Edição 105

setembro 27, 2010

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O retrato literário da geografia brasileira

setembro 26, 2010
Livro aborda a relação entre geografia e literatura. De acordo com a organizadora, as obras literárias lidas estão contemplando várias paisagens da geografia brasileira
Pauta e Edição: Fernanda Cavassana
Reportagem: Beatriz Pozzobon

A geografia humanista estuda, entre outros pontos, a relação entre geografia e literatura. Essa relação é a base para o livro “Geografia e Literatura – ensaios sobre geograficidade, poética e imaginação”, organizado pelos doutores Lúcia Helena Batista Gratão e Eduardo Marandola Jr,.  O livro é composto por 12 ensaios escritos por geógrafos de diferentes gerações e regiões do Brasil. A professora Dra Lúcia Helena Gratão, do Departamento de Geociências, conversou com o Conexão Ciência. Ela possui graduação em Geografia pela Universidade Federal de Goiás – UFG e mestrado e doutorado em Geografia pela Universidade de São Paulo – USP.

Conexão Ciência: Como surgiu a ideia de fazer o livro?

Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão: Defendi o doutorado em 2002, cujo tema era sobre água ou, mais especificadamente, sobre o rio Araguaia, abordado pela poética, pela geografia poética, ou a poética da geografia. Nesse trabalho de doutorado eu já vislumbrava um pouco a literatura. Então, trabalho uma parte com poesia, com música e ao longo desse tempo até chegar a 2006 quando o professor Eduardo (organizador) e eu pensamos esse livro.

Conexão Ciência: Em que consiste o livro?
Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão
:  Esse livro é uma reunião de vários ensaios, ou melhor, é a reunião de vários geógrafos que se reuniram através da leitura de diferentes obras literárias. E a partir dessa leitura, cada autor escreve um ensaio sobre geografia.

Conexão Ciência: Como foi feita a escolha dos geógrafos?
Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão: Um dia, estávamos conversando Eduardo e eu, e veio a ideia de fazer um livro. Fomos elencando as pessoas, os geógrafos que pudessem compor esta obra. E claro, são geógrafos que tinha a ver com está temática (geografia e literatura), que trabalhavam com esta temática. Cada um de nós tem uma proximidade com determinadas obras, com determinados escritores, romancistas, poetas. Convido você e você vai escolher o autor que já está trabalhando. Esse livro poderia ser o retrato da geografia brasileira. Porque as obras literárias lidas estão contemplando várias paisagens da geografia brasileira e por muitos geógrafos brasileiros que também estão distribuídos pelo país afora. Nós temos geógrafos da UNESP de Rio Claro. Temos um professor de Belo Horizonte, da PUC. Temos professor da USP, da UNICAMP. Tem uma professora que é do programa de pós graduação de Sorocaba. Outra é professora do Ensino Médio em Sumaré – SP. Uma professora é da UFG e outra da UEL, além de outros. Então, é um livro composto por 12 ensaístas, que leram doze obras literárias diferentes.
Conexão Ciência: Como são feitas as análises?
Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão: Eles (os geógrafos) analisam o encontro, essa convergência que existe entre geografia e literatura. Eles desvendam o que há de geografia nas obras literárias. A partir da essência dessas geografias, as paisagens, os lugares, e as relações que estes personagens que compõem essas obras estabelecem com essas paisagens, com essas regiões, com esses lugares. A obra literária é lida aos olhos da geografia, e não no ponto de vista de uma análise crítica da obra, porque esse não é o papel do geógrafo. Quem faz isso são os profissionais da área de literatura. Então, em princípio, eles procuram desvendar através dessas relações a paisagem e os personagens, especialmente.


