I Simpósio de Comunicação Popular e Comunitária discute mídia alternativa

O evento debateu pesquisas que trabalham com estratégias contra-hegemônicas e sobre temas que não estão em pauta nos grandes jornais

O coordenador do Simpósio, Rozinaldo Antonio Miani em uma de suas apresentações do evento

Edição: Fernanda Cavassana
Pau
ta: Laura Almeida
Reportagem: Beatriz Bevilaqua

Durante os dias 23 e 25 de junho de 2010, realizou-se o “I Simpósio de Comunicação Popular e Comunitária”, na Universidade Estadual de Londrina (UEL). A realização foi do Núcleo de Pesquisa em Comunicação Popular, com o apoio do curso de Especialização em Comunicação Popular e Comunitária, do Departamento de Comunicação da UEL, da Vila Cultural Alma Brasil, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Londrina e da Fundação Araucária. O evento foi uma oportunidade para a reflexão de temas que não são discutidos na grande mídia.

Por meio de apresentações em Grupos de Trabalho, bem como de conferências em mesas redondas, o simpósio reuniu pesquisadores e ativistas em comunicação. Entre os participantes, estavam o jornalista  Raimundo Pereira, coordenador da revista “Retrato do Brasil”; Cecília Peruzzo, autora dos livros “A Comunicação nos Movimentos Populares” e “Relações Públicas no modo de produção capitalista”; Nilton Viana, editor-chefe do “Jornal Brasil de Fato”, dentre outros.

O coordenador do evento, professor Rozinaldo Antonio Miani – graduado em Jornalismo pela Universidade de Mogi das Cruzes, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e doutor em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) – falou com o Conexão Ciência e explicou a importância política  de um evento como esse na área.

Conexão Ciência: Qual o propósito da idealização desse evento?

Prof. Dr. Rozinaldo Miani: O Simpósio é um desejo de algum tempo para que nós pudéssemos constituir um espaço um pouco ampliado daquilo que vem sendo discutido e produzido dentro da UEL em torno desta temática. Nós temos um curso de especialização em Comunicação Popular e Comunitária desde 2002, e também um núcleo de pesquisa que já existe há pelo menos cinco anos e que vem desenvolvendo algumas atividades nesta questão. Dentre os integrantes do núcleo, surgiu a idéia de criar um espaço em que pudéssemos não só apresentar de uma maneira mais ampliada daquilo que já vem sendo discutido, mas também estabelecer um espaço de diálogo com experiências de outras regiões do país.

Conexão Ciência: Por que na escolha do nome “Comunicação Popular e Comunitária” para o simpósio? Por que a palavra “Popular” é inserida no meio do termo “Comunicação Comunitária”?

Prof. Dr. Rozinaldo Miani: Dentro dos espaços universitários têm uma discussão intensa sobre a construção conceitual deste campo. Na nossa perspectiva, pensamos que os conceitos de popular e comunitária estão intimamente interligados e cada um deles expressa um aspecto que nos parece importante para configurar um tipo de comunicação que seja, efetivamente, demarcada como contra-hegemônica. A posição de cada um destes elementos no conceito também tem uma motivação. Na idéia de popular está implicada a perspectiva política – ideológica desta comunicação que é de natureza transformadora, anti-capitalista e que se volta para a disputa da hegemonia da sociedade na perspectiva de um novo projeto societário. E a idéia do comunitário é como este processo deve se estabelecer: de maneira participativa e valorizando os processos de emancipação dos sujeitos que produzem estas práticas.

Conexão Ciência: Uma das convidadas a palestrar no evento foi a autora Cecília Peruzzo, muito importante na área da Comunicação Popular. Como se deu o convite?

Prof. Dr. Rozinaldo Miani : A autora é parceira das nossas iniciativas há bastante tempo. Cecília Peruzzo ministrou a aula inaugural na UEL na primeira edição do curso de especialização em Comunicação Popular e Comunitária. Já participou de várias bancas de monografia de especialização, inclusive. Então, nós temos esta “intimidade” com ela. Cecília é uma de nossas grandes aliadas e está sempre conosco.

Conexão Ciência: Qual a importância de reunir na mesma mesa redonda, participantes de áreas diferentes da Comunicação Comunitária?

Prof. Dr. Rozinaldo Miani: O convite foi feito para os três participantes da mesa  foi no sentido de tentar apresentar para os  participantes experiências diversificadas deste campo da comunicação. Eu sou um leitor do “Jornal Brasil de Fato” desde o seu início, é uma referência pra mim da abordagem que se faz dos assuntos e de uma produção informativa e opinativa em torno da realidade brasileira. A rádio “Heliópolis” eu só conheço um pouco da programação, mas sei da importância política que ela representa no campo das rádios comunitárias. A revista “OCAS” se volta a grupos sociais necessitados de instrumentos que valorizem a sua condição, que problematizam sua realidade social e que de, alguma forma, contribua para que haja a emancipação destes grupos. Então, a diferenciação entre eles é o vínculo que eu posso ter com eles. A escolha das experiências destes meios foi pensada porque nos pareciam dignas de serem disseminadas e apresentadas num espaço como esse. Como esperamos poder contar e trazer outras experiências em outras edições deste evento.

Conexão Ciência: Há a pretensão de já no próximo ano fazer a segunda edição deste evento?

Prof. Dr. Rozinaldo Miani: A disposição existe de outras realizações deste evento. Mas, não temos ainda uma decisão da periodicidade disso, é preciso planejar de maneira articulada e ponderada.  A perspectiva é que tenha novas edições. O grupo fará a avaliação de como foi este simpósio, identificar os problemas e os aspectos positivos e negativos, para poder planejar isso ao longo dos próximos anos.

Conexão Ciência: Como está a questão da Comunicação popular e comunitária na América Latina?

Prof. Dr. Rozinaldo Miani: Não há hoje muitas pesquisas que disponham a realidade destas experiências comunicativas. Nos processos das ditaduras militares que se instalaram na América Latina nas décadas passadas, nós víamos um conjunto de pesquisadores e militantes que tinham preocupação de expor e ampliar a difusão destas experiências pra que isso fosse de conhecimento mais amplo. Agora, nos países da América Latina, que tem uma perspectiva mais progressiva, nós imaginamos que o espaço pra construção destas experiências esteja favorável. De qualquer forma, há espaço pra que estas experiências se multipliquem por meio de outros veículos como a internet.

Conexão Ciência: Qual a importância da realização desse evento?

Prof. Dr. Rozinaldo Miani: Eu queria demarcar a importância  política da realização deste evento.  Nós não trabalhamos com uma expectativa de grandes públicos em eventos como esse. Até mesmo a própria tematização do assunto nos cursos de Comunicação é bastante precária e em currículos de algumas instituições, sequer há espaço pra este tipo de discussão. O fato de nós ousarmos realizar este evento, aglutinando pesquisadores, estudantes e agentes políticos da comunicação já foi importante.

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