ele pretende entrar.

Conexão Ciência: Alguns pesquisadores afirmam que os jovens têm de escolher um direcionamento profissional muito cedo e em uma idade conturbada, que simboliza a passagem para a vida adulta. Qual a sua opinião em relação a isso?
Ingrid Ausec:
O período é complexo, difícil e, de alguns anos pra cá, pessoas fazem muitas escolhas em idade cada vez mais precoce e, na maioria das vezes, forçadamente. Além disso, há mais de 300 profissões possíveis apenas em nível universitário, o que torna a escolha mais complicada. Contudo, o aluno deve entender que a escolha profissional, bem como muitas outras decisões, pode ser revista, diferente de outras (escolhas) da vida. Se o aluno não acertar de primeira, tudo bem, sempre é tempo para recomeçar.

Conexão Ciência: Qual deve ser o papel dos familiares e dos amigos enquanto esse estudante enfrenta essa fase conflitante?
Ingrid Ausec:
O estudante é orientado a conversar com o máximo de pessoas possíveis: amigos, pais, outros estudantes e profissionais da área. Em relação aos pais, eles devem compreender que o processo de revisão da escolha profissional não é uma perda, e sim um redescobrimento. Os pais têm de conversar com os filhos, participar desse processo. O estudante deve, no entanto, filtrar as opiniões que escuta dos seus amigos e pais, pois nem toda opinião pode repercutir positivamente para o sucesso da reflexão.

Conexão Ciência: O fator dinheiro pesa muito na hora do repensar da profissão?
Ingrid Ausec:
Um bom salário é importante sim, mas a maioria dos estudantes pensa mais em conseguir satisfação pessoal no curso e, futuramente, quando atuar no mercado de trabalho. Procuro salientar que quem é bom e persiste no que faz consegue seu espaço.

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Alternativas para humanizar o ambiente hospitalar

junho 29, 2009

Sensibilizart realiza a segunda Jornada de Humanização da Saúde e discute a contribuição do lúdico para a cura

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Pauta: Lígia Zampar
Reportagem: Daniela Brisola
Edição: Kauana Neves

Com a participação de estudantes de medicina, farmácia, fisioterapia, enfermagem e odontologia e profissionais das áreas da saúde, o Sensibilizart é um projeto que tenta humanizar o ambiente hospitalar, usando o lúdico e as artes como instrumento. O projeto promoveu, entre os dias primeiro e dois de junho, no Hospital Universitário da Universidade Estadual de Londrina, a Segunda Jornada de Humanização da Saúde. Como no ano passado, em sua primeira jornada, o projeto promoveu palestras e oficinas e contou com a participação de estudantes dos cursos citados.

Uma das palestras do evento foi a ministrada pela professora doutora do departamento de Educação da Universidade Estadual de Londrina, Francismara Neves Oliveira. A professora possui graduação em pedagogia, pela Universidade Estadual de Londrina e mestrado e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Com o tema “Resiliência: a importância do lúdico em sua construção”, Francismara Neves Oliveira iniciou a palestra com um vídeo sobre a atividade dos “palhaços dos hospitais”. Após esse vídeo, a professora falou sobre alguns princípios norteadores da resiliência como o da autonomia versus heteronomia que é um conceito instrumentalizador, na formação do profissional da área médica, em que o médico deve enxergar o ser humano que existe além do paciente, com seus medos, angústias e expectativas. Outro vídeo foi exibido para contar a vida do médico, as suas dificuldades e as formas de tratamento para cada paciente e isso foi contado com trechos de filmes com personagens médicos.

Após o vídeo, Francismara Neves Oliveira explicou a relação entre o lúdico e a resiliência. Para ela, o lúdico é uma alternativa ao processo de cura e possui diversos tratamentos nas diversas áreas médicas. Também explicou que o lúdico promove a saúde emocional e atenua a hostilidade imposta pelas condições adversas às quais a pessoa está submetida. “Todos temos uma “ludicidade” que deve ser resgatada”, afirmou durante a palestra.

