Projeto implanta armadilhas para controle de Dengue

Profissionais do Laboratório de Entomologia Geral da UEL pretendem capturar ovos de Aedes Aegypti e implementar medidas educacionais para prevenção da doença

Edição: Beto Carlomagno
Pauta: Laura Almeida
Reportagem: Mariana Mortari

Depois de anos, a Dengue voltou a ser problema no Brasil a partir da década de 1980 e se tornou de difícil controle nas décadas seguintes. Apesar das medidas de controle tomadas por autoridades e boa parte da população, é necessária uma ação conjunta para que se possa obter resultados realmente significativos.

O Conexão Ciência entrevistou as biólogas Kauani Larissa Campana e Bruna Karla Rossaneis, ambas formadas pela Universidade Estadual de Londrina em 2009, participantes do projeto “Plano de Vigilância e controle de Aedes Aegypti e ações educativas ”, coordenado pelo professor José Lopes*, que pretende atuar com a implantação de armadilhas e medidas educativas no controle da proliferação do mosquito vetor do vírus da Dengue.

Conexão Ciência: Como surgiu a idéia do projeto?
Kauani Larissa Campana:
Este projeto está dentro de um programa chamado “Universidade Sem Fronteiras” do governo estadual. O nosso professor, o coordenador do projeto José Lopes já trabalhava com as armadilhas, as ouvitrampas, em projetos de pesquisa aqui da universidade. Já desenvolvíamos um trabalho com as ouvitrampas no controle da Dengue em diversos setores do campus, então surgiu a oportunidade de apresentarmos o projeto para o programa “Universidade Sem Fronteiras” como uma forma de trabalhar mais com a parte do controle, vigilância e ações educativas referentes ao Aedes aegypti em colégios da periferia da cidade.

Conexão Ciência: O que seriam ouvitrampas?
Kauani Larissa Campana:
Ouvitrampas são armadilhas que servem para capturar os ovos do mosquito Aedes aegypt. As ouvitrampas com as quais trabalhamos aqui no laboratório consistem em vasos de flores pretos, como os utilizados para colocar violetas, por exemplo. Dentro desse vaso é colocada uma palheta de fibras de madeira de eucalipto juntamente com água e um produto atrativo. O mosquito fêmea do Aedes aegypti é atraído pelo produto que a gente coloca na água e deposita os ovos na palheta. Toda semana essa palheta é retirada e trocada. Retiramos a palheta com os ovos e é feita a contagem dos ovos para ver se o controle da armadilha está sendo eficaz. Então, ao invés de botar os ovos em frestas e locais apertados, o mosquito será atraído pela armadilha. Nós temos ouvitrampas espalhadas pelo campus da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Agora estamos esperando a chegada do material para implementá-las nos colégios da periferia, na região do Jardim Santiago.

Conexão Ciência: Qual é o objetivo principal do projeto?
Bruna Karla Rossaneis:
Distribuir as ouvitrampas no maior número de lugares possível. No caso, estamos trabalhando com alunos do ensino fundamental, então pretendemos também trabalhar com ações educativas com essas crianças.

Kauani Larissa Campana: E trabalhamos com o controle do mosquito. O bairro Jardim Santiago foi escolhido inicialmente porque acaba sendo um bairro com um alto índice de Dengue no município de Londrina. Já apresentamos a parte inicial do projeto às crianças, uma parte mais educativa, com palestras explicando o ciclo da doença, o ciclo do vetor para todos os colégios envolvidos, ou seja, o Colégio Estadual Polivalente, Colégio Estadual Cássio de Leite Machado e o Colégio Estadual São José, colégios que não ficam necessariamente no bairro Jardim Santiago, mas nos arredores.

Conexão Ciência: O que já pode ser observado?
Kauani Larissa Campana:
Ainda não houve resultados das ouvitrampas porque estamos aguardando o material chegar, portanto ainda não foram instaladas as armadilhas. Provavelmente, assim que as ouvitrampas chegarem, daremos início ao processo.

Bruna Karla Rossaneis: Quanto às crianças, a resposta ao projeto foi bastante interessante. O projeto pedagógico teve um bom retorno. Ainda vamos, paralelamente, apresentar às crianças a citronela**, que atua como repelente.

Conexão Ciência: Como se deu o desenvolvimento da Dengue no país?
Kauani Larissa Campana:
A Dengue começou já no período do descobrimento, quando foi trazida pelos portugueses. Ela nunca foi exterminada e esse retorno iniciou-se em 1986 no Rio de Janeiro, com um grande número de casos. A partir disso, se espalhou por todo o país e não se conseguiu mais o controle da doença. Mesmo com ações educativas, não se conseguiu sucesso.

Conexão Ciência: O que já vem sendo feito para combater o mosquito tanto pelas autoridades como pela população?
Kauani Larissa Campana:
Participei de uma reunião há umas duas semanas, na qual fui como representante do professor doutor José Lopes, no município de Cambé, a respeito do controle da Dengue. O que eles tem feito é trabalho com distribuição de panfletos, participação em colégios e escolas, explicando a importância de não deixar criadouros em potencial nos quintais das casas, até mesmo nos colégios. Houve o caso de um colégio no qual foram localizadas larvas em uma caixa d’água. Agora eles estão enfocando a parte dos recicladores de lixo, que têm deixado material reciclável ao ar livre e pode estar acumulando água, então eles estão promovendo campanhas para construir um lugar para esses materiais serem guardados. No mês passado também foram realizados mutirões de limpeza.

Bruna Karla Rossaneis:
Quando notificado um foco da doença, eles estão aplicando multas, então apesar de ser uma ação nova, já está apresentando bastante repercussão, porque está mexendo diretamente no bolso de quem não colabora para o combate ao foco.

Kauani Larissa Campana:
Na verdade, a Dengue é uma responsabilidade do governo, mas também da população. Se a população não colaborar com as ações educativas e não as aplicar, fica difícil o controle. A maioria das prefeituras faz trabalhos de conscientização somente no verão, mas o ideal seria trabalhar isso durante o ano inteiro. Deveria intensificar o trabalho mais ainda no inverno, quando a temperatura é mais baixa, o período do ciclo reprodutivo é maior e seria mais fácil o controle do Aedes aegypti.

* José Lopes é professor do departamento de Biologia Animal e Vegetal da UEL e doutor em entomologia pela UFPR.

** Óleo de citronela é um óleo essencial extraído de plantas do gênero Cymbopogon, muito utilizado na fabricação de velas, cremes e loções.

Crédito imagem: Mariana Mortari

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