Conexão Ciência: Quais regiões do Brasil são contempladas pelo livro?
Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão: Então por isso que eu falei que aqui na verdade está contemplando a geografia brasileira, não só a geografia brasileira, tem outras obras que não são de escritores brasileiros. Mas a maioria, sim. E ai contempla o sertão, que é o sertão mineiro, goiano, a Amazônia.
Conexão Ciência: Como é composto o livro?
Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão:  O livro percorre por quatro percursos, vou compará-lo com a ideia de um rio, que tem as nascentes, e divide-se em quatro percursos. O primeiro “Viagens telúricas e geográficas”. O segundo “Repensando o sertão”, o terceiro “Temporalidades e espacialidades”, e o quarto e último, “As tramas da cidade”.  Quando abre-se o livro e vê esses quatro momentos, você encontra ensaios que vão compor esses percursos. Eu diria que é um grande rio composto por esses quatro percursos, e esses quatro percursos vão receber outros tributários, outras fontes. Essa é a ideia da composição.
Conexão Ciência: A quem se destina essa obra?
Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão: A todos aqueles que são tocados e se deixam tocar pelo prazer da leitura que podem estar no campo da literatura, podem estar no campo da geografia, enfim, aqueles que amam os livros. Eu tenho um grande amor pela leitura, desde quando eu fui apresentada aos livros, enquanto menina estudante de escola rural, onde a gente morava. Lá eu aprendi as primeiras lições com “papai”. Talvez por isso eu tenha trazido Cora Coralina, que é de Goiás.
Conexão Ciência: Quais são os geógrafos/ ensaístas que compõem a obra?
Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão:
Lívia de Oliveira, Osvaldo Bueno Amorim Filho, Wenceslao Machado de Oliveira Jr., Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, Maria Geralda de Almeida, Ideni Terezinha Antonello, Maria Lúcia de Amorim Soares, Antonio Carlos Vitte e  Giulliano Coutinho, Júlio Cesar Suzuki, Janaina A. M. Silva Marandola, Lúcia Helena Batista Gratão, Eduardo Marandola Jr.

Conexão Ciência: Qual a vantagem dessa união entre geografia e literatura?
Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão: São duas vertentes que se convergem em forma de saberes, que estão se misturando, então, entendemos que o saber que vem da literatura vai se misturar com o saber da geografia, e o saber da geografia, vai se misturar com o sabor da literatura e o leitor vai entender melhor esta escrita. Eu acho que é esse um dos propósitos. Na verdade, um dos grandes propósitos é convidar à leitura. É o despertar pela leitura. Não só estudantes, mas também os professores de geografia, tem muito que aprender com a leitura. E nesse momento que a gente está abordando aqui a leitura de obras literárias, ou seja, aprender com a literatura. E também os professores e estudantes de literatura também podem estar deslumbrando, em um primeiro momento, as geografias, escritas, descritas, traçadas e mapeadas, nas obras de geografia. Esse é o grande destino.
Conexão Ciência: O que você pode tirar da escrita desse livro?
Profa. Dra. Lúcia Helena Gratão: O mais importante de falar de um livro que acabou de ser lançado, é falar do prazer de escrever. E o prazer de escrever, é o prazer de ler. E mais ainda quando se reúnem todas essas pessoas para falar de um tema que é geografia e literatura. Quando a gente convidou estas pessoas, geógrafos, para compor com a gente essa obra e que nenhum deles disse não, e que todos eles atenderam o nosso pedido, foi um grande prazer.  Fico esperando que a leitura possa aquecer a mente e, especialmente, os corações dos que tem amor pela leitura, via literatura e via geografia.
Serviço:
“Geografia e Literatura – ensaios sobre geograficidade, poética e imaginação” 354 páginas
Valor: R$ 45,00.
Editora: Eduel
Ensaístas

Lívia de Oliveira
Graduada em Geografia e História pela Universidade de São Paulo; Doutora em Ciências pela Universidade de Campinas; Professora Adjunta e Titular da UNESP; Atualmente é voluntária titular da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus de Rio Claro.

Osvaldo Bueno Amorim Filho
Graduado em Geografia pelo Instituto de Geociências da UFMG; Doutor pela Université de Bordeaux III (França); Coordenador do Colegiado do Programa de Pós-graduação em Geografia Tratamento da Informação Espacial da PUC Minas; Professor aposentado da UFMG.

Wenceslao Machado de Oliveira Jr.
Graduação em Geografia pela Universidade Federal de Juiz de Fora; Mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas; Doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas; Atualmente é professor da Universidade Federal de Campinas, onde é professor no Departamento de Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte e pesquisador do Laboratório de Estudos Audiovisuais-OLHO.

Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro
Graduação em Bacharel e Licenciatura em Geografia e História pela Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil; Especialização em Geografia Física e Geologia Dinâmica pela Faculté des Scienses; Doutorado em Geografia pela Universidade de São Paulo.

Maria Geralda de Almeida
Possui graduação em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais; Mestrado e doutorado em Geografia pela Université de Bordeaux III; Pós doutorado em Geografia Humana pela Universidad de Barcelona, em Geografia Cultural pela Université Laval, Universita Degli Studi Di Genova e Universite de Paris IV Paris-Sorbonne. Atualmente é professora colaboradora da Universidade Federal de Sergipe, professora titular da Universidade Federal de Goiás onde coordena o Grupo de Estudos e Pesquisas de espacialidades culturais- EPEC do IESA/UFG. É presidente da Associação Nacional de Pós graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE).

Ideni Terezinha Antonello
Possui graduação em Geografia pela Universidade Federal de Santa Maria; Mestrado em Geografia pela Universidade Federal de Sergipe; Doutorado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho Realizou aperfeiçoamento no L’institut Des Hautes Études de L’amerique Latine Université de La Sorbonne, IHELA. Atualmente é professora adjunta da Universidade Estadual de Londrina.

Maria Lúcia de Amorim Soares
Graduação em Historia e Geografia pela Faculdade de Filosofia Ciencias e Letras Sedes Sapientae; Mestrado em Geografia (Geografia Humana) pela Universidade de São Paulo, USP.
Doutorado em Ciências: Geografia Humana pela Universidade de São Paulo, USP. Atualmente é professora titular da Universidade de Sorocaba, colaboradora da Fundação Ford Fundação Carlos Chagas, Soc. Brasileira Progresso Ciência – SP e na Universidade Estadual de Campinas.

Antonio Carlos Vitte
Possui graduação em Geografia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho
Doutorado em Geografia (Geografia Física) pela Universidade de São Paulo. Atualmente é MS3 – assistente doutor da Universidade Estadual de Campinas.

Giulliano Coutinho
Graduado em Geografia pelo Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas

Júlio Cesar Suzuki
Possui graduação em Geografia pela Universidade Federal de Mato Grosso; Graduação em Letras pela Universidade Federal do Paraná; Mestrado em Geografia (Geografia Humana) pela Universidade de São Paulo; Doutorado em Geografia (Geografia Humana) pela Universidade de São Paulo Atualmente é professor doutor da Universidade de São Paulo.

Janaina de Alencar Mota e Silva Marandola
Graduada em Geografia pela Universidade Estadual de Londrina; Mestrado em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Rio Claro); É professora da Rede Estadual de Ensino do Estado de São Paulo (PEB II).

Lúcia Helena Batista Gratão
Formada em Geografia pela Universidade Federal de Goiás – UFG; Possui doutorado pela Universidade de São Paulo – USP; Atualmente é professora da Universidade Estadual de Londrina.

Eduardo Marandola Jr.

Possui graduação em Geografia pela Universidade Estadual de Londrina; Doutorado em Geografia pelo Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas; Atualmente é bolsista PRODOC do Programa de Pós-Graduação em Demografia e Pesquisador do Núcleo de Estudos de População, ambos da Universidade Estadual de Campinas.


Pesquisa objetiva desenvolver novos testes psicológicos

setembro 26, 2010

Projeto do Centro de Ciências Biológicas da UEL busca ampliar a variedade de testes para estudantes e idosos

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta: Beatriz Pozzobon
Reportagem: Paola Moraes

Os primeiros indícios de construção de testes psicológicos datam em 1890 com o biólogo inglês Francis Galton que acreditava na avaliação da aptidão humana por meio de medidas sensoriais como o tato e o som. Desde então, esse recurso para avaliação de determinados comportamentos humanos passou por grandes aperfeiçoamentos e fases de popularização e esquecimento¹. Pesquisadora sobre o assunto, a professora Katya de Oliveira, graduada e mestre em Psicologia pela Universidade São Francisco (USF) e doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), decidiu trabalhar nos estudos sobre essa forma de avaliação psicológica na Universidade Estadual de Londrina (UEL).
Aliando suas duas áreas de estudo, Psicologia educacional e Psicometria, a doutora organizou o projeto de pesquisa denominado “Construção e validação de escalas e medidas psicológicas: focando a avaliação psicoeducacional e avaliação de idosos”. Tendo como objeto de estudo alunos de ensino regular infantil, fundamental, médio e superior e idosos asilares e não-asilares, o projeto pretende formular testes que avaliem atitudes de leitura, estratégias de aprendizado e motivação para ensino, condições de estudo e leitura para o primeiro grupo e qualidade de vida e comportamento autônomo e ajustamento afetivo e emocional para o segundo.