Em entrevista após o evento, Francismara Neves Oliveira explicou que resiliência é a capacidade do sujeito de oferecer respostas aos desafios aos quais ele é submetido na vida. “Algumas pessoas enfrentam problemas e parecem ter uma estrutura melhor para esse enfrentamento do que outras. Algumas adoecem psiquicamente, emocionalmente e às vezes até fisicamente em decorrência daquela situação que elas estão enfrentando”, explicou. Segundo a pedagoga, esse é um termo que vem da física e que significa a capacidade do material de sofrer pressão e não se deformar.

Francismara Neves Oliveira também explicou que através do lúdico é possível observar as relações internas do sujeito, evocando novas elaborações intrínsecas e permitindo surgir as representações que a pessoa faz de si mesma, do mundo e das possibilidades de enfrentamento dos problemas. “O lúdico é, para nós, um excelente veículo de aproximação, uma possibilidade muito rica de aproximação.”, afirmou. Ela relacionou o lúdico ao projeto Sensibilizarte. “Eles têm uma frente que é da música, eles têm grupo de palhaço e eles têm artesanato e nas três frentes eles priorizam o lúdico, porque eles trabalham com criança em situação de enfrentamento, uma condição muito adversa, que é a de internamento prolongado, de quimioterapia e de outras situações que fragilizam essas crianças.”, disse. Nessas situações adversas se manifestam as vulnerabilidades, sendo necessária a intervenção do lúdico. “A relação que nós estamos tentando fazer agora é como promover resiliência a essa população por meio do lúdico. Como o lúdico pode oferecer possibilidade de enfrentamento, como é que o lúdico pode desencadear a construção da resiliência, tornar essas crianças mais fortalecidas para o enfrentamento que elas têm que ter”, contou.

A importância do lúdico no tratamento foi ressaltada pela professora. “Tanto ele permite que essas questões, a dor da criança, a dor não só física, a angústia, a ansiedade diante daquele quadro, daquilo que está acontecendo com ela, as perdas, as situações que elas enfrentam, as emoções que ela tem que enfrentar por conta da situação, ela vem à tona por meio do lúdico. É um modo de resignificação que a criança encontra. Ele é fundamental. E para quem está acompanhando também, tanto a família quanto a equipe médica.”. A professora contou também que o lúdico serve como forma de atenuar o tratamento médico tradicional, beneficiando a criança. “Nós acreditamos que o lúdico pode fazer esse papel e também pode trazer para nós um observável que é o que essa criança está vivendo que talvez de outra forma nós não tivéssemos acesso.”

Francismara Neves Oliveira é a nova professora responsável pelo Sensibilizarte que anteriormente tinha apenas cunho voluntário, sendo coordenado por estudantes. Ela falou sobre a mudança que deseja fazer. “Nós estamos estudando a possibilidade. Hoje o foco do projeto é o voluntariado, são os alunos que trabalham de forma voluntária no projeto. A idéia é transformar em um projeto de extensão da universidade.Ele vai perder esse caráter de voluntariado, mas ele vai ganhar muito com a questão de um projeto que possa ter espaço, não só do que eles fazem do ponto de vista prático lá no hospital, mas também como um campo de estudo, de diferentes áreas do conhecimento, questões interdisciplinares, o olhar da saúde, o olhar da educação, o olhar da psicologia sobre essa questão”, disse a professora, que vai tentar voltar o foco do projeto para a questão da resiliência. “É uma discussão que eu venho fazendo a parte e que agora nós estamos tentando incorporar ao que o Sensibilizarte já faz. Como por meio do lúdico a resiliência pode ser promovida nessas crianças que estão passando por situações muito adversas”, afirmou.


Preservação ambiental é discutida na Semana do Meio Ambiente

junho 29, 2009

O Secretário Estadual do Meio Ambiente, Rasca Rodrigues, foi o convidado da UEL para mostrar os rumos tomados pelo Paraná na preservação de seus recursos naturais

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Pauta: Ana Carolina Felipe Contato
Reportagem: Leonardo Felix
Edição: Kauana Neves

O início do mês de junho é marcado pela Semana do Meio Ambiente. E dentro dela, no dia 5, é celebrado o Dia Mundial do Meio Ambiente. Aproveitando a data, a Universidade Estadual de Londrina (UEL) trouxe o Secretário Estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Rasca Rodrigues, para ministrar uma palestra sobre as ações que a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná (SEMA) vem realizando.

O evento ocorreu no anfiteatro do Centro de Estudos Sociais Aplicados (CESA) e, segundo dados da Coordenadoria de Comunicação Social da UEL (COM), teve a presença de aproximadamente 200 espectadores, entre estudantes, professores e funcionários. Também esteve presente o reitor da universidade, Wilmar Marçal, que iniciou a cerimônia entregando ao secretário uma placa em homenagem aos trabalhos realizados pelo secretário frente à SEMA.

Entre outros assuntos, o secretário do meio ambiente destacou meios utilizados pela SEMA para fiscalizar o cumprimento das leis de proteção de recursos ambientais e hídricos, com aplicação de multas a empresas causadoras de danos ao ecossistema. Ressaltou também a importância de se preservar a água doce do estado, onde mostrou projetos de proteção do aquífero Guarani. Além disso, apresentou um plano de separação da gestão da secretaria por bacias hidrográficas, que consistiria na criação de 6 escritórios regionais, responsáveis pelos assuntos específicos de cada região.

Rasca Rodrigues ainda concedeu uma entrevista exclusiva ao Conexão Ciência, onde comentou a recente aprovação do estado do Paraná à terceira fase do Programa Nacional do Meio Ambiente (PNMA), gerenciado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), que incentiva os estados a elaborarem planejamentos para a preservação de seus recursos ambientais e hídricos, utilizando recursos do Banco Mundial para esse fim. Apenas 3 estados, além do Paraná, foram aprovados à fase 3. “O Paraná avança na sua política ambiental e nós comemoramos muito. Por outro lado, fico triste por outros estados não acompanharem a mesma política [de preservação dos seus recursos naturais]”, afirma o secretário.

Outro tema tratado na entrevista foi o Seminário Internacional Agenda 21, que será realizado de 18 a 20 de setembro na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Conforme está descrito na própria página da SEMA na internet , Agenda 21 é uma proposta de ações criada durante a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD), popularmente conhecida como ECO-Rio, realizada no Rio de Janeiro em 1992, que visa promover a harmonia entre desenvolvimento econômico, proteção ambiental e justiça social em todo o planeta. O secretário explicou que o Seminário pretende expor e debater ideias para pôr em prática a Agenda 21.

Por fim, Rasca Rodrigues explicou como funcionará o Jardim Botânico de Londrina, que estará localizado na zona sul da cidade, próximo ao Instituto Agronômico do Paraná (IAPAR). Segundo o secretário, serão gastos em torno de 30 milhões de reais para a construção do jardim, que foi dividida em duas etapas: na primeira, serão construídos lagos, pistas de caminhadas e ciclismo, praças d”água ” praças formadas ao redor de pequenos lagos – e o centro administrativo. Essa etapa deve ser finalizada até o fim deste ano e permitirá a abertura do jardim para visitação do público.

Já a segunda parte prevê a importação de mudas e sementes de árvores de várias partes do planeta, para que sejam simulados miniecossistemas de todo o mundo. O secretário estipula um prazo de 2 anos para a finalização do empreendimento. Para ele, o Jardim Botânico será fonte importante de pesquisa e desenvolvimento dos estudantes dos cursos da área biológica da UEL: “com certeza, a UEL fará parte do processo [de gestão, manutenção e aprimoramento do Jardim Botânico], porque o jardim tem que ser a extensão da UEL no desenvolvimento do conhecimento científico”.


