Os movimentos sociais na América Latina

Projeto da UEL analisa os conflitos entre os grupos sociais e os governos neolibeirais

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Reportagem: Marielli Baratto
Pauta e Edição: Kauana Neves

O coordenador do projeto “Poder político e lutas sociais na América Latina hoje”, Eliel Machado, formado em Ciências Sociais pela USP, com mestrado e doutorado pela PUC/SP, destaca como foco do estudo os movimentos sociais que tiveram maior expressão nas lutas empreendidas por esses grupos sociais e a reação dos Estados. O professor cita como exemplo grupos como os “Piqueteiros”, na Argentina, “Zapatistas”, no México, “Cocaleiros”, na Bolívia, “Índios Equatorianos”, no Equador e, no Brasil, o “MST”.

Segundo o professor, alguns grupos, com base popular em sua formação, se puseram críticos às políticas neoliberais da América Latina. A preocupação do professor é com a repercussão desses movimentos, quais foram os alcances obtidos e se tinham um caráter apenas emergencial. Pode haver diferenças entre si, como na constituição dos mesmos, principalmente em relação às origens políticas e sociais, por exemplo. Os Piqueteiros surgiram na Argentina, em um momento em que as taxas de desempregos eram altíssimas, atingindo 30% da População Economicamente Ativa (PEA).

No Brasil, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) surgiu pelo descontentamento em relação ao modelo de reforma agrária imposto pelo governo militar. Como plano imediato, a luta desse grupo é pela reforma agrária no país, segundo o doutor. Um ponto em comum entre esses movimentos é que todos se colocaram contra às políticas neo-liberais adotadas pelos seus países, identificou Machado no decorrer do seu projeto.

O professor destaca que na Argentina, por exemplo, o movimento dos “Piqueteiros” teve início com os trabalhadores desempregados ao longo da década de 1990. “Um pouco antes da crise econômica provocada pela política do câmbio fixo, ou seja, a política em que o governo adotou a paridade da moeda local em relação ao dólar. Essa postura política deu início a uma grande recessão que levaria à queda do governo de Fernando de La Rúa, em 2001”, explica Eliel.

O professor pontuou que no Equador e na Bolívia dois movimentos sociais destacam-se. Os Índios Equatorianos e os Cocaleiros têm uma postura contra às políticas neo-liberais. “No Equador, a Conferedação de Nacionalidades Índigenas do Equador (Conaie) foi muito combatida pelo Estado por ser uma organização indígena que ficou conhecida pelos seus levantes populares. Já na Bolívia, os Cocaleiros mesclam a questão étnica com questões sociais e econômicas, pois envolvem suas tradições milenares, como o cultivo da folha de coca, com problemas sociais e econômicos típicos do capitalismo”, explica Eliel.

De acordo com o professor, a reação desses grupos, como os piqueteiros, zapatistas, sem-terra, índios equatorianos e cocaleiros, se dá de várias formas como a ocupação de prédios públicos, passeatas e marchas, ocupações de terras e enfrentamentos com a polícia. Segundo o professor, a atuação deles, em geral, conseguiu segurar a implantação das políticas neoliberais ou, pelo menos, alguns dos seus efeitos mais nefastos. “Pode-se dizer que são vitórias parciais, pois essas lutas só conseguiram diminuir o ritmo do processo e deram mais trabalho para que as políticas neoliberais fossem aplicadas”, afirma Machado.

Eliel Machado explica que praticamente, de forma invariável, a primeira ação dos Estados é a repressão aos movimentos. O professor destaca a repressão violenta ocorrida no Brasil, citando o episódio de Eldorado dos Carajás, no Pará, em 1996. Na concepção do professor, esses grupos começaram a passar por mudanças com as eleições de Hugo Chávez (Venezuela), Luís Inácio Lula da Silva (Brasil), Evo Morales (Bolívia) e Nestor Kirshner (Argentina). Esses novos governos têm posturas bem diferentes dos governos que os antecederam.

No Brasil, o Governo Lula tem uma maior ligação com o MST e, para o professor, isso quebra um pouco o ímpeto do movimento pela luta que impunha, que é a reforma agrária. “Os “Piqueteiros” perderam um pouco a força de atuação depois do quadro conjuntural que se construiu no Governo Kirshner. Com o aumento de empregos e a retomada do crescimento do país, a causa do descontentamento dos integrantes do movimento diminuiu”, explica o professor. É nesse contexto que o grupo perde a força de atuação, levando em consideração toda a situação política do país em relação ao governo antecessor, segundo Machado.

Após tantas mudanças ocorridas no campo político, econômico e social, esses movimentos estão encontrando dificuldades para retomar as causas primeiras do seu surgimento, devido às mudanças que os países passaram ou vêm passando, pontua Eliel Machado.

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