A doutora Katya de Oliveira explica como se dá o processo de construção de um teste psicológico. “Antes de tudo, é preciso pedir permissão ao Comitê de Ética para realizar a pesquisa, já que estamos trabalhando com seres humanos”. Com a permissão do Comitê, é necessário formular o teste com perguntas e opções de respostas objetivas. “Antes de fazer as coletas com os grupos pesquisados, é preciso enviar os testes e o referencial teórico da pesquisa um grupo de juízes, que são pessoas especialistas no assunto que estou abordando”, explica a pesquisadora. Esses juízes avaliam a validade de conteúdo do material criado. Para que os testes possam ser utilizados, cerca de 80% de suas perguntas devem ser consideradas boas pelos juízes.

Com os testes aprovados pelos juízes, é preciso fazer uma validação semântica com os itens a serem perguntados. A psicóloga expõe como ocorre essa etapa: “Eu seleciono 10% da minha amostra, ou seja, 10% do grupo que estou pesquisando e confiro se eles entendem o que estou perguntando. Se não, é necessário fazer mudanças na escrita da minha pergunta”. Com a avaliação positiva, os pesquisadores partem para a parte prática da pesquisa: a coleta, ou seja, a realização dos testes com os grupos escolhidos.

“Como os testes elaborados aqui são construídos com base em escalas e materiais já validados, como a escala Beck, fazemos a análise da coleta para descobrir se o teste nos levou ao que desejávamos”, analisa a doutora Katya de Oliveira. Contudo, o processo não termina aqui. É necessário refazer os testes depois de certo tempo com o mesmo grupo e obter respostas relativamente semelhantes para constatar a relevância e consistência dos resultados obtidos, sua fidedignidade.

O projeto de pesquisa que mantém ligações com instituições de Ensino Superior de São Paulo e Minas Gerais também pretende investigar as diferenças culturais entre a população analisada. “Quando queremos fazer uso de testes psicológicos estrangeiros, precisamos fazer uma validação cultural antes, dessa forma com o Brasil, que é um país tão amplo, também queremos checar as adaptações para cada estado”, explica a doutora. Com a conclusão da pesquisa, a pesquisadora afirma que os testes serão disponibilizados para os profissionais clínicos e estudiosos que os solicitarem e divulgados em periódicos científicos, artigos e congressos. “Não comercializaremos os testes, pois este não é nosso objetivo”.

Segundo a professora, a área de Avaliação e Testagem Psicológica tem sido esquecida e possui um atraso de cerca de 30 anos no Brasil. “Ao terminar a construção destes testes, iniciarei a construção de outro e depois outros. Precisamos de mais estudos e conquistas.”, constata. A doutora Katya de Oliveira ainda reforça: “Há muitos profissionais que excluem os testes por acharem que eles classificam as pessoas, quando, na verdade, os testes servem para encontrar pequenas evidências de um comportamento e auxiliar diagnósticos clínicos”.

¹ Informações retiradas do site http://www.algosobre.com.br/psicologia/os-testes-psicologicos-e-as-suas-praticas.html


Projeto estuda espécies de leguminosas que podem substituir os defensivos agrícolas sintéticos

setembro 26, 2010

“Os defensivos orgânicos são menos tóxicos e mais baratos” afirma a professora doutora Terezinha de Jesus Faria

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta: Edson Vitoretti
Reportagem: Bruna Gonçalves

O projeto “O estudo de leguminosas visando o controle de parasitose animal e agrícola”, do departamento de Química da Universidade Estadual de Londrina (UEL), estuda certas espécies de leguminosas e seus compostos químicos, com o objetivo de poderem substituir os defensivos agrícolas sintéticos.