Os movimentos sociais na América Latina

junho 29, 2009

Projeto da UEL analisa os conflitos entre os grupos sociais e os governos neolibeirais

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Reportagem: Marielli Baratto
Pauta e Edição: Kauana Neves

O coordenador do projeto “Poder político e lutas sociais na América Latina hoje”, Eliel Machado, formado em Ciências Sociais pela USP, com mestrado e doutorado pela PUC/SP, destaca como foco do estudo os movimentos sociais que tiveram maior expressão nas lutas empreendidas por esses grupos sociais e a reação dos Estados. O professor cita como exemplo grupos como os “Piqueteiros”, na Argentina, “Zapatistas”, no México, “Cocaleiros”, na Bolívia, “Índios Equatorianos”, no Equador e, no Brasil, o “MST”.

Segundo o professor, alguns grupos, com base popular em sua formação, se puseram críticos às políticas neoliberais da América Latina. A preocupação do professor é com a repercussão desses movimentos, quais foram os alcances obtidos e se tinham um caráter apenas emergencial. Pode haver diferenças entre si, como na constituição dos mesmos, principalmente em relação às origens políticas e sociais, por exemplo. Os Piqueteiros surgiram na Argentina, em um momento em que as taxas de desempregos eram altíssimas, atingindo 30% da População Economicamente Ativa (PEA).

No Brasil, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) surgiu pelo descontentamento em relação ao modelo de reforma agrária imposto pelo governo militar. Como plano imediato, a luta desse grupo é pela reforma agrária no país, segundo o doutor. Um ponto em comum entre esses movimentos é que todos se colocaram contra às políticas neo-liberais adotadas pelos seus países, identificou Machado no decorrer do seu projeto.

O professor destaca que na Argentina, por exemplo, o movimento dos “Piqueteiros” teve início com os trabalhadores desempregados ao longo da década de 1990. “Um pouco antes da crise econômica provocada pela política do câmbio fixo, ou seja, a política em que o governo adotou a paridade da moeda local em relação ao dólar. Essa postura política deu início a uma grande recessão que levaria à queda do governo de Fernando de La Rúa, em 2001”, explica Eliel.

O professor pontuou que no Equador e na Bolívia dois movimentos sociais destacam-se. Os Índios Equatorianos e os Cocaleiros têm uma postura contra às políticas neo-liberais. “No Equador, a Conferedação de Nacionalidades Índigenas do Equador (Conaie) foi muito combatida pelo Estado por ser uma organização indígena que ficou conhecida pelos seus levantes populares. Já na Bolívia, os Cocaleiros mesclam a questão étnica com questões sociais e econômicas, pois envolvem suas tradições milenares, como o cultivo da folha de coca, com problemas sociais e econômicos típicos do capitalismo”, explica Eliel.

De acordo com o professor, a reação desses grupos, como os piqueteiros, zapatistas, sem-terra, índios equatorianos e cocaleiros, se dá de várias formas como a ocupação de prédios públicos, passeatas e marchas, ocupações de terras e enfrentamentos com a polícia. Segundo o professor, a atuação deles, em geral, conseguiu segurar a implantação das políticas neoliberais ou, pelo menos, alguns dos seus efeitos mais nefastos. “Pode-se dizer que são vitórias parciais, pois essas lutas só conseguiram diminuir o ritmo do processo e deram mais trabalho para que as políticas neoliberais fossem aplicadas”, afirma Machado.

Eliel Machado explica que praticamente, de forma invariável, a primeira ação dos Estados é a repressão aos movimentos. O professor destaca a repressão violenta ocorrida no Brasil, citando o episódio de Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996. Na concepção do professor, esses grupos começaram a passar por mudanças com as eleições de Hugo Chávez (Venezuela), Luís Inácio Lula da Silva (Brasil), Evo Morales (Bolívia) e Nestor Kirshner (Argentina). Esses novos governos têm posturas bem diferentes dos governos que os antecederam.

