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outubro 27, 2009

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Inclusão educacional de portadores de deficiência

outubro 27, 2009

“IV Simpósio Londrinense sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente” e projeto”ECA aplicado na educação escolar” problematizam a inclusão educacional do portador de necessidades especiais por mestres, pais e alunos

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Pauta: Daniela Brisola
Reportagem: Willian Casagrande Fusaro
Edição: Kauana Neves

O “IV Simpósio Londrinense sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente”, neste ano com o tema “Do direito à dignidade às crianças e adolescentes com necessidades especiais”, realizou-se nos dias cinco, seis e sete de outubro, no Anfiteatro do CESA, no campus da Universidade Estadual de Londrina (UEL). A coordenadora do evento, a professora Vilma Aparecida do Amaral, também responsável pelo projeto de extensão “ECA Aplicado na Educação Escolar”, do Departamento de Direto Público da Universidade.

O Simpósio, segundo a docente, graduada em Direito e mestra em Direito Negocial pela UEL, prioriza a busca pela interatividade e o respeito entre o interlocutor e o portador de necessidades. “Quando não há interação, ou se ignora ou se menospreza. Com a interatividade, tem-se conhecimento e consciência da situação do portador de deficiências”. O debate acerca do conhecimento dos artigos que compõem o código do ECA, Estatuto da Criança e do Adolescente, pelos pais, professores e alunos, é o tema mais abrangente do projeto de extensão coordenado pela professor Vilma do Amaral. Abaixo, a organizadora explica um pouco mais sobre o Simpósio e o Projeto ao Conexão Ciência.

Conexão Ciência: O IV Simpósio Londrinense sobre o Estatuto da Criança objetiva analisar o que tem sido feito sobre o direito à dignidade do estudante portador de necessidades educacionais especiais nas várias esferas da vida pública. Em relação a isso, quais foram as questões mais comentadas na mesa-redonda?
Profa. Vilma do Amaral –
A responsabilidade, que é muito mais daquele que deve ter consciência do que daquele que não a tem por limitações. Quem lida com pessoas com necessidades especiais se coloca, muitas vezes, como padrão, mas padrão voltado a quê? Quais os valores, os requisitos ou os ideais que dizem que eles [os portadores de deficiência] são diferentes? Em uma visão mais individualista, a interatividade não ocorre, porque é necessário que haja alteridade, mudança de referência, colocar-se no lugar do outro. A partir daí, tem-se respostas mais próximas do esperado.

Conexão Ciência: Como está o panorama atual da inclusão educacional no Paraná em relação ao que se apresentava há alguns anos? Houve muitas mudanças? Se sim, em quais aspectos?
Profa. Vilma do Amaral –
Não há dados concretos sobre isso por enquanto, mas estamos muito longe do ideal. Não há investimento em infraestrutura pelo próprio Estado: se incluirmos os cegos na escola comum, teríamos livros em braile? Caso incluamos o surdo-mudo, teríamos professores o suficiente que sabem “Libras”? Sem estrutura necessária, não ocorre inclusão; o estudante portador de necessidades, se estiver de corpo presente, pode sofrer uma segregação ainda maior com esse descaso.

Conexão Ciência: No ECA, Art. 54, parágrafo III, cita-se que “é dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente atendimento especializado aos portadores de deficiência, principalmente, na rede regular de ensino”. Essa norma do Estatuto é devidamente cumprida no Paraná?
Profa. Vilma do Amaral –
Deixa muito a desejar. Inclusive, o Simpósio, criado por meio do projeto “ECA Aplicado na Educação Escolar”, veio justamente para fazer essa chamada, problematizar essa questão. Hoje em dia, fala-se muito em políticas inclusivas, mas não se vêm em quê ela se sustenta, já que é totalmente retórica, aos “quatro ventos”, diferente do que na prática acontece.

Conexão Ciência: Em relação à recente discussão do Ministério da Educação que aprovou a exigência da matrícula dos alunos portadores de necessidades especiais em escolas regulares e até cogitou-se extinguir as APAEs, a estrutura física e profissional da rede pública de ensino favorece essas atitudes?
Profa. Vilma do Amaral –
Não. Se para aqueles que se dizem “normais” a estrutura já não é suficiente, imagine para os que são “diferentes”. A maior dificuldade é o preparo para com os estudantes por parte dos professores, e isso remete a outra questão, que é a mudança no nível superior. Na formação dos professores, não há preparação para se trabalhar com essas diferenças maiores, pois não há, em suas grades, disciplinas preparatórias para atuar com essas diferenças ” diálogos com surdos-mudos, cuidado com deficientes intelectuais e crianças hiperativas etc. Se o surdo-mudo precisa de educação, o mestre tem de reconhecer isso e acompanhar o estudante. Necessita-se, portanto, de mais de um professor por classe: um para a turma e outro para o estudante portador de necessidades especiais.

Conexão Ciência: Um dos argumentos usados pelos defensores da medida no Congresso era que as APAEs segregavam os estudantes.Qual a sua opinião quanto a isso?
Profa. Vilma do Amaral –
Discordo. Se a família tiver consciência das necessidades da criança o do adolescente, deve procurar o que é melhor para ele em instituições especializadas, para que as diferenças possam diminuir e haja a interação. Porém, os pais devem participar do aprendizado, porque devem aprender a interagir com os necessitados em usar outras linguagens. Infelizmente, essa mudança, essa consciência, só vem quando se é muito necessário, ou seja, quando alguém próximo é acometido por essas deficiências.

Conexão Ciência: Uma das funções do seu projeto é apresentar o Estatuto para professores, bem como para pais e estudantes. Os professores desconhecem a lei?
Profa. Vilma do Amaral –
Evidencia-se bastante. No III Simpósio, que tratou do desconhecimento do Estatuto, em 2008, fizeram-se pesquisas sobre o entendimento do Estatuto e muitos não o entendiam. Há também o desconhecimento em relação ao caráter do ECA, porque muitos acham que ele é feito apenas de direitos; outros ainda confundem autoridade no ambiente escolar com autoritarismo. Quando se trabalha com professores, observa-se que não há conhecimento necessário das leis.

Conexão Ciência: No geral, desde o início da pesquisa, houve melhora na compreensão do papel sócio-educativo do ECA por parte dos integrantes?
Profa. Vilma do Amaral –
Com essa temática, que já é trabalhada desde os anos 90, o conhecimento e a compreensão desse tema foram se estendendo. O resultado está longe do esperado, e os simpósios são organizados justamente para podermos levar o Estatuto ao maior número de pessoas, estudantes, pais e professores de escolas municipais e estaduais. Atualmente, temos quatro escolas na lista do projeto de extensão, as quais foram indicadas pelo Núcleo Regional de Educação e aceitaram participar da análise. Cada uma seleciona qual das três categorias de estudo ” pais, professores ou alunos ” deve ser abordada com prioridade. Isso é muito positivo, é a grande conquista desse projeto.

Conexão Ciência: Quais as relações possíveis que se pode fazer entre o Direito e a lei em questão?
Profa. Vilma do Amaral –
O ECA é um microssistema jurídico, ou seja, uma lei em que se confluem várias áreas do Direito, como o Direito Civil, Penal, Administrativo e Constitucional. Além disso, a lei da criança e do adolescente é um direito difuso, responsabilidade de todos nós e de todas as áreas da esfera pública ” saúde, educação, política etc. Por fim, há a necessidade de atuação das políticas públicas para a efetivação das leis, pois o lazer, a educação, a saúde e a segurança, por exemplo, devem voltar-se de maneira vinculada ao indivíduo, no caso à criança e ao adolescente, para o cumprimento das normas do Estatuto.


Fatos e Mitos do Aquecimento Global

outubro 27, 2009

Palestra sobre mudanças climáticas é destaque na XXV Semana de Geografia da UEL

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Pauta: Daniela Brisola
Reportagem: Karina Constâncio
Edição: Kauana Neves

O Departamento de Geografia realizou nos dias 5 a 9 de outubro a XXV Semana de Geografia da Universidade Estadual de Londrina. O evento teve como tema “A Geografia no início do século XXI: tendências e perspectivas”. Dentro da programação da Semana, foi destaque a palestra sobre mudanças climáticas que ocorreu no dia 6 de outubro no Anfiteatro do Centro de Ciências Humanas (CCH) da UEL. Denominada “Mudanças Climáticas Globais” foi ministrada pelo Professor Doutor Luiz Carlos Baldiero Molion da Universidade Federal de Alagoas. Ele possui graduação em Física pela Universidade de São Paulo, Phd em Meteorologia pela University of Wisconsin em Madison, pós-doutorado em Hidrologia de Florestas pelo Institute of Hydrology em Wallingford (UK), pesquisador Senior aposentado do INPE/MCT (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais / Ministério da Ciência e Tecnologia), atualmente trabalha como professor associado da Universidade Federal de Alagoas, professor visitante da Western Michigan University e professor de pós-graduação da Universidade de Évora em Portugal.

Molion critica o aquecimento global e afirma que nos próximos anos, na verdade, vai haver um resfriamento do planeta. Segundo o físico, o aquecimento ocorreu mesmo entre 1977 a 1998 e atualmente não existem bases científicas sólidas para o aquecimento global, ao contrário, todos os dados convergem para a conclusão de que a Terra está esfriando. Outra crítica estabelecida por ele é quanto à interferência humana no clima. Para o professor, as mudanças climáticas globais acontecem por causas naturais e não pelas mãos do homem.

De acordo com o gráfico apresentado por Molion, o planeta já passou por dois resfriamentos e dois aquecimentos: até 1920 a temperatura era mais baixa que a atual e foi chamada de Pequena Era do Gelo, depois disso houve um rápido aquecimento entre 1925 e 1946, sucedido por um novo resfriamento entre 1947 e 1976 e de 1977 a 1998 as temperaturas voltaram a atingir índices mais elevados. Ele analisa que no primeiro aquecimento, o homem praticamente não lançava carbono na atmosfera, já após a Segunda Guerra Mundial, quando começou o desenvolvimento acelerado da indústria, ocorreu o aumento da emissão de carbono e a temperatura diminuiu. “Eu concluí, em um artigo escrito em 1990, que esse aquecimento de 1925 a 1946 teria sido por causas naturais, como o aumento da atividade solar e o aumento da transparência da atmosfera, e não tinha nada a ver com o efeito estufa já que o homem na época lançava menos de 10% do carbono que lança hoje. Curiosamente, depois que o homem intensificou suas atividades houve um decréscimo na temperatura, então não posso dizer que está havendo um aquecimento global e muito menos atribuir ao homem culpa sobre as mudanças no clima” completou o professor.

O IPPC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) afirmou, no ano de 2007, em seu “Sumário Executivo para Formuladores de Política”, que o aumento da temperatura média global, a partir de 1950, foi devido ao crescimento da emissão dos gases de efeito estufa, como o gás carbônico e o metano. Conforme Molion, nem o metano nem o gás carbônico controlam a temperatura global. Nota-se, de acordo com ele, que nos últimos 10 anos, mesmo tendo aumentado as fontes, o metano se estabilizou e, embora tenha aumentado a concentração de gás carbônico na atmosfera, as temperaturas continuam caindo. O físico também critica o “Protocolo de Kyoto” que propõe reduzir 5,2% das emissões humanas de 2008 a 2012. Segundo ele, reduzir a emissão de gás das fontes artificiais não vai adiantar nada. “Estima-se que os fluxos naturais de carbono ” que vêm dos oceanos, da vegetação e do solo ” sejam da ordem de 200 bilhões de toneladas por ano (com um erro de 20%, podendo então ser 40 bilhões para mais ou 40 bilhões para menos) e o homem coloca na atmosfera 6 bilhões de toneladas por ano. A margem de erro é 7 vezes maior do que o que homem coloca. Reduzir então a emissão das fontes artificiais não adianta enquanto nós não tivermos uma idéia muito boa do controle das fontes naturais.”

