Enzima pode potencializar o desempenho das aves

Pesquisa de Zootecnia avalia a utilização de diferentes níveis de um complexo enzimático nas rações de galinha


Reportagem: Karina Constâncio

Pauta: Daniela Brisola

Edição: Kauana Neves

A utilização de enzimas digestivas exógenas nas rações de galinhas tem o intuito de melhorar o aproveitamento dos nutrientes, proporcionando melhor desempenho das aves e também reduzindo a quantidade de resíduos depositados no ambiente. É o que afirma o Professor Alexandre Oba, graduado, mestre e doutor em Zootecnia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e coordenador do projeto “Utilização de complexo enzimático nas rações de galinhas poedeiras”.  O projeto, que foi concluído em agosto deste ano, contou com a participação de seis estudantes do curso de Zootecnia da Universidade Estadual de Londrina. O Conexão Ciência conversou com o professor Alexandre Oba sobre os resultados da pesquisa.

Conexão Ciência: O que são enzimas digestivas exógenas? E por qual motivo se dá o uso dessas enzimas nas rações?

Dr. Alexandre Oba: Quando nos alimentamos, se não tivéssemos as enzimas produzidas pelo nosso organismo, não seria possível aproveitar os alimentos, pois o nosso organismo tem a capacidade de absorver apenas moléculas simples. Se comermos arroz, que é amido, nosso organismo não o absorve. Por isso ele precisa ser quebrado até se tornar uma molécula simples que é a glicose, e assim o organismo vai absorver. É isso que acontece com a proteína e os lipídios também, as proteínas precisam ser reduzidas em aminoácidos e os lipídios em ácidos graxos para serem absorvidos. Com as aves, acontece a mesma coisa: as substâncias responsáveis por essa quebra são as enzimas. Têm partes dos alimentos que são facilmente degradadas – as aves vão conseguir quebrar com facilidade e utilizarão aquele nutriente – como também tem partes que não são aproveitadas. Como elas não conseguem produzir determinadas enzimas, pois, não fazem parte do seu hábito alimentar, as aves não vão conseguir aproveitar essa fração nutricional, e consequentemente, isso passa pelo trato digestório sem sofrer absorção. Então, quando colocamos enzimas na dieta do animal, o intuito é facilitar o aproveitamento de nutrientes, fazendo com que ocorra com mais facilidade a quebra desses nutrientes e, conseqüentemente, o animal consiga aproveitar melhor os alimentos.

Conexão Ciência: Normalmente, como essas enzimas podem ser utilizadas?

Dr. Alexandre Oba: Até um ou dois anos atrás, as enzimas eram utilizadas em apenas algumas condições: quando o animal estava doente, quando o tempo estava muito quente, ou quando o alimento estava muito caro. Hoje, como o valor dessas enzimas caiu bastante, elas estão sendo usadas de forma mais constante. Podem ser acrescentadas enzimas que o organismo não produz, com o objetivo de tentar aproveitar aquele nutriente que não pode ser quebrado e transformá-lo em uma molécula simples, ou colocar alguma enzima já produzida pelo animal com o intuito de economizar nutrientes e energia gasta para a produção de enzimas. Muitas pessoas estão usando a fitase, que é uma enzima que aumenta o aproveitamento de fósforo, nas rações. Para se ter uma ideia, dois terços do fósforo presente nos cereais (milho, soja) que o animal come está em uma forma que ele não pode absorver. O animal come, mas não aproveita. Aumentando a quantidade absorvida desse mineral, vai ser liberado menos fósforo no ambiente reduzindo a poluição dos solos e da água.

Conexão Ciência: Quais são as substâncias que não são digeridas pelos animais?

Dr. Alexandre Oba: Podemos citar os ácidos fíticos e os polissacarídeos não amiláceos (PNA’s). Os animais monogástricos (que tem um estômago), em geral, não possuem a capacidade de digerir os polissacarídeos não amiláceos. Uma vez não digeridos, os PNA’s funcionam no intestino como uma esponja retendo água e, como consequência, ocorrerá o aumento da viscosidade da digesta, ou seja, do conteúdo digestivo. Com o aumento da viscosidade, a movimentação é menor e fica mais difícil das enzimas entrarem em contato com os nutrientes aumentando o número de nutrientes não degradados. Além disso, a viscosidade da digesta interfere nas funções fisiológicas do intestino. Se o frango tem também uma digesta rica desses polissacarídeos que não são absorvidos, há o aumento da umidade das fezes, o que prejudica a cama, que é onde o animal vive. A serragem vai ficar muito úmida e, portanto, vai ocorrer maior fermentação, maior liberação de gases e tudo isso é prejudicial para o animal.

Conexão Ciência: Qual o objetivo do projeto?

Dr. Alexandre Oba: O objetivo do projeto foi verificar, a partir de testes em galinhas velhas, ou seja, no final do seu ciclo de produção, se com o fornecimento desse complexo enzimático estas aves passariam a produzir maior quantidade de ovos, ovos com melhor qualidade de casca, se melhoraria a qualidade interna destes ovos, se mudaria o trato digestório em termos de viscosidade e de microbiologia, além de avaliar a ação das enzimas sobre a microflora do intestino delgado e as características da digesta e das fezes.

Conexão Ciência: Que método foi utilizado para o desenvolvimento do projeto?

Dr. Alexandre Oba: Foram feitos testes com quatro níveis de complexo enzimático (50, 100, 150 e 200 mg/kg), com 9 repetições, de 8 aves por parcela experimental, mais um tratamento com 5 repetições, de 8 aves por parcela experimental, durante um período de 4 ciclos de 28 dias. O complexo enzimático era formado palas enzimas: fitase, celulase, pectinase, protease, amilase, betaglucanase e xilanase.

Conexões Ciência: Que resultados foram obtidos com a pesquisa?

Dr. Alexandre Oba: Após a pesquisa verificamos que as enzimas diminuíram a viscosidade, aumentaram o pH da digesta, mas, em termos de desempenho e qualidade do ovo não houve melhora. A parte microbiológica teve uma diferença, porém, não significativa. Pesquisa é assim, nem sempre temos os resultados esperados e isso não quer dizer que seja um resultado ruim.

Conexão Ciência: Os resultados vão ser publicados?

Dr. Alexandre Oba: Eu pretendo publicar em alguma revista da área de agropecuária, só ainda não pensei em qual, mas, os resultados já foram apresentados no Encontro Anual de Iniciação Científica (EAIC) realizado, este ano, na Universidade Estadual de Londrina.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: