Funk e suas transformações sob uma análise histórica

Projeto do departamento de História da UEL analisa historicamente o funk, suas características e a forma como é visto no Brasil

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta: Edson Vitoretti
Reportagem: Isabella Sanches

Entender o funk por um referencial histórico, deixando de lado uma análise puramente sociológica e antropológica é o que busca a professora Silvia Cristina Martins de Souza, no projeto “Expressões do Funk”. O projeto busca entender a história do funk a partir de várias questões como, por exemplo, a forma como desde a década de 60 e 70 o movimento negro e outras manifestações culturais vêm sendo incorporados no Brasil. Um desses movimentos é o funk.

Silvia Cristina de Souza possui graduação em História pela Universidade Santa Úrsula, mestrado e doutorado em História pela Universidade Estadual de Campinas, e pós doutoramento pela Universidade Federal Fluminense. Atualmente é professora associada da UEL. Segundo a docente, o projeto é um trabalho orientado por ela que surgiu devido à observação de que o funk era muito trabalhado por sociólogos e antropólogos, mas não por historiadores.

A coordenadora do projeto destaca a capacidade do funk de criar uma identidade entre as pessoas. “Mesmo com todos os problemas que o funk tem, ele acaba criando um espaço de identidade para a juventude que vive basicamente nas favelas e nos subúrbios.” Ela diz não saber até onde a pesquisa vai conseguir chegar, mas que pretende analisar até os dias de hoje, onde há a associação dos bailes funk com a urgia, a violência e a sensualidade. No momento, o trabalho está focado nas décadas de 60 e 70. “Nos concentramos nessas décadas, na emergência do funk fora do país e como ele vai ser apropriado no Brasil”, explica.

Segundo a professora, o funk nasce em um momento de efervescência: das lutas pela libertação na África, dos movimentos feministas e gays, entre outros. Quando esse movimento musical chega ao Brasil, ele chega com uma característica mais dançante. “Nessa época ele era visto mais como um tipo de música dançante, que já possuía um elemento de sensualidade.” Silvia destaca ainda que as músicas ouvidas nessa época eram vindas de fora. “O que se ouvia eram os funks vindos de fora do país que as pessoas dançavam independente de entender o que dizia as letras, que já nessa época possuíam uma característica de protesto”, explica.

De acordo com a docente, é a partir da década de 80 que se passa a ter um tipo de funk que podemos chamar de brasileiro e que começa a ser mais veiculado pela mídia. Segundo Silvia, na década seguinte esse movimento musical vive seu auge. “É na década de 90 que o funk atinge o seu auge e é interessante analisar as letras que passam a ser produzidas. Por mais que as músicas tenham um duplo sentido, que para algumas pessoas parece muito agressivo, ela também tem uma lição de moral, que é a moral de cada comunidade”, ressalta.

A professora lembra que primeiramente o funk não possuía uma associação ao tráfico e violência, e que nesse sentido o arrastão ocorrido na praia do Rio de Janeiro em 1992 foi emblemático. “O arrastão foi associado às galeras funkeras que estavam supostamente descendo o morro para atacar a classe média no espaço público da praia. A partir desse momento, começou-se a associar o funk com a ideia de morro, tráfico e violência.” Segundo Silvia Cristina de Souza, com essa associação, começou um período de maior repressão e de cobrança para que o funk ficasse no subúrbio e no morro e não descesse à cidade. Essa cobrança teve seu ápice nos anos 90 e com o tempo, foi amainando.

A professora menciona que o projeto busca analisar a expressão do funk a partir de uma perspectiva de culturas. “Buscamos trabalhar com o hibridismo de cultura, com culturas que dialogam, sem fazer a separação exterior entre cultura erudita e cultura de massa, que não dá conta de explicar, por exemplo, como existem bailes funk também na Zona Sul”, afirma.

Por meio do projeto, Silva Cristina de Souza diz que “ficou clara a capacidade desse movimento musical em agregar pessoas em várias comunidades, várias galeras. É um espaço que dá voz para aquelas pessoas que vivem marginalizados, ou seja, que vivem excluídas da sociedade. O funk pensa a juventude negra que é colocada às margens da comunidade e como essa juventude dialoga com isso.” A doutora ressalta que hoje as letras não possuem o caráter político explícito da década de 60 e 70, mas que “agora esse protesto é feito em relação à política do cotidiano”.

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