Mundo digital: A nova imagem do telejornalismo

Projeto de pesquisa examina os novos elementos visuais usados nas imagens telejornalísticas

Para a professora dra. Neusa Maria Amaral, não é possível haver total imparcialidade: “Eu não acredito na isenção, eu acredito na ética”

Edição: Tatiane Hirata
Pauta e Reportagem: Renan Cunha

Desde as pinturas rupestres da era das cavernas ao mais sofisticado sistema de imagens digitais, o homem procura representar o mundo. Sem dúvidas, esses “recortes do real” ajudam a humanidade a compreender a história e os fatos que a cercam. Contudo, devido às possibilidades que as novas tecnologias proporcionam, sabe-se que as imagens não são representações fiéis da realidade. Essa é a preocupação do projeto de pesquisa “A virtualidade da imagem telejornalística”, pertencente ao Departamento de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e coordenado pela professora Dra. Neusa Maria Amaral – Jornalista formada pela Universidade Estadual de Londrina, mestre em Comunicação Social, área de concentração em Comunicação Científica e Tecnológica, pela Universidade Metodista de São Paulo e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.

 A pesquisa tem por objetivo identificar e classificar os elementos videográficos usados nas produções dos telejornais. Com o advento das mídias digitais, é possível, hoje, alterar as imagens captadas pela videocâmera ou mesmo substituir estas imagens por outras criadas por computador. Para a professora Neusa Maria Amaral, “o principal questionamento é em que medida essa alteração modifica a informação e altera o entendimento do telespectador na medida em que os telejornais, por princípio, devem apresentar imagens reais do acontecimento.”

 Em entrevista ao Conexão Ciência, a prof. Dra. Neusa Maria Amaral explicou de que forma essas edições podem influenciar o telespectador, e qual a responsabilidade do jornalista ao produzir as reportagens. Segundo a professora, “somente a pesquisa poderá verificar se os videografismos, ou as imagens concebidas e ou alteradas por algoritmos matemáticos interferem no entendimento da informação, tornando real o que na verdade é virtual”. Por conseguinte, uma das dicas dadas por ela é o acompanhamento, por parte da população, de vários telejornais de diferentes emissoras. “se a Globo cobre um evento ligado a Record, ela tem uma visão, se a Record cobre o próprio evento, ela tem outra visão” declarou.

 Em uma sociedade cada vez mais ligada à imagem do que ao texto, há de se preocupar com a forma de intermediação realizada pelas máquinas, no caso, os computadores, que geram as imagens que servem para o homem se comunicar e conhecer novas coisas. Na escolha entre estética e ética, a Dra Neusa Maria Amaral afirma tratar-se de conceitos que não são excludentes. Para ela, uma TV que transmita uma “imagem plástica” (imagem composta em conceitos estéticos) não é mais ou menos ética que outra que faça uma transmissão desprovida de elementos estéticos.

 A coordenadora do projeto possui uma visão diferente da socióloga Gaye Tuchman*, que crê os jornais como “janelas da realidade”. Para a professora doutora Neusa Maria Amaral, os telejornais são “visões de mundo” porque as reportagens são recortes feitos pelos profissionais que cobrem os fatos, mesmo que sejam profissionais éticos.

 Com relação à isenção e à responsabilidade do jornalista para com a produção das matérias, a Dra Neusa Maria Amaral afirma não ser possível ter total imparcialidade, pois todos têm princípios e valores: “Eu não acredito na isenção, eu acredito na ética”. Para ela, o profissional ético deve abordar os temas da melhor maneira possível, mesmo usando os recursos de edição, pensando nas implicações que isso causará a sociedade.

 Ainda sobre a questão de isenção, a pesquisadora acrescenta: “Se o jornalista for ético, ele vai conseguir o equilíbrio entre a parte moral e a própria visão de mundo dele”. Sobre o resultado do projeto, ela espera que a pesquisa possa descrever, com mais precisão, de que forma os elementos visuais produzidos no computador estão sendo incorporados aos grandes telejornais, principalmente agora, com a implantação do sistema digital em substituição do analógico.

*Gaye Tuchman: Sociológa americana formada e doutorada pela Brandeis University. Se especializou em sociologia da cultura, meios e gêneros, com abordagens etnográficas, deixando grandes contribuições nos estudos midiático-sociológicos. É diretora editorial de diversas revistas acadêmicas e autora de livros como ‘Television Establishment: Programming for Power and Profit, Images of Women in the Mass Media e Making News: A Study in the Construction of Reality’. Fontes: http://sociology.uconn.edu e http://www.jorwiki.usp.br

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