No Brasil, o Governo Lula tem uma maior ligação com o MST e, para o professor, isso quebra um pouco o ímpeto do movimento pela luta que impunha, que é a reforma agrária. “Os “Piqueteiros” perderam um pouco a força de atuação depois do quadro conjuntural que se construiu no Governo Kirshner. Com o aumento de empregos e a retomada do crescimento do país, a causa do descontentamento dos integrantes do movimento diminuiu”, explica o professor. É nesse contexto que o grupo perde a força de atuação, levando em consideração toda a situação política do país em relação ao governo antecessor, segundo Machado.

Após tantas mudanças ocorridas no campo político, econômico e social, esses movimentos estão encontrando dificuldades para retomar as causas primeiras do seu surgimento, devido às mudanças que os países passaram ou vêm passando, pontua Eliel Machado.


Palestra aborda a crise econômica e seus impactos nos Direitos Trabalhistas

junho 24, 2009

Souto Maior, o juiz “Robin Hood”, participou de debate na UEL sobre o papel dos direitos trabalhistas no contexto da crise global

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Pauta: Ana Carolina Contato
Reportagem: Alessandra Vitti
Edição: Beatriz Assumpção

O professor da Universidade de São Paulo, Jorge Luiz Souto Maior, juiz da 3ª Vara do Trabalho em Jundiaí-SP, participou de uma conferência no início do mês de junho no Anfiteatro Maior do CCH, na UEL. Souto Maior é doutor em Direito pela USP e foi chamado de juiz “Robin Hood”, por ser conhecido por trabalhar em defesa das classes desfavorecidas. O evento foi promovido pelo GENTT ” Grupo de Estudos sobre Novas Tecnologias e Trabalho do Departamento de Ciências Sociais da UEL que, segundo o site do grupo na internet, trabalha no desenvolvimento de reflexões sobre as recentes transformações no mundo do trabalho, e em temas relacionados à precarização do trabalho, terceirização, novas estratégias empresariais, dentre outros.

Segundo a organização do evento, “a conferência tem por objetivos aprofundar o debate e a compreensão dos conceitos de flexibilização e precarização do trabalho e sua relação com os processos judiciais decorrentes nas ações trabalhistas e a possibilidade de novas alternativas frente à crise global”.

No evento, inicialmente, Souto Maior trabalhou uma cronologia dos direitos trabalhistas ao longo da história. De acordo com o professor, na época da Revolução Industrial é que começam a surgir reivindicações por parte dos trabalhadores por melhoria nas precárias condições de trabalho, motivados pelos ascendentes ideais liberais e humanistas característicos do século XVIII. Contudo, “o direito do trabalho surge, efetivamente, enquanto concepção teórica, enquanto conjunto de normas, somente a partir da Segunda Guerra Mundial, ou seja, no momento de maior crise que a humanidade já enfrentou”, afirma. Souto Maior explica que essa consolidação dá-se no momento em que a OIT ” Organização Internacional do Trabalho “, criada em 1919, na mesma reunião em que foi assinado o Tratado de Versalhes (dando fim à Primeira Guerra Mundial), é reconhecida como órgão permanente da ONU, somente no ano de 1946.

Souto Maior procura desvincular a errônea ideia que se tem hoje de que o cumprimento dos direitos do trabalho gera despesas aos empregadores, e por isso vem sendo criticado como causador e agravante da atual crise econômica mundial. O professor ressalta a importância dessa construção teórica para a preservação da paz mundial: “A experiência anterior demonstrou que a não-solução devida deste problema gerou duas guerras mundiais”. Ele ainda acrescenta que “concretamente, não é o direito do trabalho que está em crise. O que está em crise é próprio modelo de sociedade, e não vamos concertar a crise desse modelo de sociedade diminuindo o padrão de cidadania”.

Outro ponto discutido no debate foi a validade da ação de um trabalhador reclamar perante a lei, e a efetividade da reclamação coletiva, de associações e sindicatos de trabalhadores. Nesse sentido, Souto Maior ressalta o problema dos acordos que geralmente são firmados nos tribunais da justiça trabalhista, com o intuito de amenizar o gasto das empresas processadas. Diversos motivos conspiram contra a procura do trabalhador ao órgão judiciário. O professor os cita: “Cada um, individualmente ” como o valor a receber é muito pequeno -, acaba não reclamando”. Quando reclamam, o juiz convence o reclamante a aceitar um acordo com o empregador, em vista da demora do processo judicial. “Tudo favorece ao descumprimento do direito do trabalho”, diz Souto Maior. O movimento sindical, segundo o professor Souto Maior, é muito importante na luta em defesa dos direitos do trabalho, pois representa um avanço muito maior do que nas lutas entre empregador e subordinado isoladas.

O professor critica, e aponta a postura que deve ser tomada pela Justiça perante a essas situações individuais: “Se em um processo individual ficar demonstrado que aquele descumprimento se refere a uma generalidade de pessoas, é possível considerar a perspectiva de que o dano provocado extrapola o interesse apenas do lesado. Por exemplo: o empregador que usa horas extras e não paga, gera um problema social: horas extras prestadas habitualmente geram um problema de exclusão de algumas pessoas que poderiam se inserir no mercado de trabalho e não se inserem porque aqueles que já estão no mercado fazem horas extras – e pior – sem receber”.

Por fim, diante de indagações do público sobre o fim dos empregos, gerado pela crise econômica, o juiz Souto Maior diz que não acredita na ideia de fim de empregos. Segundo ele, em uma sociedade que adota o sistema capitalista, como a atual, o emprego não acaba, ele se desloca: “Se o emprego acabar, é porque estamos num processo de rediscutir a sociedade, e não de rediscutir o direito do trabalho”. O professor diz que essa fictícia situação tem sido usada como justificativa para a flexibilização das leis do trabalho, e novamente ressalta a opinião de que o direito do trabalho não pode posicionar-se como fator que irá resolver a crise: “Essa ilusão nos conduz a reduzir o direito do trabalho a perspectiva de que resolve o problema na economia. Os problemas econômicos tem de ser resolvidos pela própria lógica economia. Se a lógica econômica não suportar os direitos trabalhistas, ela está mal posta, mal resolvida. Não se resolvem problemas econômicos a partir da redução dos custos sociais”.


Grupo de Estudos sobre Envelhecimento promoveu reunião sobre Alzheimer

junho 24, 2009

GESEN estuda o conceito, o diagnóstico e o tratamento da doença de Alzheimer

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Pauta: Ana Carolina Contato
Reportagem: Beatriz Pozzobon
Edição: Beatriz Assumpção

Criado há dois anos, o GESEN realiza atividades de extensão, pesquisa e ensino nas áreas de Geriatria e Gerontologia. O grupo é formado por docentes e estudantes da Universidade Estadual de Londrina, interessados em temas sobre envelhecimento e tem por objetivos estimular a reflexão e formação na área de geriatria e gerontologia no meio acadêmico, serviços de saúde e sociedade, além de promover debates científicos. O grupo é coordenado pela professora da UEL, Mara Dellaroza, com mestrado em Enfermagem Fundamental pela Universidade de São Paulo. De acordo com a organização do evento, neste ano, ocorrerão reuniões científicas mensais, que procuram estimular a participação de profissionais da saúde, como enfermeiros, médicos, fisioterapeutas, farmacêuticos, entre outros.

Uma das reuniões ocorreu no começo do mês de junho, com o tema Alzheimer. A reunião foi presidida pelo professor doutor Marcos Cabrera, graduado em medicina pela UEL e doutor em cardiologia pela Universidade de São Paulo ” USP. Cabrera é geriatra, docente na UEL e coordenador científico da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia/PR.