A professora doutora Terezinha de Jesus Faria estuda três dessas espécies — Cássia leptophylla (Falso-barbatimão), Ingá marginata e Tipuana tipu (Amendoim-acácia), todas encontradas no próprio campus da UEL – com esse intuito. “Uma das vantagens é que eles se decompõem mais facilmente no ambiente e são menos tóxicas” afirma.

Dra Terezinha Faria é graduada em Farmácia Bioquímica pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestra e doutora em Química pela mesma universidade e atualmente é docente da UEL. Realiza a pesquisa em parceria com professores das áreas de agronomia, biologia e veterinária.

“O estudo começou com os pesquisadores do departamento de Agronomia da UEL. Nós trabalhamos em colaboração, coletamos as plantas, preparamos os extratos. Além disso, dois professores de Agronomia fizeram os testes de inseticida e de alelopatia, que é para inibir a germinação de plantas daninhas” conta a professora doutora.

De acordo com a pesquisadora, os pesquisadores do departamento de Química procuram substâncias que possuam atividades fungicida, inseticida, alelopática e anti-helmíntico, tratar verminoses em ovinos. “Todas as plantas, em geral, produzem substâncias para defesa própria, contudo eles têm interesse nas leguminosas por causa dos taninos” afirma.

A professora conta que o problema com os defensivos sintéticos começa na aplicação, pois o trabalhador não possui a proteção necessária e se contamina. Além de contaminar rios, que espalham para cidades longe das culturas, mananciais e o próprio consumidor. Os pesquisadores do departamento de Química já realizaram o estudo químico preliminar da Cássia leptophylla, estão terminando tanto os testes biológicos como os estudos sobre os taninos. Estão no início do estudo químico da Ingá marginata e ainda não estudaram a Tipuana tipu.

“A primeira planta que a gente estudou foi a Cássia leptophylla e nela encontramos, na parte apolar, poucas substâncias e só estudamos essas substâncias por enquanto. Dentro das apolares, a gente encontrou a antraquinona, composto que tem bastante atividade, como contra bactérias, fungicida e anti-cancerígena. Agora, nosso interesse é estudar a parte polar, que são os taninos, mas ainda não temos resultados” explica a professora.

“Taninos são polímeros de compostos fenólicos condensados, a parte mais polar do extrato, são mais complicados de purificar e identificar, em comparação com as partes menos polares. Por causa disso, eles não eram estudados antigamente, mas, hoje, já é possível identificá-los e estamos estudando sua composição química” esclarece a Dra Terezinha Faria.

Ainda, segundo ela, os defensivos orgânicos são mais viáveis economicamente, o problema está na formulação, “nós descobrimos alguma substância que possui atividade, mas não conseguimos fazer a formulação para a aplicação”. A pesquisa exige muitas parcerias, há equipes nas áreas química, biológica e agrônoma, entretanto não há uma para a formulação.

“As culturas são muito atacadas por pragas e parasitas, o Brasil importa muito agrotóxico e há um gasto muito grande com isso, mas o maior problema é o ambiental. O objetivo final da pesquisa é conseguir um defensivo menos tóxico e mais barato” conclui Terezinha de Jesus Faria.

Os estudos sobre a Cássia leptophylla estão previstos para finalizar ainda esse ano. Já a Ingá marginata, a previsão é para o meio de 2011.


Dificuldades de aquisição do português é tema de pesquisa

setembro 26, 2010

Projeto de pesquisa do Departamento de Letras Vernáculas quer transformar o modo de ensino da Língua Portuguesa nas escolas públicas

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta: Edson Vitoretti
Reportagem: Amanda Vaz Tostes

O projeto “Dificuldades de aquisição do português padrão culto pelos alunos de escola pública” quer deixar claro que existem regras tanto na fala quanto na escrita e que elas são compartilhadas para que a comunicação seja possível. “A nossa preocupação não é propriamente focalizar o estudo dessas regras, mas observar como os alunos se relacionam com elas e quais as dificuldades que eles encontram para transportá-las para o texto escrito.”, declarou o coordenador Wagner Ferreira de Lima. Graduado, mestre e doutor em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), atualmente Wagner Lima é professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Segundo o professor, é na modalidade escrita que as normas gramaticais são mais importantes, já que conferem objetividade na exposição de idéias. Ele esclareceu que o texto escrito supõe condições de produção diferentes daquelas do texto oral. As idéias têm de ser bem estruturadas e claras. A gramática é então um instrumento para atender a essas exigências: expor e articular melhor as informações.

