Música aproxima Universidade de realidade social

Dois projetos do Departamento de Música da UEL têm objetivo de interligar a erudição musical da Academia com conhecimentos musicais de comunidades carentes

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Pauta: Daniela Brisola
Reportagem: Leonardo Felix
Edição: Kauana Neves

Sair das teorias da Universidade e ingressar na realidade prática das comunidades londrinenses. Esse é o objetivo descrito no resumo do projeto Movimentos Sociais e práticas musicais no contexto da periferia urbana de Londrina iniciado em abril de 2007. Para a coordenadora do projeto Cleusa Erilene dos Santos Cacione, graduada em música pela Faculdade de Música Mãe de Deus e mestre em Educação pela Universidade Estadual de Londrina, mais do que um objetivo, essa filosofia é uma necessidade: “antes a Universidade era um “castelo” e o pesquisador não punha o pé para fora dele. Hoje, o pesquisador tem que trabalhar junto com a comunidade, estar inserido nela e as pesquisas têm que sair dessa relação”.

A professora conta como houve a percepção de que estudantes e professores deveriam imergir nos costumes de uma comunidade antes de trabalhar com ela: “a maioria dos nossos estudantes, quando fazia suas inserções e estágios, sempre levava informações a respeito da música que eles traziam, já que eles eram músicos de orquestra, coral ou da noite. Quando eles entravam em contato com os adolescentes, cujo meio musical é bem distante do que nosso curso oferece, o papel desses universitários de levar a música à comunidade ficava comprometido. A partir disso, existiu a preocupação de se aproximar do contexto social do indivíduo com o qual nós queríamos trabalhar”.

Assim, iniciaram a ideia de uma oficina de música para crianças de colégios da periferia, que respeitasse o discurso musical desses alunos. Cleusa Cacione afirma que Movimentos Sociais só foi posto em prática após um estudo da cultura juvenil. E foi a cultura juvenil que os participantes utilizaram no período inicial de contato com os jovens do colégio estadual Antônio Moraes de Barros, situado no Jardim Bandeirantes, zona oeste de Londrina. Depois da aproximação, houve a inserção gradativa de estilos musicais até então desconhecidos dessas pessoas. Uma das ações foi aproveitar músicas já conhecidas e acolhidas pela maioria dos adolescentes e fazer rearranjos delas, inserindo elementos mais sofisticados. Romper o bloqueio natural que os estudantes do colégio ofereciam com relação ao novo foi outro desafio enfrentado, ressalta a professor Cleusa Cacione, mas com o uso de estratégias de aproximação, como o uso de músicas e textos presentes em suas realidades, a receptividade aos integrantes do projeto foi positiva.

Além de rearranjos de músicas já existentes, alguns estudantes do Colégio Antônio Moraes de Barros chegaram a apresentar composições próprias: “houve um grupo da 7ª série que nos apresentou um rap que eles tinham composto e foi uma grata surpresa, porque eles faziam todos os sons dos instrumentos e da percussão só com o corpo e com a voz”, elogia a coordenadora. Cleusa Cacione frisa que nunca passou por nenhum problema de comportamento com qualquer aluno que tenha participado das oficinas musicais.

O projeto recebeu recursos da Fundação Araucária para compra de equipamentos e materiais como computadores, impressoras, câmeras de vídeo e fotografia digitais, data shows, livros e para pagar bolsas aos estagiários. Com esses equipamentos, o grupo pôde registrar as oficinas e apresentações realizadas pelos jovens. A intenção, segundo a coordenadora, é de que esse material seja editado e apresentado ao público, embora ainda não haja previsão. Movimentos Sociais e práticas musicais no contexto da periferia urbana de Londrina também objetiva “trazer para dentro do curso de Música toda a análise dos materiais coletados para o projeto, revertendo todos esses dados em literatura para os alunos de Música não só da UEL, mas de uma maneira geral”, nas palavras da professora. A finalização do projeto era prevista para o dia 30 de setembro de 2009, mas, devido a atrasos em seu início, Movimentos Sociais só vai ter os trabalhos concluídos em 2010.

Enquanto o resultado final desse projeto não sai, um segundo de mesmo cunho e inspirado no primeiro já está em curso. Trata-se do projeto Identidades e culturas juvenis: agregando escola e comunidade na busca da transformação social, coordenado pelo professor do Departamento de Música Leandro Ernesto Maia, graduado em Música e mestre em Literatura brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Os princípios e objetivos são semelhantes aos do anterior, mas com local diferente: o colégio estadual Ana Garcia Molina, no Jardim Interlagos, zona leste da cidade.

As oficinas musicais ocorrem aos sábados, no período matutino, e ainda estão em processo de iniciação. Para chamar os moradores e, principalmente, os jovens do bairro a participar, os integrantes saem às ruas do Interlagos com instrumentos na mão, batucando. “No primeiro dia teve algumas resistências à nossa música, como aquele senhor que fica observando do portão de casa e olhando para nós com cara feia”, descreve Leandro Maia. Ele explica que apesar dessas exceções, o grupo tem sido bem recebido pelas pessoas, principalmente, crianças. O estudante Pedro Henrique, de 12 anos, é morador do Jardim Interlagos e participa da oficina pela primeira vez: “estou gostando muito, porque você aprende a fazer música e a ouvir eles (os músicos do projeto) tocando também”, diz.

Para o coordenador, o processo de iniciação visa criar uma motivação musical. Serão utilizados nessa evolução instrumentos como flauta doce, violão e principalmente a percussão, considerada pelo professor como o principal ponto estratégico para aproximar músicos e população. Maia ainda pondera que “o papel da Universidade durante as oficinas é aprender e articular junto com a comunidade e a escola as possibilidades de construção da cidadania, da auto-estima, da formação de valores sociais, da convivência social, de uma cultura de paz e, no futuro, de alternativas sociais dentro das artes e da cultura para esses jovens”.

A realização das oficinas durante os sábados só é possível porque o colégio Ana Garcia Molina é o único da cidade a praticar um projeto escolar chamado Escola Aberta, que consiste em abrir as dependências durante os fins de semana e oferecer aos habitantes de seu entorno diversas atividades culturais. Segundo o diretor auxiliar do período noturno do colégio, Jorgisnei Rezende, já foram oferecidas pelo Escola Aberta mais de dez oficinas para os residentes da região. Atividades como artesanato, capoeira, teatro, culinária, hip hop, grafite, dança de salão, futebol, línguas, violão e, agora, a oficina musical coordenada pelo professo Leandro Ernesto Maia. O diretor justifica que, além da integração e inclusão social geradas pelas oficinas, há um outro fator que motiva ao colégio a praticar o Escola Aberta: “Existe um estigma negativo com relação ao colégio Ana Garcia Molina, que sempre aparecia na mídia por aspectos negativos: ou porque achavam armas e drogas na escola, ou porque algum aluno agredia o professor. E nós temos conseguido grandes avanços na tentativa de resgatar a imagem do colégio, através de eventos e projetos como o Escola Aberta”.

O grupo musical formado pelos integrantes de Identidades e culturas juvenis: agregando escola e comunidade na busca da transformação social e pelos jovens participantes da oficina já tem uma apresentação prevista a ser realizada em 20 de novembro, no próprio Ana Garcia Molina, durante a semana da Consciência Negra. Já existem também convites para que eles se apresentem em outros colégios de Londrina, mas o coordenador do projeto preferiu não citar os nomes e as datas até que as apresentações estejam confirmadas.

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