Estudo promove otimização do cultivo da soja

Processo de Fixação Biológica de Nitrogênio reduz gastos e impacto ambiental, além de aumentar a produtividade

A coordenadora do projeto, professora Mariângela Hungria

Edição: Tatiane Hirata
Pauta: Edson Vitoretti jr
Reportagem: Leonardo Caruso

Estudo de bactérias capazes de se unir com raízes de leguminosas e otimizar a produção de soja – este é o tema do projeto da pesquisadora em Microbiologia do Solo da Embrapa Soja, professora doutora Mariângela Hungria. A também professora de pós-graduação em Microbiologia do Solo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) –  formada em Engenharia Agronômica pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) e com pós-doutorados em Microbiologia e Bioquímica do Solo nas Universidades de Sevilla, da California e Cornell University, espera com esse trabalho aumentar a produtividade e a qualidade das plantações de soja, combater a poluição causada pela utilização de fertilizantes nitrogenados e reduzir gastos.

A professora Mariângela Hungria explica que o processo de Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) é feito a partir de bactérias que possuem uma enzima* (nitrogenase) capaz de transformar o nitrogênio presente no ar em formas utilizáveis por outros seres vivos, como as plantas. “Apesar de 80% do ar presente na atmosfera ser composto pelo gás nitrogênio, de fórmula N2, assim como nos humanos, a maior dificuldade está em transformar esse composto químico em formas assimiláveis. O grande aliado da soja são essas bactérias”, explica.

A professora também explica que essas bactérias são resultados de anos de evolução e, provavelmente, vieram suprir a falta de nitrogênio das plantas em ambientes pouco nitrogenados. Ela acrescenta que, ao haver a fixação dos rizóbios (as bactérias específicas tratadas na pesquisa) nas raízes da soja, em um processo de simbiose, a planta passa a fornecer carbono necessário para sobrevivência das bactérias e estas, por sua vez, passam a fornecer o nitrogênio utilizado pela planta para crescimento e produção de grãos.

O trabalho da pesquisadora consiste em, a partir de análise de mudas de soja tidas como boas produtoras de grãos, retirar os nódulos simbióticos e posteriormente isolar e analisar as bactérias. “Fazemos uma análise do material genético e das características bacterianas e, após esses estudos, inoculamos os rizóbios em sementes de soja e cultivamos em laboratório. Se há um resultado positivo (boa produção e crescimento), nós aplicamos em campo.” As espécies de bactérias utilizadas por ela nas pesquisas são Bradyrhizobium japonicum e B. elkanii.

De acordo com professora doutora Mariângela Hungria, o processo de fixação biológica de nitrogênio não agride o ambiente. “A utilização desse processo na agricultura ajuda a reduzir a poluição, uma vez que o nitrogênio captado pelas bactérias é diretamente transmitido à planta, diferentemente dos fertilizantes nitrogenados, que vêm prontos para captação dos nutrientes pela soja, mas que são facilmente escoados pela água das chuvas.” A professora explica que essa perda de nitrogênio utilizado em fertilizantes pode contaminar lençóis d’água e rios, causando conseqüências como aumento de algas e eutrofização (consumo excessivo e acelerado de oxigênio por organismos, levando a uma alteração do ecossistema). “No caso da aplicação da soja com fixador biológico de nitrogênio, não há necessidade de uso de fertilizantes”, acrescenta.

Outra conseqüência direta do trabalho da pesquisadora se dá em termos econômicos. Segundo ela, “utilizando-se a fixação biológica de nitrogênio, a economia chega a 6,6 bilhões de reais. O custo com bactérias é muito inferior à utilização de fertilizantes. É necessária muita energia para transformar o gás nitrogênio em formas captáveis pela raiz da soja” – explica – “Além do que, a soja produzida por FBN possui um teor maior de proteínas.” Esse maior índice protéico nos grãos reflete também em economia para os pecuaristas que utilizam a soja como ração animal.

O projeto possui parcerias com o Instituto Agronômico do Paraná, Universidade Norte do Paraná, Centro Universitário Filadélfia (UniFil) e outros centros de pesquisa da Embrapa. Recentemente, a Embrapa Soja e a Universidade Estadual de Londrina assinaram um convênio para incubação de empresas do agronegócio. A professora Mariângela Hungria acredita que este acordo vai ajudar a suprir a alta demanda exigida pelo mercado, além de incentivar alunos na pesquisa e produção agrária.
 
*As enzimas são proteínas especializadas na catálise de reações biológicas. Elas estão entre as biomoléculas mais notáveis devido a sua extraordinária especificidade e poder catalítico, que são muito superiores aos dos catalisadores produzidos pelo homem. Praticamente todas as reações que caracterizam o metabolismo celular são catalisadas por enzimas. Fonte:http://www.enq.ufsc.br/labs/probio/disc_eng_bioq/trabalhos_pos2003/const_microorg/enzimas.htm
 
Crédito da foto: Leonardo Caruso
Ano 7 – Edição 86 -11/04/2010
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: