O grafite na escola pública

Professor de Psicologia estuda as marcas deixadas pelos alunos como manifestações  de suas realidades no contexto escolar 

João+Mart.. 

Pauta: Ana Carolina Felipe Contato
Reportagem: Isabella Verri Sanches
Edição: Kauana Neves

“As marcas que os estudantes deixam são uma prática comum, nós de modo geral deixamos marcas, até mesmo de uma maneira ‘inconsciente’”, essa foi a realidade constatada pelo Professor João Batista Martins, que analisou os desenhos e escritos deixados por estudantes de diferentes idades e classes sociais em carteiras, cadeiras, muros, portas e paredes. Sendo esse o tema estudado pelo projeto: “Grafite: Expressão dos alunos no contexto escolar”. O projeto é o resultado de pesquisas realizadas sobre pichação nas escolas públicas da cidade pelo professor Martins, coordenador do projeto, que é graduado em Psicologia pelas Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) e doutor em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e que trabalha atualmente no Departamento de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

O projeto buscou abordar essas pichações, definidas aqui como escritas e marcas deixadas pelos alunos, como sendo uma forma de expressão. “Ali eu discutia questões relativas ao espaço de pichação e aos seus grupos como sendo um espaço de convivência, um espaço de construção de identidade e um espaço aonde o jovem se movimenta no contexto da cidade se relacionando com outros grupos e construindo, assim, sua identidade”, explica o professor Martins.

A equipe do projeto trabalhou com três escolas públicas de diferentes regiões de Londrina (Centro, Zona Oeste e Zona Norte) de ensino fundamental e médio, fotografando carteiras, paredes, cadeiras, muros e portas. Foram recolhidas cerca de 700 fotos, que segundo o professor, foram mapeadas de acordo com seus temas abordados sendo também estabelecidos diálogos entre elas. “A idéia era observar que tipo de expressão os alunos deixavam nos suportes”, ressalta.

Martins menciona que os desenhos mais comuns estão relacionados a sexualidade, que ele explica ser “uma temática muito presente na vida dos adolescentes e na medida em que a escola não oferece o espaço para esse tipo de abordagem, eles vão dar um jeito de expressar isso no seu cotidiano”, Outros temas recorrentes nas pichações são de ordem cultural, como marcas religiosas, disputas entre grupos e disputas por espaços, outros fazem apologia à violência e ao uso de drogas. Em relação às drogas, o professor conta tratar-se mais de um apontamento, “isso nos indica a presença das drogas no contexto escolar, não percebi nenhum tipo de expressão no sentido disso ser bom ou ruim”.

O professor aponta que as marcas deixadas nos suportes escolares são causadas devido a um tratamento dúbio dado pelas escolas às pichações, pois nas escolas pesquisadas a pichação é contra as normas, porém percebe-se não haver advertências a quem as pratica. “Na medida que você tem uma regra que não é aplicada, cria-se um espaço de expressão”, afirma.

O projeto, iniciado em 2004, terminou no ano de 2006 e com ele o professor pôde concluir que a escola passa a ser um espaço de convivência entre os jovens. “A condição do adolescente é uma condição de mudança e no momento que isso passa a ser expresso é necessário cuidar disso”. Ressalta, no entanto, que as escolas, buscando tratar seus estudantes de maneira homogênea, não conseguem lidar com os jovens, “os adolescentes vivem uma série de experiências que a escola não está dando conta”.

Nessa perspectiva, o professor destaca que as informações obtidas pela pesquisa são indicadores de como os jovens estão se organizando e que tipos de problemática enfrentam. “A partir dessas informações é possível fazer um diagnóstico da realidade deles e, de certa forma, promover estratégias que diminuam a tensão existente entre os grupos”, menciona o professor de psicologia.

Segundo Martins, na medida do possível, foi dado o retorno da pesquisa às escolas que dela participaram. Ele informa também que a pesquisa já está sendo divulgada em congresso e que está previsto, provavelmente para o segundo semestre, que ela seja publicada na revista espanhola Athenea Digital.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: