Oriente Médio: a maneira como o enxergamos

Análise de imagens aponta como o Oriente Médio foi reduzido a certos padrões após o 11 de setembro

O professor dr. Alberto Klein, que coordena o projeto


Edição: Tatiane Hirata
Pauta: Edson Vitoretti Jr
Reportagem: Guilherme Popolin
 
“Estereótipo: Imagem preconcebida de alguém ou algo, baseada em um modelo ou em uma generalização”. Assim é a definição dada pelo dicionário Houaiss a esse termo norteador do projeto de pesquisa “Imagens em Conflito: fotografias pós-11 de setembro e a determinação do olhar nas tensões entre Ocidente e Oriente”, do Prof. Dr. Alberto Carlos Augusto Klein, do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) –  graduado em Comunicação Social – Jornalismo pela UEL, mestre e doutor em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). O professor explicou ao Conexão Ciência como se interessou pelo assunto e o que observou através das análises das imagens.
 

Conexão Ciência: Como se deu a escolha por esse assunto?
Prof. Dr. Alberto Carlos Augusto Klein:
Depois que orientei o trabalho de uma aluna sobre a discussão de algumas imagens que se tornaram referência para se pensar o 11 de setembro, resolvi expandir um pouco o recorte que ela tinha proposto e analisar como o 11 de setembro não só foi uma data marcante pelas suas imagens, como também delimita e passa a ser um marco para pensar toda a produção fotojornalística depois dele. Resolvi estudar isso através das capas do jornal Folha de São Paulo, que é o veículo que representa toda uma produção que se dá mundialmente. Todo o material que ele traz, em grande parte, é produto de agências de noticias, e são fotos que circulam por toda a mídia no mundo todo.

Conexão Ciência: O que foi observado com a análise das imagens?
Prof. Dr. Alberto Carlos Augusto Klein: A produção fotojornalística, pelo menos do jeito que ela foi enunciada pela Folha de São Paulo, reproduzia o discurso polarizante e maniqueísta que os EUA lançaram na época (11 de setembro), principalmente na administração do presidente George W. Bush. Uma constatação foi que o Oriente Médio foi reduzido a certos estereótipos ligados a selvageria, fanatismo religioso, ou a condição de violência como algo natural entre eles. Só se podia ver o Oriente Médio através desses signos norteadores. O projeto foi dividido em subprojetos entre estudantes de graduação, e nós fizemos uma análise quantitativa nos primeiros meses. O número de imagens que reproduzem os estereótipos é muito maior do que aquelas que são resultados de um olhar mais complexo e politizado sobre o Oriente Médio. Cerca de 80% das fotografias reproduziam esses estereótipos e estavam dentro dessa visão polarizante de mundo.
 
Conexão Ciência: De que forma essas imagens eram apresentadas?
Prof. Dr. Alberto Carlos Augusto Klein: Muitas vezes essa idéia era reforçada por conta do diálogo que uma fotografia estabelecia com outra fotografia na capa do jornal. Um exemplo é uma capa que continha crianças norte-americanas pintando a bandeira dos EUA no chão, e, embaixo, uma imagem de crianças palestinas brincando com estilingues, pedras e de luta entre eles, fixando bem esse tensionamento entre ocidente e oriente pós 11 de setembro. Isso é uma característica que nós observamos, em que o sentido é estabelecido por conta da relação que uma fotografia tem com outra, não só pelos elementos internos da própria imagem. Isso coincide com o conceito de Edward Said*, intelectual palestino, que já no início da década de 80, disse que o ocidente inventou o oriente e o reduziu a certos estereótipos.
 
Conexão Ciência: Como isso interfere na maneira do leitor encarar os fatos?
Prof. Dr. Alberto Carlos Augusto Klein: A imagem é supervalorizada na nossa cultura e sociedade atual. Nós encaramos cada vez mais o mundo através das imagens. Quando estereótipos são difundidos, não estão dizendo uma mentira, estão reduzindo o mundo a certas imagens fixas. O problema é distanciar o outro de nós, demonizando esse outro. Quando isso acontece pelas imagens, o discurso é neutralizado. A imagem, principalmente aliada ao fotojornalismo, estabelece um contrato com a realidade. Na verdade, as imagens podem mentir, distorcer, e reduzir o mundo a certos padrões de representação, como aconteceu com o Oriente Médio.
 
Conexão Ciência: Quais foram as conclusões?
Prof. Dr. Alberto Carlos Augusto Klein: A produção da imagem fotojornalística reproduz uma visão de mundo polarizada e dual, em que o Oriente Médio aparece reduzido a padrões, demonizado pelas imagens, no sentido de mostrar o quanto eles são diferentes de nós, e são colocados sob o signo do negativo, da violência e fanatismo. Nós temos uma grande dificuldade de lidar com a complexidade do mundo e não conseguimos transcodificar esse mundo em imagens. O problema é que ainda vivemos sob a égide dos estereótipos.
*Edward Wadie Said foi um intelectual, crítico literário e ativista da causa palestina. Nasceu em Jerusalém e mudou-se para os EUA na adolescência, onde construiu uma sólida carreira acadêmica. Foi autor de livros que, mesmo com temática oriental e árabe, possuíam caráter universal para entender os mecanismos de dominação através da imagem. Morreu em 2003, aos 67 anos, vítima de Leucemia. Mais informações e detalhes sobre sua vida e obra podem ser encontrados aqui: http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=568 .
 
Crédito da foto: Guilherme Popolin
Ano 7 – Edição 92 -23/5/2010

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