E-radiar: a rádio vai até as escolas

Iniciativa da rádio UEL, o projeto coloca estudantes em contato com a produção radiofônica. A experiência já rendeu um especial transmitido pela emissora

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta: Edson Vitoretti
Reportagem: Isabella Sanches

Levar o rádio para dentro das escolas e contribuir para a construção do conhecimento e formação de argumentos críticos. Com esses objetivos, a UEL FM vem realizando, desde o ano passado, o
projeto E-Radiar. As oficinas são orientadas pelo educomunicador Roberto Camargo, e a coordenação geral do projeto é da jornalista Cristina Côrtes. Parte dos resultados das oficinas se transformou em um especial transmitido pela rádio, que pode ser ouvido no site da emissora www.uelfm.uel.br. O Conexão Ciência conversou com o educomunicador e estudante do último ano do curso de Jornalismo da UEL, Roberto Camargo sobre o “E-radiar”.

Conexão Ciência: Como surgiu a ideia para o projeto “E-radiar”?
Roberto Camargo:
Na verdade já faz uns cinco anos que a rádio UEL vem fazendo várias ações em parceria com as escolas. A emissora sente que tem a missão e potencial para contribuir para a educação; então, já foram feitos programas de rádio intervalo, rodas de conversas, programas gravados e editados aqui, alunos de escolas públicas vieram para cá, jornalistas daqui foram para as escolas da cidade para projetos sociais. Já havia tido várias ações nesse sentido, mas no ano passado a então diretora da rádio UEL, Cristina Côrtes, me chamou para participar da elaboração de um projeto que sistematizasse todas essas experiências e que criasse uma ação que pudesse ser levada a várias escolas. Como eu já havia tido experiências anteriores como educador social, nós traçamos uma metodologia para aplicar essa ação nas escolas públicas de Londrina. Com o apoio da CAMTAR ” Comunidade de Amigos, Trabalhadores e Apoiadores da Rádio, foi proposto então o projeto “E-radiar”; esse “e” ao mesmo tempo é de escola e de eletrônico. A gente acredita que os meios digitais vão dar um bom suporte, não só para essa ação prática, mas para a permanência do rádio ao longo do tempo.

Conexão Ciência: Do ano passado para cá, quais foram as mudanças observadas no projeto?
Roberto Camargo:
No ano passado, nós fizemos uma experiência piloto com uma escola que já havia procurado a emissora e trabalhamos no sentido de trazer os alunos para a rádio. A grande mudança este ano é que a rádio UEL está indo mais às escolas. Como a gente quer atender um número maior de escolas e a emissora tem limitação de espaço e de organização, não dá para fazer as oficinas aqui, mas por outro lado é importante mesmo realizar as oficinas no ambiente dos estudantes, uma visita à rádio é necessária e suficiente para que eles conheçam a dinâmica de produção. Assim, ficou muito mais produtivo levar as oficinas de rádio ao ambiente dos alunos e ao mesmo tempo, na visita deles à emissora, que acontece depois de umas três semanas de convivência com os estudantes, a gente faz um exercício prático e quando eles retornam para as escolas na semana seguinte já estão bem mais conscientes do que querem fazer. Esse foi o grande avanço que nós observamos do ano passado para cá.

Conexão Ciência: Quantas escolas e estudantes estão sendo atendidos pelo “E-radiar”?
Roberto Camargo:
Nós atendemos cinco escolas aqui em Londrina e temos uma escola em Ivaiporã que ainda está aguardando uma visita nossa, mas já consideramos como parte do projeto, então ao todo são seis escolas. Nessas cinco escolas, em que atuamos no primeiro semestre, são 40 alunos diretamente envolvidos. Mas, na realização do programa, eles acabam envolvendo os colegas, pelo menos os das suas salas. Podemos considerar assim um universo de mais ou menos 200 estudantes que acabam de alguma maneira sendo envolvidos no projeto.

Conexão Ciência: Qual é o objetivo do “E-radiar”?
Roberto Camargo:
O objetivo é realizar uma ação educativa, porque sentimos que a educação é um compromisso da sociedade. A escola é a instituição principal, mas não é a única que deve cuidar dos adolescentes, e um meio de comunicação também tem essa função, está até na legislação: toda concessão de um canal de rádio e de TV implica essa responsabilidade de produzir conteúdos educativos. É claro que veículos comerciais não cumprem necessariamente essa legislação, mas uma rádio pública e educativa sabe da importância disso. O objetivo principal é esse: levar uma colaboração para a formação de crianças e adolescentes, o que nós do projeto buscamos é trabalhar na questão da autonomia de aprendizagem, acreditamos que o método que aplicamos ajuda nesse sentido, o aluno tem que ir atrás do conhecimento. É uma atitude ativa e não passiva. A gente instrumentaliza, mas ai eles precisam começar a pensar no que querem fazer, as dúvidas vão surgindo e nós ajudamos a resolvê-las. Esse é um objetivo especifico. Outro objetivo específico é contribuir para a formação do senso crítico; antes de dar o microfone ao aluno, a gente faz ele escutar bastante para depois discutir o que foi ouvido. É claro que em seis meses da oficina de produção a gente não vê resultados imediatos, mas estamos plantando uma sementinha pra que eles aprendam a questionar os conteúdos que recebem da mídia.

