Psicopatologia sob os pontos de vista da psiquiatria e da psicanálise

Projeto de pesquisa pretende contrastar o modo como as duas ciências concebem a psicopatologia

Edição: Beto Carlomagno e Vitor Oshiro

Pauta: Ana Carolina Contato

Reportagem: Tatiane Hirata

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“É importante adoecer as pessoas, patologizando a sua existência, pra que elas possam consumir medicamentos”, critica a psicanalista Rosane Zétola Lustoza

Enquanto a psiquiatria entende o sofrimento psíquico como algo detectável no campo da objetividade, a psicanálise acredita que a causalidade dos transtornos mentais pode ser entendida por meio da história de vida do sujeito. É o que afirma a Professora Doutora Rosane Zétola Lustoza – Bacharel em Psicologia e em Formação de Psicólogo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; mestre e doutora em Teoria Psicanalítica pela mesma universidade – coordenadora do projeto do Departamento de Psicologia e Psicanálise da Universidade de Londrina (UEL) intitulado “A definição de Psicopatologia na Psicanálise e na Psiquiatria e suas implicações para o diagnóstico e a avaliação da cura”.

 

Conexão Ciência: O que é psicopatologia? E qual o objetivo do estudo?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Psicopatologia é o estudo dos processos psíquicos anormais. Quanto ao projeto, ele pretende fazer uma distinção entre as definições de psicopatologia na psicanálise e na psiquiatria.

Conexão Ciência: De que forma o estudo ocorreu?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Nós fizemos um levantamento bibliográfico da história da psiquiatria – etimologia da psiquiatria e da psicanálise. Eu usei, sobretudo, a obra do Lacan(1), psicanalista francês que releu a obra de Freud. Lacan trata as psicopatologias não como anormalidades ou estudo dos processos psíquicos anormais, mas sim como lógicas diferentes de funcionamento. Ele considera três lógicas de funcionamento como referência para o estudo da psicanálise: a psicose, a neurose e a perversão. Para ele, inclusive, não existe um indivíduo normal – totalmente saudável, no pleno exercício de suas capacidades. Baseado na obra de Freud, Lacan afirma que todos nós temos dificuldades em duas coisas: assumir a nossa identidade sexuada e assumir os nossos papéis na sociedade, nossos deveres em uma rede simbólica. Todos temos essa dificuldade. Ele entende o sujeito como uma ‘falta-ser’. Nós nos estruturamos tentando dar conta dessa falta. Isso não é uma anormalidade. Nem normalidade. Todos nós temos dificuldade em lidar com problemas de existência.

Conexão Ciência: Quais as principais diferenças nas formas como a Psiquiatria e a Psicanálise concebem a psicopatologia?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: A psiquiatria possui hoje um Manual de Diagnósticos Estatísticos de Transtornos Mentais – o DSM IV(2) – que trabalha com a noção de transtorno, entendido como um conjunto de sinais e sintomas, em casos considerados anormais. O sinal é algo que o médico observa e o sintoma é algo que o paciente relata. A partir deles, é feito o diagnóstico dos transtornos mentais. Esse manual foi elaborado com o intuito de acabar com a confusão que reinava no campo da psiquiatria, sobretudo no início da década de 70, em que havia uma multiplicidade de diagnósticos e ninguém se entendia quanto às causalidades das doenças. Os psiquiatras que participaram do comitê de elaboração do DSM pretendiam chegar em um nível consensual, que produzisse acordo entre os diferentes pesquisadores. O comitê então decidiu permanecer no campo descritivo – sinais e sintomas. O intuito do DSM IV é permanecer em um plano não-litigioso. Eles pretendiam um manual descritivo e ateórico, ou seja, sem compromisso teórico explícito. Eu digo explícito porque há certo compromisso teórico implícito, pois o DSM acabou dando força para uma re-medicalização da psiquiatria. Há hoje um peso muito grande da psiquiatria biológica, ou seja, a hipótese biológica é hoje uma das mais fortes. Implicitamente, o DSM acabou dando impulso também para uma leitura biológica das psicopatologias. A psicanálise entra tentando resgatar uma leitura que contemple o sentido dos sinais e sintomas. Não só a descrição, mas uma explicação que não seja biológica, que esteja ligada à história do sujeito. A psicanálise quer entender o sentido desses sintomas. O sentido para Freud tem duas acepções diferentes. A primeira: de onde vieram os sintomas, qual a ligação deles com a história e o passado do sujeito? A segunda: para que serve? Qual a finalidade? Os dois sentidos são contemplados no conceito de sentido em psicanálise. Eu diria que a psicanálise não quer permanecer nesse plano puramente descritivo. Ela quer ir para um plano do sentido, um plano que eu diria causal.

