Projeto de pesquisa aponta violência no cotidiano escolar

Mais do que violência física, o projeto de pesquisa do departamento de Serviço Social da UEL denuncia violência estrutural

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta e Reportagem: Ananda Ribeiro

A professora Andréa Pires Rocha, graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), mestra em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), doutoranda em Serviço Social (UNESP) e docente em Serviço Social na Universidade Estadual de Londrina (UEL), realiza desde abril de 2008, com a ajuda de graduandos do curso de Serviço Social, o projeto de pesquisa “Violência que atinge o cotidiano de escolas das periferias de Londrina-PR: identificações, reflexões e mediações”. O intuito é identificar as diferentes formas de violência que fazem parte do dia a dia das escolas públicas localizadas na periferia londrinense.
Além de pesquisas em material bibliográfico foram feitas pesquisas de campo através de questionários em escolas estaduais que possuem ensino fundamental de 5ª à 8ª séries e ensino médio. Segundo relato da orientadora, com aproximadamente 54% do projeto concluído, que visa a execução de pesquisa em 33 escolas, os resultados foram muito além da violência física, mais comumente apontada pela mídia e, apontaram em maior parte, uma violência estrutural.

Os tipos de violência identificados pelas pesquisas até então, podem ser divididos em quatro: dentro da escola, fora do ambiente escolar, violência na família e a social, quando há ausência do Estado. Dentro das escolas destacam-se os conflitos entre estudantes, o conflito destes com educadores e em menor proporção, agressão, drogas e porte de armas. Mas com base nos estudos, esse tipo de violência não ocorre por si só, e sim em conseqüência dos outros.

Segundo a professora Andréa Rocha, a pesquisa foi realizada em locais que abrigam uma população com menor poder aquisitivo. “Muitas famílias enfrentam conflitos decorrentes da falta de assistência social e econômica. Muitas crianças e adolescentes vão à escola já desmotivados, alguns inclusive, vão para se alimentar e, muitas vezes, encontram um ambiente depredado e mal-estruturado, nada estimulante para seus estudos, o que contribui muito para a gênese da violência escolar”, afirma. A coordenadora também comenta que apesar de alguns teóricos da educação acreditarem que escola deveria ser um lugar dedicado apenas à assistência acadêmica, como aplicar essa teoria onde a realidade social não permite essa prática? E afirma, “a ausência de investimentos do Estado em políticas públicas, também é violência. Desemprego, também é violência”.

Entre as escolas que serviram de fonte para as pesquisas do projeto, poucas relataram haver políticas públicas em suas comunidades como esportes, cursos profissionalizantes, cultura, lazer, entre outros. A docente afirma, “não adianta só garantir escola”. E comenta que “essa defasagem na política social acaba gerando conflitos dentro das famílias, que por sua vez, refletem nas escolas e na sociedade em geral. Com tudo isso, muitas vezes os pedagogos que trabalham nas escolas acabam interferindo nessas outras áreas e produzindo menos projetos pedagógicos”. Baseando-se nesses dados, os pesquisadores do projeto constataram a necessidade da presença de assistentes sociais que possam acompanhar mais de perto a realidade social dos estudantes.

Para tentar amenizar essa situação, em Maio de 2006 foi oficializada a lei 15075, publicada no Diário Oficial N.7219, que visa a implantação do “Programa de Atendimento Psicopedagógico e Social” em todas as unidades escolares que integram a rede de Ensino Público, cuja equipe profissional deveria ser composta por, no mínimo, um psicólogo, um pedagogo e um assistente social. Porém, segundo a orientadora do projeto, até hoje não foi aberto nenhum concurso público para a efetivação dessa lei.

A docente Andréa Rocha ressalta que a integração entre escola e comunidade é interessante para enfrentar a violência no ambiente escolar, o que ocorre em algumas localidades, mas não de forma
suficiente, pois, faltam voluntários e incentivos por parte do governo. Essa realidade aponta para a falta de estrutura e de políticas públicas nessas comunidades, em especial para os jovens, conforme relata a professora.

Na segunda fase do projeto, pretende-se fazer uma pesquisa em três escolas que apresentem os piores índices de violência, por meio de um grupo focal que englobe pais, alunos e educadores. Há uma intenção de se fazer também, um documento em vídeo com esses debates. Após a finalização da pesquisa, que está prevista para ainda este ano, pretende-se organizar um evento com: palestras, dados, estatísticas e uma análise sobre o produto da pesquisa à comunidade acadêmica, participantes do projeto e demais interessados. Pretende-se também, segundo a professora Andréa Rocha, encaminhar o estudo para o Governo do Estado do Paraná, visando alguma ação por parte deste.

Créditos da foto: Danylo Alvares

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