Participação das mulheres em movimentos sociais é tema de análise

A pesquisa tem o intuito de mostrar a importância das mulheres em diversos movimentos, com foco no MST

Projeto coordenado pela professora dra. Renata Golçalves ressalta a importância das mulheres em movimentos sociais. (Na foto, mulheres do MST protestam contra o modelo agrícola e agrário brasileiro)

Edição: Tatiane Hirata

Pauta: Edson Vitoretti Jr
Reportagem: Mônica Alves
 
“Em uma sociedade que ainda mostra traços de machismo, o interesse feminino em movimentos sociais é crucial na busca de melhorias para a comunidade como um todo”. É com esse pensamento que a professora do Departamento de Ciências Sociais da UEL, dra. Renata Gonçalves – graduada em Serviço Social pelo Institut Cardijn, da Bélgica; mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com estágio de Doutorado na École de Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris – coordena o projeto de extensão “A luta pela terra do MST e os impasses da participação política das mulheres sob a onda neoliberal”, no qual são levantados estudos e dados sobre as figuras femininas que integram tais causas. Em entrevista ao Conexão Ciência, ela fala um pouco mais sobre o assunto:
  
Conexão Ciência: Como as mulheres se inserem nessas lutas sociais?
Prof. Dra. Renata Gonçalves: Cada movimento é diferente e traz características específicas. O Movimento Sem Terra (MST), que é estudado mais a fundo nesse projeto, luta pela divisão igualitária da posse da terra, e tem como um de seus pontos fortes a participação da família como um todo. Considero que ele seja dividido em 3 fases: ocupação, acampamento e assentamento. É na fase do acampamento que a mulher tem uma participação mais efetiva, na qual participa das decisões de acordo com um código de conduta em que as tarefas são divididas de forma igualitária. Já na fase do assentamento, em que o controle político por meio de assembleias começa a aparecer, a mulher hoje luta por maior envolvimento, seja na parte legal ou na coordenação da posse da terra.
  
Conexão Ciência: Essa participação ajuda a combater o machismo ainda existente?
Prof. Dra. Renata Gonçalves: Com certeza. O MST é um movimento que sofre transformações dentro de uma sociedade muito machista, e existe uma organização interna que questiona exatamente isso. Essa maior colaboração feminina tem grande influência na sociedade em si, já que mostra que é possível buscar uma maior igualdade, e isso é resultado de uma série de movimentos que vem desde a década de 70.
  
Conexão Ciência: Atualmente, duas mulheres concorrem à presidência do nosso país. A senhora acredita que, com a possibilidade de eleição de uma delas, a mulher ganhe mais espaço?
Prof. Dra. Renata Gonçalves: Acho um erro muito grande acreditar que se uma mulher, um negro ou um representante de qualquer classe menos favorecida atinge o poder, a situação muda e passa a favorecer as minorias. Sempre uso o exemplo da Margaret Tatcher, que governou a Inglaterra por 11 anos e, nesse período, as mulheres tiveram vários sindicatos fechados. Essa melhoria depende muito mais do plano de governo do partido do que da procedência do candidato. Pode até ser que uma mulher na presidência chame mais atenção para assuntos delicados referentes à mulher, como por exemplo o aborto, mas as mudanças podem vir tanto das mãos de um homem quanto de uma mulher.
  
Conexão Ciência: Como se dá a influência feminina em movimentos sociais fora do Brasil e o quão atuantes elas são dentro do nosso país?
Prof. Dra. Renata Gonçalves: Isso depende muito da região. Em países europeus, com destaque para os escandinavos, essa participação é bem efetiva, inclusive com mulheres no comando de sindicatos. São locais em que os direitos femininos são levados muito a sério, como a licença-maternidade que pode atingir até dois anos. Por outro lado, ao analisarmos a situação no Oriente, percebemos que o fundamentalismo ainda faz parte do dia a dia da população, e em países como o Afeganistão, por exemplo, a mulher continua a ser vista como um ser inferior e que deve obedecer ao homem. O Brasil vive hoje uma situação muito curiosa: contamos com um bom número de mulheres engajadas, mas ao mesmo tempo os resultados ficam abaixo do esperado.
  
Conexão Ciência: De que forma o projeto coordenado pela senhora estuda esses movimentos?
Prof. Dra. Renata Gonçalves: Esse é um subprojeto do Grupo de Estudos Políticos da América Latina (Gepal), do qual eu sou co-coordenadora. É um projeto de extensão que atua fora das disciplinas básicas do curso de Ciências Sociais e conta com a participação de 12 alunos da graduação, além de professores interessados, e fica a cargo deles sempre incluir novas informações sobre os movimentos como um todo, mas mantendo o foco no MST e na participação feminina.
 
 
Créditos da Foto: Divulgação/Planeta Sustentável
Ano 7 – Edição 89 -02/5/2010
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