Molion ainda afirma que o clima é complexo e depende de fatores internos e externos e destaca que o sol, o ciclo hidrológico e a temperatura do Oceano Pacífico são grandes controladores da temperatura do planeta. A cada 90 anos, o sol entra em um mínimo de atividade produzindo menos energia e causando, portanto, o resfriamento da Terra. De acordo com o professor, até 2030 o sol vai atingir esse mínimo, o Pacífico também estará em uma nova fase fria e, baseado nos acontecimentos do passado, podemos esperar primaveras mais violentas, frequências maiores de tempestades, tornados, tempestades elétricas, chuvas de granizos e invernos mais rigorosos. O resfriamento do planeta, segundo ele, é uma péssima notícia, o frio é terrível para o ser humano, com o aumento da ocorrência de epidemias, e para a agricultura. O físico ressalta que não estamos preparados para o resfriamento, mas que podemos nos adaptar, procurando cultivos e métodos que sejam mais resistentes a geadas e preservando o ambiente.

O que está por trás de todo o aparato ideológico em cima do aquecimento global, de acordo com o professor, só a história poderá dizer, mas existem interesses econômicos e políticos envolvidos. Como justificativa, ele estabelece uma comparação com o caso dos gases CFC (Clorofluorcarbono) que acusados de destruir a camada de ozônio foram, por meio do “Protocolo de Montreal” (1987), eliminados e substituídos por outros gases e percebe-se hoje que cinco indústrias localizadas nos EUA, Inglaterra, Alemanha, França e Canadá é que realmente se beneficiaram. Molion chama essa atitude de neocolonialista, ou seja, para conseguir uma dominação econômica e tecnológica, aponta que o aquecimento global está seguindo o mesmo caminho com o “Protocolo de Kyoto” e acusa que quando os países falam em redução da emissão de carbono eles estão falando na redução de energia elétrica e isso significa acabar com o desenvolvimento social dos países em desenvolvimento ou que vão se desenvolver. Para o físico o que deve ser combatido é a poluição (enxofre) e não o gás carbônico.

Molion finaliza destacando a importância da preservação ambiental para a humanidade “A conservação ambiental é necessária independente do clima. Inevitavelmente, vai ocorrer o aumento da população e se nós não passarmos a preservar o ambiente, mudar hábitos de consumo, reciclar, economizar energia, vai ser muito difícil a raça humana permanecer nesse planeta.”


Música aproxima Universidade de realidade social

outubro 27, 2009

Dois projetos do Departamento de Música da UEL têm objetivo de interligar a erudição musical da Academia com conhecimentos musicais de comunidades carentes

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Pauta: Daniela Brisola
Reportagem: Leonardo Felix
Edição: Kauana Neves

Sair das teorias da Universidade e ingressar na realidade prática das comunidades londrinenses. Esse é o objetivo descrito no resumo do projeto Movimentos Sociais e práticas musicais no contexto da periferia urbana de Londrina iniciado em abril de 2007. Para a coordenadora do projeto Cleusa Erilene dos Santos Cacione, graduada em música pela Faculdade de Música Mãe de Deus e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Londrina, mais do que um objetivo, essa filosofia é uma necessidade: “antes a Universidade era um “castelo” e o pesquisador não punha o pé para fora dele. Hoje, o pesquisador tem que trabalhar junto com a comunidade, estar inserido nela e as pesquisas têm que sair dessa relação”.

A professora conta como houve a percepção de que estudantes e professores deveriam imergir nos costumes de uma comunidade antes de trabalhar com ela: “a maioria dos nossos estudantes, quando fazia suas inserções e estágios, sempre levava informações a respeito da música que eles traziam, já que eles eram músicos de orquestra, coral ou da noite. Quando eles entravam em contato com os adolescentes, cujo meio musical é bem distante do que nosso curso oferece, o papel desses universitários de levar a música à comunidade ficava comprometido. A partir disso, existiu a preocupação de se aproximar do contexto social do indivíduo com o qual nós queríamos trabalhar”.

Assim, iniciaram a ideia de uma oficina de música para crianças de colégios da periferia, que respeitasse o discurso musical desses alunos. Cleusa Cacione afirma que Movimentos Sociais só foi posto em prática após um estudo da cultura juvenil. E foi a cultura juvenil que os participantes utilizaram no período inicial de contato com os jovens do colégio estadual Antônio Moraes de Barros, situado no Jardim Bandeirantes, zona oeste de Londrina. Depois da aproximação, houve a inserção gradativa de estilos musicais até então desconhecidos dessas pessoas. Uma das ações foi aproveitar músicas já conhecidas e acolhidas pela maioria dos adolescentes e fazer rearranjos delas, inserindo elementos mais sofisticados. Romper o bloqueio natural que os estudantes do colégio ofereciam com relação ao novo foi outro desafio enfrentado, ressalta a professor Cleusa Cacione, mas com o uso de estratégias de aproximação, como o uso de músicas e textos presentes em suas realidades, a receptividade aos integrantes do projeto foi positiva.

