Bem-estar dos animais eleva qualidade da carne

Projeto realizado na UEL comprova que um bom tratamento aos animais promove melhora do produto obtido

Cuidados tomados na criação dos animais tem consequencias profundas na qualidade da carne, segundo estudo da UEL.

Cuidados tomados na criação dos animais tem consequencias profundas na qualidade da carne, segundo estudo da UEL.

 

Pauta: Ana Carolina Contato
Reportagem: Felipe Barros
Edição: Tatiane Hirata e Vitor Oshiro
 

Segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína, o Brasil é o quarto maior exportador de carne suína do mundo, responsável por cerca de 600 mil toneladas presentes no mercado externo. Mesmo com a queda de arrecadação – a receita do país no setor foi de US$ 683,57 milhões – no primeiro semestre. Atrelada ao crescimento da suinocultura nos mercados mundial e nacional, está a preocupação com o bem-estar dos animais criados. O manejo pré-abate de suínos e sua relação com a qualidade da carne é o tema do projeto coordenado pela professora Ana Maria Bridi – Graduada em Agronomia e mestre em Ciência dos Alimentos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), doutora em Zootecnia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e pós-doutora pela Universidade Estadual de Londrina (UEL).

 
Conexão Ciência – Quais os objetivos da pesquisa realizada?
Prof. Dra. Ana Maria Bridi  São dois objetivos principais. Primeiramente, respeitar o bem-estar dos animais, descobrindo formas de manejar os suínos até o abate sem dor nem sofrimento desnecessários. Disto pode surgir a pergunta de por que preocupar-se com o bem-estar se, no fim do processo, acontecerá a morte dos animais. Existe a preocupação por uma questão de ética; não é justo que os indivíduos sofram nesse período. O segundo objetivo é promover uma melhora na qualidade da carne. Nós já sabemos que animais estressados, antes do abate, vão ter alguns problemas. Entre os mais comuns: a perda de peso e lesões (fraturas de ossos, hematomas) na carcaça do animal, salpicamento na carne (formação de coágulos). Há também a possibilidade de apresentar anomalias, como PSE (Pale, Soft and Exudative) – carne de textura mole, pálida, que não retém muita água –, e DFD (Dark, Firm and Dry) – carne escura, de textura dura, que retém muita água.
 

Conexão Ciência – Quais métodos de manejo, utilizados na pesquisa, são diferentes dos praticados?

Prof. Dra. Ana Maria Bridi – Existem algumas práticas que nós já sabemos, hoje, que não são benéficos no manejo. Um aspecto que mudamos foi, por exemplo, a condução dos animais – em baias de espera, embarque e desembarque – com bastão elétrico, resultando em carnes PSE. Substituímos o choque por tábuas da largura de um corredor que, carregadas pela mão, empurram sutilmente os animais, fazendo com que eles se movam no sentido correto. Outro aspecto é o banho dado nos animais. Quando a temperatura é superior aos 10 graus Celsius, a frequência cardíaca diminui, bem como a temperatura corporal. Assim, os animais se acalmam e a carne terá melhor qualidade. É muito importante, também, que não se misture indivíduos de grupos não-familiares (que não se conheçam); a organização social dos suínos é hierárquica e a mistura de grupos desconhecidos pode gerar muitas brigas, lesionando as carcaças dos animais, elevando o nível de stress. O tempo de espera, após o desembarque, precisa ser de, pelo menos, três horas com acesso livre à água para os suínos; a reidratação e a diminuição de hormônios do stress – cortisol, adrenalina, entre outros – auxiliam no nível fisiológico dos animais no abate. O período de jejum dos indivíduos não pode ser muito longo, pois, pode acarretar em perda de peso na carcaça do animal e stress. Resumindo, são vários fatores que foram alterados que precisam ser observados para uma melhora na qualidade da carne e no bem-estar dos animais.
 
Conexão Ciência – Há aumento significativo no custo da produção, se modificados os métodos atuais de manejo?
Prof. Dra. Ana Maria Bridi Para sair da posição de hoje para uma situação mediana, não há custo algum. Só é necessário o treinamento das pessoas responsáveis pelo manejo. Treinar o produtor na granja, o transportador para que não ande em velocidade excessiva, evitando freadas bruscas e os horários mais quentes do dia, dando preferência ao começo da manhã e ao fim da tarde. Apenas com essas orientações básicas, o cenário passa de ruim para mediano. Porém, se o modelo a ser seguido é o europeu, os gastos aparecem. Como, por exemplo, a ergonomia das instalações. É muito pior usar rampas de embarque – que aumentam o stress e o tempo de embarque – do que usar elevadores hidráulicos. Assim como, a disposição das baias de espera do frigorífico em espinha-de-peixe*, facilitando o manejo dos suínos. Essas adaptações, no entanto, já tem algum custo mais alto.
 
Conexão Ciência – Na realização da pesquisa, como pode ser avaliada a situação da produção no Brasil, mais especificamente no Sul?
Prof. Dra. Ana Maria Bridi – Na suinocultura, a situação não é tão ruim. Nós temos uma cadeia de produção verticalizada, que se dá através de Integração. Uma empresa oferece a genética, ração e medicamento ao produtor, que participa com a mão-de-obra e as instalações, entregando o produto para a empresa. O controle do processo está todo nas mãos da empresa, que sabe que o baixo padrão de bem-estar traz prejuízo econômico e, por isso, já tem procurado se adaptar. Além disso, é um setor que exporta muito para o mercado europeu e precisam estar adequados à legislação européia. Por outro lado, existem pequenos produtores e frigoríficos de expressão municipal ou estadual que têm mais dificuldade em acompanhar o processo, mas eles já estao se adequando O que nós vemos hoje é uma busca por esse conhecimento, procurando profissionais para adequação a essas práticas de bem-estar. Alguns órgãos oferecem cursos**: o ITAL (Instituto de Tecnologia de Alimentos – SP), o  WSPA (Sociedade Mundial para Proteção Animal).
Conexão Ciência – O que será feito a seguir com os resultados obtidos até agora pela pesquisa?

Prof. Dra. Ana Maria Bridi – Nós fizemos um manual que precisa apenas de financiamento para ser lançado; uma cartilha de bem-estar no manejo de suínos. Agora, vamos oferecer cursos para os produtores da região de Londrina em manejo pré-abate e bem-estar. Isso acaba por integrar os três pilares da universidade: a pesquisa, a transmissão de conhecimento para os estudantes e a extensão, quando voltamos esse conhecimento para a sociedade.

 
* Animais permanecem em ângulo aproximado de 35 graus em relação ao fosso. (Enciclopédia Agrícola Brasileira: S-Z Vol.6, EDUSP)  
** Mais informações nos sites: http://www.ital.sp.gov.br/calendario
                                             http://www.wspabrasil.org
 
Crédito da Imagem: Google
                                         
 Ano 6 – Edição 76 – 18/10/09
 

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