Conexão Ciência: É possível detectar a forma mais adequada de conceber a psicopatologia?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Eu sou psicanalista. Então, obviamente, estou trabalhando a partir do referencial da psicanálise. Para reconhecer uma doença, nunca é suficiente permanecer apenas no campo objetivo. É necessário contar com o relato do sujeito, com o depoimento, a posição dele em relação à ‘coisa’. É a partir do sujeito que você sabe se determinada regra do organismo vai mal. Mas é importante dizer que isso não significa desqualificar o saber médico. Nem estou falando de psiquiatras específicos. O que está sendo discutido é o uso que se faz do medicamento. O medicamento tem uma eficácia comprovada, inegável, ele é um aliado do tratamento psicanalítico. O que deve ser evitado é a medicalização do psíquico – tratar exclusivamente o transtorno mental como se tivesse uma origem orgânica, descuidando de aspectos importantes, que são ligados ao sentido que aqueles sintomas tem na história do sujeito.

Conexão Ciência: Quais os resultados obtidos até agora e quais são as perspectivas até o fim do projeto?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Eu falaria de dois pontos relevantes. O primeiro é justamente a inexistência de uma fronteira nítida separando o normal do patológico na psiquiatria. Isso faz com que o psiquiatra não consiga se proteger, tanto de resultados falso-positivos quanto falso-negativos. Na prática, o que ocorre é uma super elevação dos resultados falso-positivos, por conta dos interesses da indústria farmacêutica e todo um complexo médico industrial que vende a ideia para os pacientes de que é preciso identificar em si próprio alguma espécie de transtorno. Ligada a esses interesses de mercado, há uma epidemia de diagnósticos, pois o paciente já chega ao consultório se rotulando, por exemplo, como deprimido. Isso exerce uma pressão sobre o médico, para dar determinado resultado para o paciente, ocasionando uma medicalização extrema do psíquico. O segundo ponto refere-se ao fato de que, na psiquiatria, os transtornos não estão claramente ligados a uma causalidade específica. Eles são apenas descrições de sinais e sintomas. Não há a doença, propriamente dita, em psiquiatria. Isso quer dizer que é errado dizer, por exemplo, ‘eu não tenho vontade de trabalhar, porque estou deprimido’, como se a depressão fosse a causa de não querer trabalhar. A depressão não é uma causa, é um transtorno. A causa da depressão é que é a questão. A psiquiatria biológica tende a dizer que é uma causa biológica. A psicanálise vai justamente tentar dizer que é uma causalidade psíquica, ligada ao sentido que tem esse sintoma na vida do sujeito.

Conexão Ciência: Os resultados foram ou serão publicados em revistas científicas ou publicações do gênero?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Eu já publiquei resultados parciais na Arquivos Brasileiros de Psicologia(3) , sobre ‘medicalização do psíquico’. Na revista Fractal(4) da UFF (Universidade Federal Fluminense), um artigo sobre naturalização do psíquico. Na Ágora(5), que é uma revista específica de psicanálise, há um artigo sobre ‘discurso capitalista’, que é um produto da minha pesquisa. Há também um artigo que eu enviei, mas não foi publicado ainda, para a revista Psicologia em Estudos, da Universidade Estadual de Maringá, que tematiza as ‘estruturas clínicas na psicanálise’.

Conexão Ciência: A senhora disse algo interessante agora sobre a relação entre a sua pesquisa e o capitalismo. Para finalizar, poderia nos dizer como é isso?

Profª Drª Rosane Zétola Lustoza: Este é um aspecto novo que eu ainda estou estudando. Há várias relações. Uma delas, talvez a menos complexa, trata do seguinte: essa epidemia de diagnósticos atende a interesses de mercado, claramente. O capitalismo trabalha com o princípio de que a oferta cria a demanda. Como, no capitalismo, um volume crescente de mercadorias é oferecido, esse volume precisa ser escoado. Então, é necessário provocar a demanda. Acho que, hoje, o discurso médico provoca o adoecimento nas pessoas. É importante adoecer as pessoas, patologizando a sua existência, para que elas possam consumir medicamentos. Isso atende a interesses não só da indústria farmacêutica, mas de todo um complexo médico industrial. Então, eu trabalho com essa hipótese, de que a demanda crescente por medicamentos atende a interesses de mercado.

 

(1) Jacques-Marie Émile Lacan, Formado em Medicina, passou da neurologia à psiquiatria, tendo sido aluno de Gatian de Clérambault. Teve contato com a psicanálise através do surrealismo. A partir de 1951, afirmando que os pós-freudianos haviam se desviado, propõe um retorno a Freud. (Fonte: Wikipedia)

(2) O DSM IV é um manual de classificação de doenças mentais elaborado pela Associação de Psiquiatria Norte-Americana. Este manual de diagnósticos passou a tomar importância a partir da 3º edição, na qual foi optada uma postura descritiva das doenças (fenomenológica), sem qualquer conotação etiológica ou explicativa, restringindo-se ao trabalho de descrever os sintomas e agrupá-los em síndromes. (Fonte: Psicosite)

(3) O artigo pode ser conferido na página: http://pepsic.bvs-psi.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672008000100011&lng=pt&nrm=iso

(4) O download do artigo pode ser efetuado através do link: http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/Fractal/article/viewPDFInterstitial/196/271

(5) O artigo sobre a relação entre psicopatologia e discurso capitalista também está disponível na rede: http://www.scielo.br/pdf/agora/v12n1/03.pdf

Créditos Foto: Tatiane Hirata

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