O aborto considerado como um problema de saúde pública

Projeto do departamento de Enfermagem estuda casos de abortos atendidos no HU e aponta como o problema está tornando-se comum

Casos de aborto são tema de estudos do departamento de Enfermagem

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta: Edson Vitoretti
Reportagem: Isabella Sanches

A Pesquisa Nacional de Aborto (PNA) realizada em maio desse ano e divulgada pela Folha de S. Paulo indica que o aborto é tão comum no Brasil que, ao completar 40 anos, mais de uma em cada cinco mulheres já abortou. Esse é um problema de saúde e precisa ser estudado e discutido para que seja minimizado. É sobre esse tema que Profª Drª Marta Lucia de Oliveira Carvalho, professora do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Londrina (UEL), tratou nos projetos já concluídos: “Casos de aborto atendimentos em hospital universitário de Londrina-PR de 1999 a 2004: Registros em prontuário e perfil das mulheres atendidas” e “Gestões não planejadas e contracepção: Estudo sobre pacientes internadas por abortamento em um hospital universitário”. A Drª Marta Lucia Carvalho possui graduação em Enfermagem e Obstetrícia pela UEL, mestrado em Enfermagem Psiquiátrica e doutorado em Saúde Pública, ambos pela Universidade de São Paulo (USP). O Conexão Ciência conversou com a professora sobre seus projetos, a questão do aborto e suas causas.

Conexão Ciência: Como surgiu a ideia para os projetos sobre o aborto?

Profª Drª Marta Carvalho: Pesquisar o tema do aborto surgiu porque eu já trabalhava com planejamento familiar; faz quase trinta anos que eu trabalho na área da saúde da mulher, principalmente na área da saúde reprodutiva. E quando você trabalha nessa área o aborto é visto como um indicador da ineficiência do planejamento familiar, quantos mais abortos você tem em uma região mais você tem necessidades não atendidas de planejamento familiar. Porque nós partimos do princípio de que nenhuma mulher aborta porque gosta, aborta por desespero.

Conexão Ciência: O que foi constatado pelas pesquisas?

Profª Drª Marta Carvalho: Foram duas pesquisas consecutivas. Na primeira delas, nós entrevistamos mulheres que estavam sendo atendidas por abortamento no pronto socorro do HU. A escolha foi mais que facilidade, pois todas as mulheres que abortam, se o atendimento for feito pelo SUS, são encaminhadas para o HU. Os resultados da pesquisa mostraram o seguinte: nós colocamos um número aproximado de 500 e poucos abortos por ano. Se o ano tem 365 dias, então todos os dias nós temos cerca de um aborto e meio. Esse dado não é um dado que mostra qual o número de abortos em Londrina. Primeiro porque têm mulheres que não vão para o HU, que são atendidas pela rede particular. Segundo, tem muitas mulheres que abortam e ficam em casa. Os casos de abortamento que chegam até o hospital são os que tiveram consequências, que a hemorragia ficou muito forte e a paciente ficou com medo. Existe já um cálculo que é usado pelo Ministério da Saúde, que é uma fórmula matemática elaborada pelo Instituto Alan Guttmacher que trabalha só com pesquisas sobre aborto no mundo e assessora a Organização Mundial de Saúde. O Instituto calcula que o número de mulheres que chegam ao hospital atendidas por abortamento significa um quinto do número total de abortos. Então, fazendo as contas, ainda que nenhuma conta nessa área seja muito objetiva, se eu recebo no hospital quinhentas mulheres que fizeram aborto e isso é um quinto do número total, têm outras duas mil que não chegaram a precisar de atendimento. Assim, pode-se aproximar o número a uns 2.500 abortos em Londrina por ano. Além disso, o projeto trabalhou não só com números, mas também com a questão do planejamento familiar. O planejamento familiar para nós é um atendimento importante, porque uma mulher que aborta pode engravidar novamente duas semanas depois do aborto. Não é igual a um parto que a mulher fica em um estado de esterilidade por um mês, o aborto é como se fosse uma menstruação, assim que ele acontece daí a duas semanas a mulher ovula outra vez. Então eu quero que essa mulher saía do hospital orientada e protegida contra o risco de uma nova gravidez indesejada.

Conexão Ciência: O que se concluiu sobre o atendimento no HU?
Profª Drª Marta Carvalho: Checou-se que o atendimento no HU era muito bom em termos de atendimento ao aborto em si, de não deixar a paciente morrer de hemorragia ou de infecção. Mas na hora da alta, nós notamos um número muito baixo de orientação de planejamento familiar. A área do aborto é uma área nebulosa e eu concordo com a ideia de que o “aborto é um problema de saúde pública” e que deve ser tratado dessa forma, não como um caso religioso ou de polícia. É um problema de falha do próprio sistema de saúde que não fornece um atendimento eficiente em métodos para que as mulheres evitem esses filhos e depois que o aborto acontece todo mundo condena.

 
Conexão Ciência: Quais são as causas que mais levam a uma gravidez indesejada? É a falta de conhecimento sobre o próprio corpo? Falta de orientação? Falha nos métodos contraceptivos?