“Para falar de Alzheimer, eu preciso começar a falar de memória”, iniciou Cabrera. O professor, então, dividiu as memórias em quatro tipos distintos, sendo: memória episódica, aquela que lembra uma curta história; memória semântica é aquela responsável em saber quem foi o primeiro presidente, por exemplo; memória processual lembra como se dirige um carro, responsável por atos automatizados; e memória de trabalho, aquela que guarda o número dos telefones, por exemplo. Essa divisão tem o objetivo de esclarecer as diferenças de memória, e segundo Cabrera, como elas são diferentes, assim também são as doenças que causam diminuição ou perda da memória. O Alzheimer, por exemplo, é mais característico de falhas na memória semântica.

De acordo com Cabrera, o Mal de Alzheimer atrofia algumas regiões do cérebro, causando alteração na linguagem, alterações nas noções de tempo e espaço, alterações comportamentais e perda de memória. O Alzheimer é uma doença degenerativa, sendo diagnosticado, geralmente, após um ano e meio após seu aparecimento. A doença é dividida em três níveis: leve, moderado e grave, sendo que com o passar dos anos o nível tende a aumentar. Na fase leve, o indivíduo tem a memória alterada, mas é capaz de fazer tudo. Na moderada, alguma atividade, no mínimo, ele já não consegue mais executar, enquanto na fase grave todas as atividades são impossibilitadas de serem feitas sem acompanhamento, como foi dito por ele.

Segundo o professor, o Mal de Alzheimer é mais comum após os sessenta anos de idade, e com o passar do tempo, torna-se cada vez mais frequente. No entanto, há casos de Alzheimer precoce dos cinquenta aos sessenta anos. De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), no ano de 2000 o Brasil apresentava uma população de idosos (65 anos e mais) de 5,85%, consideravelmente maior do que em 1980, ano no qual a população idosa era de 4,01%. Tais dados revelam o envelhecimento da população brasileira, que tem a expectativa de vida cada vez maior. Esse rápido envelhecimento da população tem como conseqüência, um aumento no número de pessoas com Alzheimer.

De acordo com Cabrera, a doença pode ser identificada com a realização de testes simples, como ao mostrar figuras ao paciente e perguntar o que foi apresentado para ele. E também a partir do desenho de um relógio. “Algumas pessoas erram na hora de desenhar, e pessoas que têm Alzheimer possuem dificuldade de simetria”, revela o professor. Esses testes, no entanto, são usados apenas para dar uma primeira noção ao médico, que fará o acompanhamento com o paciente, caso necessário.

Segundo o professor, os remédios encontrados no Brasil que são utilizados para o tratamento da doença, são os que se têm no mundo todo. No entanto, como observado por Cabrera, o tratamento farmacológico não deve ser único. “É importante tratar o paciente de um jeito que vá além de receitar os remédios”. Uma boa alimentação, acompanhada de fonoaudiologia, fisioterapia, terapia ocupacional, são alguns dos elementos que melhoram a qualidade de vida dos indivíduos. Outra alternativa é a arte terapia, como a pintura, música e a dança, pois os últimos neurônios atingidos na doença de Alzheimer são os da sensibilidade.

Cabrera ainda salientou a importância de um diagnóstico eficiente. “O Alzheimer pode ser confundido com envelhecimento normal, ou com outras doenças como a depressão, a alguns tipos de demência”, segundo ele.

A próxima reunião do grupo acontecerá no dia cinco de agosto, na sala 587 da Clínica Odontológica ” CCS e é aberta à participação de todos.


Encontro de Medicina Veterinária reuniu profissionais, docentes e estudantes

junho 24, 2009

Evento tratou de animais de diversos portes, além da Medicina Veterinária Complementar

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Pauta e edição: Beatriz Assumpção
Reportagem: Vanessa Freixo

A XXVI Semana Acadêmica de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e a IV Mostra Acadêmica de Trabalhos Científicos aconteceram no mês de maio na Sociedade Rural do Paraná, no Parque Governador Ney Braga. O evento foi promovido pelo Centro Acadêmico de Medicina Veterinária da UEL e a Empresa Junior de Medicina Veterinária (VetJr). Médicos veterinários, professores e pesquisadores do Paraná, de São Paulo, Santa Catarina, Ceará e Minas Gerais ministraram as palestras durante esses dias.