Além de rearranjos de músicas já existentes, alguns estudantes do Colégio Antônio Moraes de Barros chegaram a apresentar composições próprias: “houve um grupo da 7ª série que nos apresentou um rap que eles tinham composto e foi uma grata surpresa, porque eles faziam todos os sons dos instrumentos e da percussão só com o corpo e com a voz”, elogia a coordenadora. Cleusa Cacione frisa que nunca passou por nenhum problema de comportamento com qualquer aluno que tenha participado das oficinas musicais.

O projeto recebeu recursos da Fundação Araucária para compra de equipamentos e materiais como computadores, impressoras, câmeras de vídeo e fotografia digitais, data shows, livros e para pagar bolsas aos estagiários. Com esses equipamentos, o grupo pôde registrar as oficinas e apresentações realizadas pelos jovens. A intenção, segundo a coordenadora, é de que esse material seja editado e apresentado ao público, embora ainda não haja previsão. Movimentos Sociais e práticas musicais no contexto da periferia urbana de Londrina também objetiva “trazer para dentro do curso de Música toda a análise dos materiais coletados para o projeto, revertendo todos esses dados em literatura para os alunos de Música não só da UEL, mas de uma maneira geral”, nas palavras da professora. A finalização do projeto era prevista para o dia 30 de setembro de 2009, mas, devido a atrasos em seu início, Movimentos Sociais só vai ter os trabalhos concluídos em 2010.

Enquanto o resultado final desse projeto não sai, um segundo de mesmo cunho e inspirado no primeiro já está em curso. Trata-se do projeto Identidades e culturas juvenis: agregando escola e comunidade na busca da transformação social, coordenado pelo professor do Departamento de Música Leandro Ernesto Maia, graduado em Música e mestre em Literatura brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os princípios e objetivos são semelhantes aos do anterior, mas com local diferente: o colégio estadual Ana Garcia Molina, no Jardim Interlagos, zona leste da cidade.

As oficinas musicais ocorrem aos sábados, no período matutino, e ainda estão em processo de iniciação. Para chamar os moradores e, principalmente, os jovens do bairro a participar, os integrantes saem às ruas do Interlagos com instrumentos na mão, batucando. “No primeiro dia teve algumas resistências à nossa música, como aquele senhor que fica observando do portão de casa e olhando para nós com cara feia”, descreve Leandro Maia. Ele explica que apesar dessas exceções, o grupo tem sido bem recebido pelas pessoas, principalmente, crianças. O estudante Pedro Henrique, de 12 anos, é morador do Jardim Interlagos e participa da oficina pela primeira vez: “estou gostando muito, porque você aprende a fazer música e a ouvir eles (os músicos do projeto) tocando também”, diz.

Para o coordenador, o processo de iniciação visa criar uma motivação musical. Serão utilizados nessa evolução instrumentos como flauta doce, violão e principalmente a percussão, considerada pelo professor como o principal ponto estratégico para aproximar músicos e população. Maia ainda pondera que “o papel da Universidade durante as oficinas é aprender e articular junto com a comunidade e a escola as possibilidades de construção da cidadania, da auto-estima, da formação de valores sociais, da convivência social, de uma cultura de paz e, no futuro, de alternativas sociais dentro das artes e da cultura para esses jovens”.