Profª Drª Marta Carvalho: É uma mistura de todos esses fatores. Nós podemos pensar que o nível de escolaridade está aumentando então as mulheres deveriam saber se cuidar melhor, mas não é tão fácil assim. Observamos isso pelos dois métodos contraceptivos mais utilizados hoje, que são a esterilização feminina e a pílula. A esterilização é definitiva, é para a mulher que não quer mais ter filhos, não é para alguém que ainda está solteira e que não teve todos os filhos que queria ter, então sobra a pílula. A pílula como método temporário e não definitivo, têm falhas: as mulheres têm problemas gástricos ao ingerir a pílula e elas esquecem de tomá-la, o esquecer de tomar é o maior motivo da falha da pílula. O uso da camisinha que seria o mais indicado, ainda mais para proteção da AIDS, da Hepatite e de outras doenças; é um método que aparece muito pouco. A camisinha é mais objetiva, você usa e está ali na sua frente, quando fura você percebe e pode tomar uma medida em relação, como tomar a pílula do dia seguinte, ou seja, é mais fácil de manejar. Desconhecimento do próprio corpo também aparece como uma tônica. Parece que faz parte da feminilidade ser ignorante em termos de sexo e de anatomia feminina. Então no caso da mulher nós ainda temos essa coisa meio medieval em uma geração onde os jovens têm o livre exercício da sua sexualidade e uma ignorância em relação aos métodos contraceptivos. Eles usam errado, as meninas acham que podem usar a pílula que a amiga está tomando, quando na verdade as pílulas possuem várias dosagens de hormônios e o que dá certo para uma mulher não funciona para a outra. As jovens também não vão ao médico para prevenção e é importante que a mulher que usa a pílula visite regularmente seu ginecologista. Nós temos ginecologistas disponíveis na rede básica de saúde, mas elas não frequentam o médico e não fazem o tratamento direito. Então, o que faz uma gravidez indesejada acontecer e consequentemente um aborto, é um pouco de ignorância e de falhas nos métodos contraceptivos quando mal utilizados. 

Conexão Ciência: E você considera a situação dos serviços de saúde pública eficiente nessa área?

Profª Drª Marta Carvalho: Mais ou menos. Se você comparar o trabalho na rede básica há quase trinta anos, nós percebemos que houve uma grande melhora, nós saímos do zero para um serviço melhor, mas ainda com deficiências. Temos que lembrar que estamos no Brasil, um país em desenvolvimento, onde o esforço de investir em planejamento familiar do governo federal em convênio com as prefeituras foi muito grande e se pode dizer que a situação melhorou bastante, mas ainda têm muita coisa para melhorar. Como por exemplo, o fornecimento de métodos contraceptivos, que ainda não é regular. Às vezes as mulheres vão ao posto de saúde buscar sua pílula e quando chegam lá não tem, isso não pode acontecer, pois essa mulher vai ficar sem proteção. 

Conexão Ciência: Qual é o perfil da mulher que aborta? E quais são as causas que levam essa mulher a tomar essa atitude?

Profª Drª Marta Carvalho: No senso comum, nós imaginamos que a maior parte das mulheres que abortam são adolescentes sem juízo que transaram com o namorado e acabaram engravidando. Não é. A maioria das mulheres que abortam é casada, tem mais de vinte e cinco anos e já é mãe, então o perfil que se desenha é de uma mãe de família. Quanto às razões que levam ao aborto, o motivo financeiro é muito forte e aparece em várias entrevistas que nós fizemos. O trabalho também aparece como uma motivação importante, questão da mulher não poder engravidar, principalmente as empregadas domésticas e aquelas que trabalham sem carteira assinada, para as quais ficar grávida significa ficar desempregada e ter dificuldade de arranjar outro emprego, então o aborto vem como a salvação financeira de toda uma família. Assim as motivações mais importantes que nós encontramos não são religiosas ou morais, a questão é mesmo financeira. 

Conexão Ciência: O medo de ser mãe solteira ainda leva as mulheres a fazer o aborto?

Profª Drª Marta Carvalho: Essa questão também aparece, mas não como uma questão moral e sim financeira. Antigamente era feio uma mulher solteira ter um filho, hoje a pergunta que se faz é: como eu vou sustentar esse filho? Uma mulher que fica grávida e tem o filho sabe que o mercado de trabalho acaba se restringindo para ela.

Conexão Ciência: O lado religioso ainda pesa na decisão de um aborto?

Profª Drª Marta Carvalho: O lado religioso está bem mais fraco do que antes, mas ainda existe a preocupação moral religiosa nessa questão. O aborto existe como uma condenação, a mulher que faz um aborto é uma mulher que cometeu um crime. Até eu digo que a legislação nem precisa se preocupar com essa questão, porque o maior peso de condenação é o interno da própria mulher. Matar o próprio filho, como elas mesmas dizem, é uma coisa que se vive como um trauma violento. Por isso é horrível pensar na criminalização do aborto, é como se fosse uma dupla pena em cima de um mesmo delito, pois a mulher já está se condenando. Eu nunca vi uma mulher que aborta e acha isso engraçado ou natural, a maior parte delas vivência isso com uma grande culpa, o que pode ser prejudicial até em termos de saúde mental.  

Conexão Ciência: De maneira geral, como está a situação do aborto no Brasil?

Profª Drª Marta Carvalho: No dia 22 de maio desse ano foi publicada a Pesquisa Nacional de Aborto (PNA), patrocinada pelo ministério da saúde e realizada pelo instituto Ibope. Essa pesquisa trouxe dados bastante interessantes. Uma em cada sete brasileira de 18 a 35 anos já fez aborto. Essa pesquisa ainda indica 5 milhões de abortos realizados no Brasil. Ainda tem mais uma surpresa em relação à idade. Na faixa etária de 35 a 39 anos a proporção de aborto é ainda maior do que nas outras idades. Entre 35 a 39 anos, uma em cada 5 mulheres já fez aborto. Esse é um número altíssimo e demonstra como essa situação deve ser encarada de maneira mais séria.

 

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