Feriado Nacional é Tema de Estudo do Departamento de História

Projeto de pesquisa coordenado pela professora Isabel Bilhão analisa as representações sofridas pelo 1º de Maio no  período republicano brasileiro

Créditos: "A Voz do Trabalhor" de 01/05/1913

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta: Edson Vitoretti
Reportagem: Paola Moraes

O dia 1º de Maio é um feriado nacional – comemorado também em outros países como Portugal, França e Rússia – conhecido como “Dia do Trabalho” e, para muitas pessoas, ele é apenas isso. Para a professora Isabel Bilhão, graduada em História pela Faculdade Porto Alegrense de Educação Ciências e Letras, e Mestre e Doutora em História do Brasil pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), esse dia possui um histórico: é uma comemoração marcada por disputas entre proletariado, empresários e governo acerca de sua representação textual e imagética na mídia desde o dia de sua criação.
O projeto nomeado “Imagens e mensagens do Primeiro de Maio: disputas e transformações nas representações da data ao longo do período republicano brasileiro” foi dividido em três períodos: Primeira República (especialmente entre 1910-1920), Estado Novo (1937-1945) e Período Militar (principalmente após o Ato Institucional nº5[1], entre 1968-1979). A professora Isabel Bilhão explica que os alunos participantes do projeto foram divididos para pesquisa de acordo com seus interesses sobre cada época. Ela ainda cita que esses alunos vêm de variados cursos da Universidade Estadual de Londrina (UEL) como Jornalismo, História, Ciências Sociais e Design de Moda.
A doutora em História expõe que há duas versões para a origem do 1º de Maio. Uma é narrada por militantes anarquistas que colocam o Primeiro de Maio como uma homenagem aos mártires de Chicago[2]. Dessa forma, o evento deve ser comemorado com greves e passeatas na busca por melhorias nas condições de trabalho em respeito à memória e à luta exercida por estes. A outra versão é colocada como uma comemoração criada por socialistas franceses em um Congresso Socialista realizado em Paris em 1889.
A pesquisadora ressalta que a versão anarquista é a mais conhecida mundialmente e combatida pelos governantes e empresários. A docente avalia que imagens veiculadas sobre o Primeiro de Maio na Primeira República são alegóricas e subliminares, colocando o burguês como opressor do trabalhador em imagens e charges. A data, denominada “Dia do Trabalhador”, era voltada à divulgação da causa operária e excluía aqueles que não fossem operários, segundo Isabel.
“A partir de dezembro de 1924, quando o presidente Arthur Bernardes decreta a mudança nominal de “Dia do Trabalhador” para “Dia do Trabalho” e o institucionaliza como feriado nacional, essa data ganha a participação do Estado e dos empregadores”, afirma a professora. Segundo Isabel Bilhão, essa nova perspectiva sobre o 1º de Maio se concretiza no Estado Novo quando Getúlio Vargas torna este uma data cívica com desfiles em ruas, comemorações em estádios e anúncios de novas leis trabalhistas na mesma data entre 1938-1942, como a jornada oficial de trabalho de oito horas diárias e criação do salário mínimo.
No último período de estudo do projeto – a ditadura militar pós-AI-5 – a doutora relata a não-preocupação dos ditadores com as festividades do Primeiro de Maio de forma popular como ocorria com Vargas. Adocente explica que o dia é usado como propaganda militar da harmonia existente no Estado Brasileiro, que “possuía uma ditadura pacífica, diferente dos outros países, com ditaduras desorganizadas”.
O estudo desenvolvido no departamento de História pretende gerar contribuições bibliográficas sobre os movimentos que envolvem o Dia do Trabalho. Os alunos colaboradores têm participado de feiras de iniciação cientifica e viajado para algumas capitais do país a fim de recolher mais materiais de estudo para o projeto. Um dos resultados já gerados pela pesquisa é a publicação de um capítulo no livro “Imagens Anarquistas – Análises e Debates”, de autoria da entrevistada, sobre a versão anarquista da criação do Dia do Trabalho. Professora Doutora Isabel Bilhão acredita que este é apenas o começo da geração dos frutos do trabalho, ao término do projeto de pesquisa, a docente prevê mais publicações em livros e apresentação de artigos em congressos específicos.
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[1] Ato Inconstitucional número 5 foi um decreto feito pelo governo no dia 13 de dezembro de 1968, o qual dava poder ao presidente de fechar o Congresso e legislar sobre qualquer assunto, intervir nos Estados, aposentar funcionários públicos e suspender o hábeas corpus para os crimes políticos, entre outras medidas. O reflexo mais notável desse decreto foi a censura da imprensa em nome “da segurança nacional” e preservação da “moral da família brasileira”. AZEVEDO, Campos Gislaine; SERIACOPI, Reinaldo. História: Ensino Médio – Volume Único. São Paulo: Ática, 2007.
[2] Mártires de Chicago são homens que morreram enforcados condenados por participaram ativamente da greve geral ocorrida em 1º de maio de 1886 na cidade de Chicago nos Estados Unidos. GAWRYSZEWSKI, Alberto (Org.). Imagens Anarquistas: Análises e debates. Coleção História na comunidade – volume 2. Londrina: LEDI-UEL, 2009.

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