Conexão Ciência: De que forma é desenvolvido o projeto? Que atividades são realizadas?
Roberto Camargo:
A primeira atividade é uma apresentação à comunidade escolar. Apenas depois de um planejamento conjunto com o diretor e a supervisora pedagógica do colégio, é definido o corte da escola. Esse corte tem sido em geral para alunos da quarta à oitava série, até porque são alunos que, se a escola tiver ensino médio, irão poder permanecer no colégio e no projeto por mais tempo. Feito esse recorte, é marcado um dia para ser feita a apresentação do projeto aos alunos da faixa etária escolhida, e então, é feito o convite para que aqueles que estiverem interessados compareçam na semana seguinte para um processo seletivo ou até, dependendo do número de estudantes que aparecem, para confirmar a sua participação no “E- radiar”. Formado esse grupo, nós iniciamos as oficinas de produção radiofônica. Na terceira edição dessa oficina acontece a visita à rádio e depois dela, os estudantes já colocam a “mão na massa”: pautam o programa deles e começam a produzir.

Conexão Ciência: Como está sendo a participação dos estudantes? Eles realmente se envolvem no projeto ou há muita desistência?
Roberto Camargo:
Há um pouco de desistência sim, mas não é muito. O interessante é que sempre que acontece uma desistência os próprios alunos pedem para incluir um colega que havia ficado de fora do projeto, talvez porque tenha perdido a apresentação ou porque talvez não tenha decidido antes, mas depois ficou com vontade de participar. Assim, nós temos conseguido repor as poucas desistências e eles têm permanecido no projeto, e até esse momento, o grupo tem mostrado motivação. Estamos bem perto de encerrar essa etapa e eles estão firmes e ativos no “E-radiar”.

Conexão Ciência: São os alunos que escolhem o que é produzido nas oficinas. O que está sendo feito em cada escola? Há diferenças de uma produção para outra?
Roberto Camargo:
Muda um pouco sim as propostas de pauta, de acordo com a maturidade e o contexto da escola e do bairro. Você tem, por exemplo, escolas que pautaram a questão da
formatura da oitava série, a festa que eles vão fazer no mês de julho para levantar dinheiro para a formatura. Por outro lado, você tem escolas que estão discutindo temas mais complexos, como
sexualidade e até mesmo entrevistaram um educador sexual, colegas, pais e professores sobre o tema. Como nós damos essa liberdade e incentivamos eles a fazerem as suas escolhas, ocorre
essa variação nos temas de acordo com o interesse a maturidade do grupo.

Conexão Ciência: Foi produzido um especial transmitido pela rádio UEL. Como foi essa iniciativa? Quem apresenta, qual o tempo de duração e como foi selecionado o material do especial?
Roberto Camargo:
No calor da produção, não queríamos perder de mostrar o que já foi feito pelo “E-radiar”. No dia primeiro de julho as cinco escolas terminam as suas produções e nós quisemos fazer a mostra no mês de junho para dar uma ideia para o ouvinte da rádio sobre o que estava sendo produzido no projeto. Então me reuni com o grupo de monitores, contando comigo nós somos em oito monitores, para cuidar de cinco escolas, e nós propomos para os monitores de cada escola que indicassem uma ou duas produções para compor o especial. Foi um pouco da sensibilidade de cada monitor de ter gostado muito daquela matéria e produção e o especial é então uma junção que a gente fez, possui 29 minutos e todos os monitores o apresentam. Nele foi mostrado um pouquinho da produção de cada escola e inclusive algumas atividades realizadas para se chegar a esse resultado. Essas atividades surgem de acordo com as temáticas sugeridas pelos estudantes, em algumas delas sentimos necessidade de levar pessoas para conversar e fazer uma mediação sobre o assunto, como na questão da programação musical. A primeira coisa que os estudantes querem é colocar música no programa, com isso eles acabam expondo essa situação que a gente vê de uma imposição cultural: rádios comerciais que colocam ali um gênero cultural e é só aquilo que passa e as pessoas não percebem que eles podem ouvir outros tipos de música. Nós notamos, então, que precisávamos discutir essa situação e aí iniciamos um processo de convidar músicos e educadores musicais para bater papo com os alunos e tocar para eles músicas diferentes. Então o especial mostrou um pouquinho disso para dar uma dimensão do projeto, mostrando não só do que foi produzido nas oficinas, mas como foi construído.

:Legenda: Estudantes em trabalho de edição no colégio Moraes Barros

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