Projeto analisa a inclusão de deficientes visuais na prática esportiva

As aulas escolares de Educação Física com presença de deficientes visuais são tema de pesquisa da UEL

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta: Edson Vitoretti
Reportagem: Paola Moraes

O processo de inclusão de alunos portadores de qualquer deficiência no ensino regular, público e privado, incentivado pelo Governo Federal há alguns anos despertou a atenção do professor universitário com interesse no ensino especial. O professor Nilton Munhoz Gomes, formado em Educação Física pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), especialista em Educação do Portador de Deficiência Mental (UEL), mestre em Educação Especial pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR) e doutor em Educação Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), desenvolve desde 2008, um projeto de pesquisa que visa a inclusão de crianças de 1ª a 8ª séries com deficiências visuais nas aulas de Educação Física. O doutor explicou, em entrevista ao Conexão Ciência, como funciona o projeto, o que se obteve até agora e quais são as expectativas para a continuidade do estudo.

Conexão Ciência: Como funciona o projeto?

Profº Dr. Nilton Munhoz Gomes: Primeiramente, nós estamos estudando no projeto, a inclusão do aluno com deficiência visual na escola regular. No ano passado, trabalhamos com alunos de primeira a quarta serie e este ano estamos com alunos de quinta à oitava series, até verificar a diferença na idade quanto à aceitação desse aluno com deficiência visual. O trabalho é dividido em quatro vertentes: a observação das aulas de Educação Física, como o professor se vê para preparar uma boa aula para esse aluno, como o aluno se percebe nas aulas de Educação Física e com o aluno sem deficiência encara essa inclusão. A intenção é que depois disso, venhamos a trabalhar com outros tipos de deficiência, como a mental, auditiva e física. Então seria um estudo de como está acontecendo esse processo de aceitação do aluno deficiente em escola pública.

Conexão Ciência: Ao ir para as escolas, vocês detectaram a presença de materiais adequados ou uso de metodologia de ensino direcionada a esses alunos?

Profº Dr. Nilton Munhoz Gomes: Considerando que a Educação Física possui apenas um espaço especifico para as aulas, que é a quadra, nós não teríamos esse material. Mas em conversas informais com professores que trabalham com alunos com deficiência visual, nós percebemos que alguns têm uma preocupação maior em fazer adaptações a esses alunos. O professor que possui um aluno com baixa visão ou cego tem algumas preocupações em sua aula sobre como ajudar o aluno. Por exemplo: utilizando pneus pintados com cores fortes para que o aluno com baixa visão consiga diferenciar o objeto. Muitos professores fazem pequenas adaptações dentro de suas condições: utilizando a ajuda de outro aluno, envolvendo a bola com uma sacola plástica para que o aluno se situe pela audição. Por outro lado, há professores que deixam o aluno fazendo trabalhos teóricos ou assistindo a aula.

Conexão Ciência: Os professores de Educação Física se sentem desqualificados para lidar com alunos portadores de deficiência?

Profº Dr. Nilton Munhoz Gomes: A maioria deles aponta alguns problemas, como a falta de capacitação, que é o mais evidente. Muitos se formaram há muito tempo e não tiveram uma disciplina que abrangesse esse tema ou não tiveram oportunidades de participar de cursos nessa área. Um lado bom é que poucos docentes têm preconceito com esse aluno. Muitos têm uma pré-disposição. Ou seja, se for ofertado um curso, se ele tem interesse, se ele possui um aluno especial, ele se preocupa em trazê-lo ao convívio com os demais.

Conexão Ciência: Hoje, há uma disciplina voltada a esse estudo dentro do curso de Educação Física?

Profº Dr. Nilton Munhoz Gomes: No curso de Licenciatura em Educação Física da UEL, há uma disciplina semestral e outra anual que trabalham com questões da educação especial. Primeiro, é realizado um estudo dos conceitos e pré-conceitos dessas deficiências, depois, estuda-se a inclusão desses alunos. Além disso, há um estágio obrigatório em educação especial, no qual o aluno pode escolher com qual tipo de deficiência ele trabalhará.

Conexão Ciência: Como o aluno com deficiência visual se sente ao ser incluído?

Profº Dr. Nilton Munhoz Gomes: Se o aluno tem uma boa aceitação de sua condição, ele consegue ser incluído mais facilmente. Os alunos super-protegidos ou com sentimentos de auto-piedade não são incluídos tranquilamente. Nós percebemos que os alunos de 1ª a 4ª séries são mais receptivos, chegando até mesmo a discutir sobre quem vai auxiliar o outro amiguinho na aula. Já nos alunos de 5ª a 8ª séries, nós imaginamos, pois ainda não analisamos esses alunos, que seja mais difícil de ocorrer essas aceitação, porque os demais alunos são competitivos e tendem a deixar o aluno com deficiência de lado nas aulas com desportos.

Conexão Ciência: Em sua opinião, quais são os ganhos na inclusão, tanto para os alunos com deficiência quanto para os alunos sem deficiência?

Profº Dr. Nilton Munhoz Gomes: Nós temos um discurso que está vencido: a inclusão é ótima pro deficiente. Precisamos entender que a inclusão é ótima para ambos os lados. Claro que para o individuo com deficiência é bom, pois ele está com pessoas da mesma idade, num ambiente comum, mas o individuo sem deficiência também ganha muito, por exemplo, se colocarmos uma criança de seis anos com um colega surdo, em um curto espaço de tempo, o aluno sem deficiência desenvolverá meios de se comunicar com o detentor de deficiência. É uma relação de troca, o individuo portador de deficiência ganha em convívio e o sem deficiência, em aprendizado. Daqui alguns anos, talvez 20 ou 30, teremos adultos que conviveram, quando crianças, com deficientes e dessa forma, teremos uma sociedade menos preconceituosa.

Conexão Ciência: E para os professores?

Profº Dr. Nilton Munhoz Gomes: Muitos professores sinalizam que tinham medo de machucar o aluno ao incluí-lo nas aulas, viam-no como incapaz de agir e mudaram essas concepções com a inclusão. Viram que é possível trazer esse aluno para as aulas com algumas adaptações.

Conexão Ciência: Trocar a prática de esportes, como handebol e basquete para ginástica, ajudaria a incluir o aluno com deficiência visual?

Profº Dr. Nilton Munhoz Gomes: Acho que nós não necessitaríamos mudar o conteúdo pensando nesse aluno, desde que pensemos como incluir o aluno naquela prática. Não interessa o conteúdo,mas sim o respeito do professor ao à deficiência do aluno.

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