Doutora em Sociologia pretende traçar o perfil dos jovens de áreas segregadas de Londrina

foto pqnaEm projeto de pesquisa, professora objetiva abordar quais as causas que levam os jovens à morte e quais são as possíveis ações governamentais para mudar essa situação

 

Pauta: Lígia Zampar
Reportagem: Marielli Baratto
Edição: Vitor Oshiro

Como tema do seu mestrado, a professora Dione Lolis, graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), mestre em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e doutora em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP – Campus de Araraquara), pesquisou o significado da violência nos bairros da cidade de Londrina. Já para o doutorado, o tema escolhido foi sobre os homicídios de jovens por armas de fogo. Seguindo este histórico acadêmico de pesquisas sobre violência, a professora Dione Lolis conversou com o Conexão Ciência sobre o projeto que ele está desenvolvendo atualmente: “Violência, risco e vulnerabilidade: homicídios de jovens e segregação espacial em Londrina”, que teve início em junho deste ano e tem término previsto para 2012.

Conexão Ciência: Qual é o objetivo do projeto?
Profª Dione Lolis: O objetivo do projeto é conhecer mais de perto a realidade os jovens das áreas segregadas. Saber quais são as regiões onde há a maior incidência de homicídios. Ver como vivem esses jovens em situação de risco, quais são as suas expectativas e, claro, as situações de vulnerabilidade, que acabam, de alguma forma, levando os jovens a cometer os homicídios.

Conexão Ciência: Como será o desenvolvimento do projeto?
Profª Dione Lolis: O plano de trabalho do projeto inclui o levantamento de indicadores das territorialidades da violência, como a população por região e microrregião e indicadores do perfil da população, realização de entrevistas com familiares e moradores das microrregiões com maior ocorrência de homicídios de jovens, por exemplo.

Conexão Ciência: Quais são as áreas de maior segregação em Londrina? Existem causas específicas para que a incidência seja maior nessas regiões?
Profª Dione Lolis: Para o estudo, a divisão das regiões foi feita a partir da divisão do orçamento participativo da prefeitura de Londrina. As áreas de segregação são as favelas, assentamentos ou até mesmo favelas que foram urbanizadas, mas com instalações precárias. Na região norte, identificamos regiões como o conjunto habitacional Maria Cecília. A oeste, podemos citar as comunidades Irmão Turquino, Nossa Senhora da Paz. A leste, por exemplo, entra na classificação as comunidades Marabá, Jardim Santa Fé, Vila Fraternidade. Ao sul, o bairro União da Vitória e Perobal, por exemplo. Os indicadores da pesquisa apontam que a incidência é maior nessas regiões devido aos jovens se envolverem com o tráfico de drogas. Pois, o tráfico facilita, de certa forma, o jovem ter acesso às armas de fogo e esse é o principal instrumento usado nos homicídios

Conexão Ciência: Qual era o perfil dos jovens que se encontravam em situação de risco na cidade de Londrina?
Profª Dione Lolis: De acordo com os dados colhidos nos Institutos Médicos Legais (IMLs) da cidade, quase 100% dos mortos eram homens, com baixa escolaridade. Mutos freqüentaram a escola até a quinta série, apenas. A maioria era solteiro. Onde há registros, a ocupação desses homens eram aquelas que não exigiam muita qualificação, como trabalhadores da construção civil, por exemplo. Poucos eram estudantes e grande parte deles moravam nas regiões segregadas da cidade.

Conexão Ciência: Que tipos de conflitos levam esses jovens à morte?
Profª Dione Lolis: O conflito, em sua predominância, que leva os jovens à morte é o homicídio. Através de levantamentos feitos com dados coletados nos IMLs da cidade, a partir de 2000, o homicídio passou a ser a primeira causa de morte violenta na cidade e 68% das vítimas tinham entre 15 a 24 anos. E 98% das mortes eram causadas por arma de fogo. Poucos foram os casos registrados de morte causados pelas chamadas “armas brancas”, como a faca, por exemplo. Como já disse, devido aos jovens estarem envolvidos com o tráfico de drogas, onde o mesmo tem um acesso facilitado às armas, esse acaba sendo o instrumento de uso recorrente nos homicídios. A arma tem um grande poder de eliminação, consequentemente, é a mais usada.

Conexão Ciência: Quais são as possíveis políticas públicas para diminuir o número de homicídios na cidade?
Profª Dione Lolis: As políticas preventivas, principalmente aquelas dando atenção à criança e ao adolescente, como o direito à educação, pois, a evasão escolar nas regiões segregadas é grande. A escola e a família são os lugares de socialização do jovem. Quando essas duas instituições não respondem mais, o jovem começa a procurar outras formas de socialização. Neste momento, qele se identifica com outros grupos. E nem sempre esses grupos o levarão para um caminho certo. Então, as políticas devem dar atendimento prioritário a essas crianças e jovens que se encontram em tal situação, oferecendo programas de saúde e educação. As políticas que atendem as jovens que já têm atos infracionais também devem ser mantidas, por mais que isso seja uma ação mais trabalhosa, onde o resultado vem à longo prazo. O Governo deve atentar também à questão do tráfico de armas. Deve-se verificar como está sendo o trabalho contra o acesso às armas de fogo pelos jovens. As políticas de segurança devem atuar nessas áreas também, não só na repressão.

Conexão Ciência: Para finalizar, qual é o resultado esperado ao fim do prazo do projeto?
Profª Dione Lolis: Esperamos promover o debate acadêmico sobre um dos principais problemas da modernidade e que afetam especialmente os jovens “encurralados” em territórios estigmatizados e segregados. Também esperamos contribuir para a pesquisa de temas que atingem direta e indiretamente o Serviço Social e, consequentemente, pensar propostas de ação para o enfrentamento do problema. Queremos propiciar a formação de alunos de Serviço Social através da participação em pesquisa e levá-los a compreender a importância da investigação na profissão. Outro resultado esperado é contribuir para a produção científica e fortelecer os grupos de pesquisa em Serviço Social, e estabelecer intercâmbios com outras áreas do conhecimento. Visamos capacitar alunos do curso de Serviço Social para a prática da pesquisa, com vistas à otimização das disciplinas teóricas. Queremos estimular os alunos do Mestrado em Serviço Social para que desenvolvam pesquisas sobre a violência e sobre a intervenção na área. É importante disseminar a produção científica através de publicações impressas e de outros meios de divulgação e contribuir para a elaboração de propostas que visem a redução dos níveis de violência homicida de jovens.

Legenda da imagem: Segundo a professora Dione Lolis, os homícidios muitas vezes estão ligados ao tráfico
Crédito: Marielli Baratto

Ano 6 – Edição 73 – 26/09/09

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