Um resgate da história da região

O projeto “Fragmentos da História do norte do Paraná (décadas de 30 a 60) em textos e imagens” terá como fontes de pesquisa fotografias, documentos e entrevistas com pioneiros

Foto Boni

Pauta: Lígia Zampar
Reportagem: Leonardo Felix
Edição: Kauana Neves

Pesquisar, reavaliar e redescobrir a história de Londrina e do norte do Paraná é uma das prioridades do professor doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), Paulo César Boni. Para ele, “um povo que não conhece sua história, não tem identidade”. Na busca pelo resgate da história da região, o professor já desenvolveu dois projetos de pesquisa pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). O primeiro projeto resultou na publicação do livro “Fincando estacas! A História de Londrina (década de 30) em textos e imagens”, de 2004, lançado de forma independente com apoio da empresa Milenia Agrociências.

Pensando na continuidade e expansão desses estudos, o professor criou um novo projeto de pesquisa “Fragmentos da História do norte do Paraná (décadas de 30 a 60) em textos e imagens”, que será desenvolvido em parceria com historiadores de vários municípios da região. Nesta “terceira fase”, além de estudar historicamente outras cidades do norte do estado, Paulo Boni pretende expandir as pesquisas para as décadas de 50 e 60, priorizando as questões iconográficas, principalmente a fotografia. O Conexão Ciência entrevistou o professor para apurar os objetivos do novo projeto, bem como as experiências acumuladas nos projetos anteriores.

Conexão Ciência: Há no seu currículo projetos a respeito da pesquisa fotográfica da história de Londrina, focado principalmente nas décadas de 30 e 40. Esse projeto voltado ao norte do Paraná seria uma expansão desses outros projetos que já foram realizados?
Paulo Boni:
Sim. É uma expansão e continuidade. Como nós temos alunos de graduação, especialização e de mestrado, que são da região norte do Paraná, resolvemos ampliar, para poder chamar historiadores e alunos de outros municípios a participar. E também para organizar uma forma de disponibilizar informações [descobertas pelo projeto] em museus ou centros de estudo. Um primeiro levantamento foi feito com base na minha visita e de mais alguns alunos a cidades da região. Nós podemos perceber que não está bem estruturado o acervo, o arquivo e a disponibilidade de imagens de fotografias. Então, nós queremos mostrar que há necessidade de se organizar e disponibilizar esse acervo, como forma de resgate histórico de determinada cidade, comunidade ou empresa. Por exemplo, em uma cidade como Arapongas, nós conseguimos muitas fotografias antigas, mas essas fotografias não estão disponíveis em nenhum museu, centro de estudo, ou faculdade de Arapongas. Estão nas mãos de pessoas, que um dia morrem. E pode ser que seus descendentes achem que aquilo tudo é uma velharia imprestável e joguem tudo fora. Nós vamos perder muito da história por conta disso.

Conexão Ciência: Com a experiência de outros projetos, o Sr. já deve ter uma ideia das fontes de pesquisa. Quais seriam as principais fontes e personagens a serem procuradas para colaboração com esse projeto?
Paulo Boni:
Nós estamos trabalhando muito com história oral. Há a historiografia oficial, alguns livros que foram publicados. Mas, por exemplo, em Mandaguari há dois livros publicados sobre sua história. Um publicado por um prefeito e outro publicado por outro prefeito. O que você percebe: é a história contada pelos vencedores, pelos detentores do poder. E nós estamos trabalhando com a história oral para dar voz às pessoas que normalmente não são ouvidas pela historiografia oficial. Pessoas que trabalharam e ajudaram a construir a história, mas não tiveram uma oportunidade [de ser ouvidas]. E também consultamos essas pessoas para ver o que elas têm de documento, de iconografia, de fotografia. Então nós pegamos esses documentos e transformamos em fonte de pesquisa de assuntos não trabalhados pela historiografia oficial.

Conexão Ciência: Como vocês chegam a essas personagens?
Paulo Boni:
Descubra uma. Se você descobrir uma, ela vai te indicar mais 7 ou 8. Se você procurar esses 7 ou 8, eles vão te indicar mais 6 ou 7. E aí você vai multiplicando naturalmente. Se você tiver um ponto de partida, você terá as fontes garantidas.

Conexão Ciência: O Sr. havia citado a importância de se resgatar a história do norte do Paraná. Para o Sr., qual a importância de se resgatar essa história e se arquivar tudo isso?
Paulo Boni:
Um povo que não conhece sua história não tem sequer identidade. É fundamental conhecer a história para compreender o presente e planejar o futuro. Nós trabalhamos nesse sentido com uma vantagem: pessoas que estiveram aqui quando começou o norte do Paraná ainda estão vivas. Muitas estão lúcidas e dão entrevistas. Nós temos o privilégio de beber direto da fonte, temos o museu histórico que faz um trabalho seríssimo. Estamos conseguindo solucionar dúvidas sobre a história da imprensa de Londrina, porque existem registros oficiais que trazem informações truncadas, às vezes, equivocadas e nós estamos corrigindo tudo isso, consultando esse material diretamente no museu histórico, que tem coleção dos primeiros jornais, das primeiras revistas. Nós estamos indo lá e consultando diretamente o produto. Com isso, nós estamos resolvendo alguns problemas e dúvidas históricas e principalmente informações que foram erroneamente passadas e multiplicadas.

Conexão Ciência: O Sr. tem algum exemplo de alguma informação equivocada em que vocês tenham descoberto a verdade?
Paulo Boni:
Tem sim. Na história da imprensa há informações sobre jornais que teriam circulado de tal a tal período e você vai ao museu e encontra alguns exemplares de datas posteriores às do período em que oficialmente esses jornais teriam parado de circular. Outra coisa que eu gostaria de destacar desse e de outros projetos que nós temos trabalhado é que quando dúvidas perduram, nós falamos que aquele é um assunto não resolvido, que nós trilhamos determinados caminhos e não conseguimos a resposta. É uma espécie de atalho para outros pesquisadores [tentarem buscar tais respostas].

Conexão Ciência: Existe alguma grande questão que o projeto não tenha conseguido responder?
Paulo Boni:
Eu estou incomodado nesse momento com a área da saúde de Londrina, nos seus primeiros anos de existência, porque faltam informações a respeito de diversos hospitais que surgiram e depois foram substituídos por outros em nossa cidade. Nós não conseguimos descobrir, mesmo com intensas pesquisas na área de saúde, se os hospitais mais novos que surgiam incorporavam os mais antigos ou se eles começavam a funcionar do zero, sem nenhuma relação com os que já existiam. Então ainda são dúvidas difíceis de resolver.

Conexão Ciência: E existe algum caso de dúvida que tenha sido solucionada pelo projeto?
Paulo Boni:
Tem pequenas coisinhas. Por exemplo, no projeto sobre a década de 30, nós esclarecemos muito sobre a construção da ponte ferroviária do rio Tibagi, em Jataizinho. No da década de 40, nós prestamos esclarecimentos sobre a cultura cafeeira. Porque sempre que se fala em Londrina, se fala no café. E na verdade, nos 15 primeiros anos na história de Londrina, o café era mero coadjuvante. Estava longe de ser o primeiro produto de fonte de riquezas. E nós deixamos bem claro que a importância do café na região foi a partir de 1945, com o fim da 2ª Guerra Mundial. Antes disso, o café era um produto como outro qualquer.

Conexão Ciência: Fora essa questão da saúde e da recuperação e organização dos arquivos, existem outros objetivos desse projeto?
Paulo Boni:
Tudo que for história de Londrina e do norte do Paraná é objetivo desse projeto. Nós vamos trabalhar, por exemplo, com a questão dos hotéis históricos, contando a história e mostrando fotografias de hotéis que nem existem mais, mas que foram absolutamente importantes no desenvolvimento na região norte do Paraná. Mas chega num momento em que tudo esbarra no dinheiro. O que é que precisa para ampliarmos [as pesquisas] publicarmos [novos artigos e livros]? Dinheiro! É o que nós não temos.

Conexão Ciência: Como é que pretende levantar recursos?
Paulo Boni:
Pode vir de patrocínios. Nós aprovamos projetos no Ministério da Cultura que permitem ao patrocinador deduzir todo o investimento no imposto de renda. Só que nós não encontramos quem queira.

Conexão Ciência: O projeto será aberto para quais estudantes?
Paulo Boni:
Ele será aberto a quem queira trabalhar, seja na graduação, especialização ou mestrado. É aberto também a alunos de qualquer curso, mesmo que não seja da área de Comunicação Social e inclusive a pessoas de fora da Universidade. Há, por exemplo, historiadores de Maringá, Cambé, Apucarana e Mandaguari participando do projeto, que não tem vínculo com a UEL. Nós queremos mostrar ao norte do Paraná todo que estamos com esse trabalho de resgate.

Legenda foto: O professor Paulo Boni: “um povo que não conhece sua história, não tem identidade”

Crédito foto: Leonardo Felix

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