A realização das oficinas durante os sábados só é possível porque o colégio Ana Garcia Molina é o único da cidade a praticar um projeto escolar chamado Escola Aberta, que consiste em abrir as dependências durante os fins de semana e oferecer aos habitantes de seu entorno diversas atividades culturais. Segundo o diretor auxiliar do período noturno do colégio, Jorgisnei Rezende, já foram oferecidas pelo Escola Aberta mais de dez oficinas para os residentes da região. Atividades como artesanato, capoeira, teatro, culinária, hip hop, grafite, dança de salão, futebol, línguas, violão e, agora, a oficina musical coordenada pelo professo Leandro Ernesto Maia. O diretor justifica que, além da integração e inclusão social geradas pelas oficinas, há um outro fator que motiva ao colégio a praticar o Escola Aberta: “Existe um estigma negativo com relação ao colégio Ana Garcia Molina, que sempre aparecia na mídia por aspectos negativos: ou porque achavam armas e drogas na escola, ou porque algum aluno agredia o professor. E nós temos conseguido grandes avanços na tentativa de resgatar a imagem do colégio, através de eventos e projetos como o Escola Aberta”.

O grupo musical formado pelos integrantes de Identidades e culturas juvenis: agregando escola e comunidade na busca da transformação social e pelos jovens participantes da oficina já tem uma apresentação prevista a ser realizada em 20 de novembro, no próprio Ana Garcia Molina, durante a semana da Consciência Negra. Já existem também convites para que eles se apresentem em outros colégios de Londrina, mas o coordenador do projeto preferiu não citar os nomes e as datas até que as apresentações estejam confirmadas.


O ensino da música para crianças

outubro 27, 2009

Conferência de abertura do XVIII Congresso Nacional da Associação Brasileira de Educação Musical trata da maneira como se ensina música para crianças

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Pauta: Daniela Brisola
Reportagem: Isabella Verri Sanches
Edição: Kauana Neves

Entre os dias seis a nove de outubro aconteceu, em Londrina, o XVIII Congresso Nacional da Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM), junto com o 15º Simpósio Paranaense de Educação Musical, promovido pela UEL. Segundo o site oficial do ABEM (http://www.abemeducacaomusical.org.br/abem2009/), o evento teve como objetivo debater, redefinir e estabelecer novas ações que possam ampliar e consolidar formas de atuações da ABEM. A sua programação contou com apresentações musicais, rodas de discussão, bate-papo e painéis temáticos, cursos e palestras.

A Conferência de abertura do evento realizou-se no Cine Teatro Ouro Verde, ministrada pela americana Patrícia Campbell, e teve como tema: “A educação musical nos diferentes contextos”. Patrícia Campbell é Docente na Universidade de Washington, onde ministra cursos com interfaces entre a educação musical e etnomusicologia, além de coordenar projetos comunitários musicais universitários, entre eles o Music Alive! no vale do Yakima, em Washington.

A palestrante define seu trabalho como sendo “pelo amor das crianças: música, educação e cultura”, onde música, educação e cultura seriam as palavras-chaves para entendermos sua forma de trabalhar com as crianças. Patrícia Campbell fala que todos nós precisamos de uma expressão musical, “todos os homens são musicais, a música é um ato social e é acolhimento”. Ela afirma que todas as crianças já nascem para pulsar música, ou seja, elas já nascem musicais, porém a sociedade reprime isso nelas. Uma questão muito presente, então, no trabalho de Patrícia Campbell é modo de ensinar a música para essas crianças.

Para a palestrante, todos temos histórias que permeiam os nossos trabalhos, onde nós transmitimos as nossas experiências, “o que eu aprendo eu acabo transmitindo, pois sou professora”, afirma ela. Entretanto, Patrícia Campbell enfatiza o fato de que as “crianças não são nós”, elas não são partituras em branco, elas trazem seu jeito específico de processar a música, que se baseia nas suas culturas, e é na sala de aula que há pontes que ligam a musicalidade dos professores com a dos estudantes. Ela diz que os professores devem se questionar quanto a: quem são as crianças que ensinam, como elas aprendem à música, que música elas valorizam, se o que realmente importa é o contexto ou a forma como as crianças recontextualizam as músicas, entre outros questionamentos.

Patrícia Campbell defende que cabe aos professores reconhecer os diferentes e a responsabilidade de ir além da superficialidade da música, colocando as pessoas em estado de questionamento e troca, “me preocupo com que ao ensinar eu não faça com que as pessoas entrem em desacordo com elas mesmas”. Segundo ela, para que o ensino da música não acabe desafinando as crianças é preciso que as escolas não se apeguem a uma única tradição cultural, trazendo, assim, várias culturas musicais para a sala de aula.

A palestrante fala que não se deve ensinar música separando canto, dança e o tocar dos instrumentos, essa concepção se relaciona com a visão das crianças, pois para elas todos esses elementos não se separam um do outro, “o que as crianças entendem por música é diferente da nossa concepção”, explica.

Patrícia Campbell afirma que na hora de lecionar, primeiro ensina-se o que está mais próximo de você, a sua herança, depois o treinamento musical e o que você absorveu da música e, por fim, ensina-se a música da comunidade, o que as crianças trazem como herança. “O que ensinamos vem da gente, das crianças, da família e da comunidade”, define a palestrante.

“Tenho sorte por trabalhar com as crianças”, explica Patrícia Campbell. Segundo ela, as crianças, quando possuem a oportunidade, falam sobre o caráter social familiar da música, do seu lado funcional, da influência do professor e de suas preferências. A professora dá exemplos de frases proferidas pelas crianças durante essas conversas: “música me dá forças para continuar meu caminho”, “eu amo o sentimento da música”, “quando canto parece que todo mundo gosta de mim”, “me relaciono com as pessoas através da música”, “algumas músicas ajudam as histórias a passarem”, “ninguém conhece a minha música além de mim”, entre outros exemplos.

Para Patrícia Campbell “a música depende da sua história, do treino, daquilo que se recebe da comunidade, do que é meu e do que é nosso”, e um professor que a ensina é poderoso enquanto esperança e diferença, acreditando naquilo que faz.


Download da edição 76

outubro 19, 2009

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Boa leitura!


Bem-estar dos animais eleva qualidade da carne

outubro 19, 2009

Projeto realizado na UEL comprova que um bom tratamento aos animais promove melhora do produto obtido

Cuidados tomados na criação dos animais tem consequencias profundas na qualidade da carne, segundo estudo da UEL.

Cuidados tomados na criação dos animais tem consequencias profundas na qualidade da carne, segundo estudo da UEL.

 

Pauta: Ana Carolina Contato
Reportagem: Felipe Barros
Edição: Tatiane Hirata e Vitor Oshiro
 

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, o Brasil é o quarto maior exportador de carne suína do mundo, responsável por cerca de 600 mil toneladas presentes no mercado externo. Mesmo com a queda de arrecadação – a receita do país no setor foi de US$ 683,57 milhões – no primeiro semestre. Atrelada ao crescimento da suinocultura nos mercados mundial e nacional, está a preocupação com o bem-estar dos animais criados. O manejo pré-abate de suínos e sua relação com a qualidade da carne é o tema do projeto coordenado pela professora Ana Maria Bridi – Graduada em Agronomia e mestre em Ciência dos Alimentos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), doutora em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e pós-doutora pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).

 
Conexão Ciência – Quais os objetivos da pesquisa realizada?
Prof. Dra. Ana Maria Bridi  São dois objetivos principais. Primeiramente, respeitar o bem-estar dos animais, descobrindo formas de manejar os suínos até o abate sem dor nem sofrimento desnecessários. Disto pode surgir a pergunta de por que preocupar-se com o bem-estar se, no fim do processo, acontecerá a morte dos animais. Existe a preocupação por uma questão de ética; não é justo que os indivíduos sofram nesse período. O segundo objetivo é promover uma melhora na qualidade da carne. Nós já sabemos que animais estressados, antes do abate, vão ter alguns problemas. Entre os mais comuns: a perda de peso e lesões (fraturas de ossos, hematomas) na carcaça do animal, salpicamento na carne (formação de coágulos). Há também a possibilidade de apresentar anomalias, como PSE (Pale, Soft and Exudative) – carne de textura mole, pálida, que não retém muita água –, e DFD (Dark, Firm and Dry) – carne escura, de textura dura, que retém muita água.
 

Conexão Ciência – Quais métodos de manejo, utilizados na pesquisa, são diferentes dos praticados?

Prof. Dra. Ana Maria Bridi – Existem algumas práticas que nós já sabemos, hoje, que não são benéficos no manejo. Um aspecto que mudamos foi, por exemplo, a condução dos animais – em baias de espera, embarque e desembarque – com bastão elétrico, resultando em carnes PSE. Substituímos o choque por tábuas da largura de um corredor que, carregadas pela mão, empurram sutilmente os animais, fazendo com que eles se movam no sentido correto. Outro aspecto é o banho dado nos animais. Quando a temperatura é superior aos 10 graus Celsius, a frequência cardíaca diminui, bem como a temperatura corporal. Assim, os animais se acalmam e a carne terá melhor qualidade. É muito importante, também, que não se misture indivíduos de grupos não-familiares (que não se conheçam); a organização social dos suínos é hierárquica e a mistura de grupos desconhecidos pode gerar muitas brigas, lesionando as carcaças dos animais, elevando o nível de stress. O tempo de espera, após o desembarque, precisa ser de, pelo menos, três horas com acesso livre à água para os suínos; a reidratação e a diminuição de hormônios do stress – cortisol, adrenalina, entre outros – auxiliam no nível fisiológico dos animais no abate. O período de jejum dos indivíduos não pode ser muito longo, pois, pode acarretar em perda de peso na carcaça do animal e stress. Resumindo, são vários fatores que foram alterados que precisam ser observados para uma melhora na qualidade da carne e no bem-estar dos animais.
 
Conexão Ciência – Há aumento significativo no custo da produção, se modificados os métodos atuais de manejo?
Prof. Dra. Ana Maria Bridi Para sair da posição de hoje para uma situação mediana, não há custo algum. Só é necessário o treinamento das pessoas responsáveis pelo manejo. Treinar o produtor na granja, o transportador para que não ande em velocidade excessiva, evitando freadas bruscas e os horários mais quentes do dia, dando preferência ao começo da manhã e ao fim da tarde. Apenas com essas orientações básicas, o cenário passa de ruim para mediano. Porém, se o modelo a ser seguido é o europeu, os gastos aparecem. Como, por exemplo, a ergonomia das instalações. É muito pior usar rampas de embarque – que aumentam o stress e o tempo de embarque – do que usar elevadores hidráulicos. Assim como, a disposição das baias de espera do frigorífico em espinha-de-peixe*, facilitando o manejo dos suínos. Essas adaptações, no entanto, já tem algum custo mais alto.
 
Conexão Ciência – Na realização da pesquisa, como pode ser avaliada a situação da produção no Brasil, mais especificamente no Sul?
Prof. Dra. Ana Maria Bridi – Na suinocultura, a situação não é tão ruim. Nós temos uma cadeia de produção verticalizada, que se dá através de Integração. Uma empresa oferece a genética, ração e medicamento ao produtor, que participa com a mão-de-obra e as instalações, entregando o produto para a empresa. O controle do processo está todo nas mãos da empresa, que sabe que o baixo padrão de bem-estar traz prejuízo econômico e, por isso, já tem procurado se adaptar. Além disso, é um setor que exporta muito para o mercado europeu e precisam estar adequados à legislação européia. Por outro lado, existem pequenos produtores e frigoríficos de expressão municipal ou estadual que têm mais dificuldade em acompanhar o processo, mas eles já estao se adequando O que nós vemos hoje é uma busca por esse conhecimento, procurando profissionais para adequação a essas práticas de bem-estar. Alguns órgãos oferecem cursos**: o ITAL (Instituto de Tecnologia de Alimentos – SP), o  WSPA (Sociedade Mundial para Proteção Animal).
Conexão Ciência – O que será feito a seguir com os resultados obtidos até agora pela pesquisa?

Prof. Dra. Ana Maria Bridi – Nós fizemos um manual que precisa apenas de financiamento para ser lançado; uma cartilha de bem-estar no manejo de suínos. Agora, vamos oferecer cursos para os produtores da região de Londrina em manejo pré-abate e bem-estar. Isso acaba por integrar os três pilares da universidade: a pesquisa, a transmissão de conhecimento para os estudantes e a extensão, quando voltamos esse conhecimento para a sociedade.

 
* Animais permanecem em ângulo aproximado de 35 graus em relação ao fosso. (Enciclopédia Agrícola Brasileira: S-Z Vol.6, EDUSP)  
** Mais informações nos sites: http://www.ital.sp.gov.br/calendario
                                             http://www.wspabrasil.org
 
Crédito da Imagem: Google
                                         
 Ano 6 – Edição 76 – 18/10/09