Durante os três primeiros dias aconteceram palestras sobre Animais de Companhia, Animais de Produção e Animais Selvagens. Já o tema do último dia foi Medicina Veterinária Complementar, com abordagens em acupuntura, homeopatia e medicina vibracional.

Uma das palestras do dia 7 foi a “Bem estar animal: desafios e oportunidades em fazendas leiteiras”, proferida por Adriana Postos Madureira, Médica Veterinária pela Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) e consultora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (Grupo ETCO) ” UNESP/Jaboticabal. O tema focado pela palestrante foi o de como manter a saúde do rebanho, preservando o meio ambiente, respeitando as leis do país e as normas internacionais e atingindo, assim, as exigências e expectativas do mercado consumidor.

Segundo a palestrante, os maiores desafios encontrados para atingir o bem estar animal são como são feitas as instalações e manejos dos animais, a alimentação, a saúde, a confiabilidade das informações utilizadas neles e as tentativas de adaptar técnicas estrangeiras a realidade brasileira. Ela também acrescentou que o bem estar animal pode ter várias abordagens. Foram destacadas nessa palestra três abordagens distintas: a psicologia, o funcionamento biológico, além da vida natural do animal. A primeira abordagem enfatiza os sentimentos e a qualidade de vida. Já na segunda, os animais devem crescer e reproduzir-se de maneira natural, sem doenças, má nutrição e comportamentos fisiológicos anormais. A terceira abordagem destacada por ela, defende a idéia de que os animais devem viver em ambientes semelhantes ao habitat natural para desenvolver características e capacidades naturais. Essas abordagens, embora diferentes, são complementares em muitos pontos.

Adriana Madureira disse que o bem-estar pode variar entre os diferentes sistemas de criação, mas tanto a criação extensiva quanto a intensiva oferece riscos aos animais. Por isso, há a necessidade de entender melhor o comportamento do animal, para que sejam avaliadas as situações de risco de cada sistema. Além disso, a palestrante afirmou que o bem estar animal também está relacionado à ambiência, que é o meio físico junto com o espaço psicológico do animal, “todo e qualquer detalhe, como a interação entre clima, animal e o tipo de abrigo, dimensionamento da baia e o conforto térmico, pode interferir na produtividade, no bem-estar e na qualidade do produto final”. Só para se ter uma idéia, Adriana citou um dos maiores problemas encontrados no Brasil para criação de vacas leiteiras, que é o acesso à sombra. A sombra é importante para manter a faixa de conforto térmico do bovino e evitar o estresse por calor. Segundo a integrante do grupo ETCO, “temperaturas acima dos 20°C já são prejudiciais para esses animais, deixando-os suscetíveis a doenças e diminuindo a ingestão de alimentos e a produção leiteira”.

A palestra também tratou dos problemas de casco e da mastite, doença que causa inflamação na mama, além do BST (sigla em inglês para Somato-Tropina Bovina), um hormônio de crescimento que aumenta a produção de leite, mas que, segundo pesquisas, já é proibido em diversos países e desaprovado pela maioria dos consumidores.

Adriana Madureira encerrou o debate falando da criação de bezerros e o quanto é importante o contato físico para o desenvolvimento dos mesmos. Ela disse que simples mudanças no manejo dos animais e implantação de balde com bico no aleitamento, escovação dos bezerros durante as mamadas e soltura dos animais antes ou depois das mamadas, além de feno e ração concentrada oferecidos a vontade fizeram com que o número de tratamentos com antibióticos, freqüência de diarréia e desidratação e número de mortes dos animais caísse drasticamente. Para a Médica Veterinária, “boas soluções no tratamento dos animais existem e são fáceis de serem criadas, é só saber aproveitar os momentos propícios para prestar atenção nos animais e também interagir de forma positiva com eles, pois desta forma, os cuidados com a criação são maiores e os riscos à produtividade são bem menores”.