“Embora as regras na fala proporcionem clareza na comunicação entre os indivíduos, o uso do português padrão nessa modalidade não é tão importante porque ela está num processo natural de variação.”, comentou. Na escrita, as normas são mais conservadoras. Na oralidade, há maiores dinâmica e velocidade no processo de transformação. O doutor Wagner Lima lembrou que um dos agravantes da dificuldade do aprendizado da norma culta é que hoje no Brasil as modalidades escrita e falada são muito distintas. “Para transferir as informações da expressão verbal para a escrita, o conhecimento da norma gramatical é essencial.”, justificou. Algumas regras acabam desaparecendo com o tempo: como pontuação, uso adequado das regências verbal e nominal e concordâncias nominal e verbal, que ficam evidentes nos textos da amostragem. São reflexos da linguagem adotada na oralidade.

Para identificar as dificuldades dos estudantes, o grupo de pesquisadores aplicou uma avaliação chamada por eles de ‘teste de consciência linguística’ numa turma de oitava série de uma escola pública. O teste consistia na produção de uma redação por uma turma de oitava série e de uma versão gramaticalmente correta pelos pesquisadores que foi entregue aos estudantes que formam a amostragem da pesquisa. Os adolescentes deveriam apontar as diferenças entre os dois textos. De acordo com o professor Wagner Lima, a maioria deles apenas transpõe a fala para a escrita. E , em geral, os estudantes somente identificam as diferenças de vocábulo e encontram dificuldade em diferenciar o estilo aplicado no texto (norma culta ou coloquial) e em perceber como estão organizadas as informações (nível gramatical). “Percebem qual dos dois textos ficou mais claro, mas se identificam com o mais informal.”, destacou.

Além de transformar o ensino da gramática em algo mais instigante para os estudantes, o projeto pretende fazer com que eles adquiram uma consciência linguística mais ampla, explicou o coordenador do projeto. O estudo trabalhado com os adolescentes é de sintaxe, que diz respeito à organização das frases em textos. Wagner Ferreira ainda esclarece que o grupo não tem como objetivo que os estudantes tenham uma consciência metalingüística, sendo capazes de analisar as frases e nomear as estruturas; mas sim fazê-los apontar no texto que escreveram onde estão os erros e quais seriam as possibilidades de resolver esses problemas.

De acordo com o doutor Wagner Lima, a aprendizagem dos estudantes também é influenciada pelo histórico escolar: “Quando o aluno vem de uma sucessão de fracassos, fica mais difícil.” O projeto, portanto, trabalha com a afetividade dos adolescentes. “O projeto não tem só interesse técnico. Temos que trabalhar um pouco com a psicologia do aluno e não tem como não fazer isso. Essa geração nasceu dentro desse paradigma de valorização das imagens e, com isso, a aprendizagem da produção de textos escritos fica comprometida.  A imagem transmite informações muito rapidamente, fazendo com que ocorra uma perda no estímulo para ler e escrever.”, explicou o professor.

O grupo notou que a impetuosidade própria do adolescente causa desinteresse nas aulas expositivas das regras gramaticais pela abordagem tradicional e que trazer a realidade deles para a sala de aula os motiva a escrever. Concluiu-se que, para isso, atividades lúdicas poderiam ser implantadas. Elas enredariam os problemas pessoais dos adolescentes e contribuiriam para extravasar toda a necessidade deles de opinar sobre o mundo e de fazer uma auto-afirmação, características da idade.

O coordenador acredita que uma alternativa para melhorar a produção dos textos desses adolescentes seja o incentivo a assistir programas com legenda. E o grupo adotou a construção de um jornal mural como outra resposta a essa questão. O doutor Wagner Lima contou que eles têm assunto para escrever: “Na maior parte das vezes, as sugestões de temas partem dos próprios alunos. Saúde, esportes e celebridades, entre outros assuntos, empolgam os garotos, que começam a exercitar a escrita.”.

Os trabalhos são corrigidos e devolvidos aos seus produtores, que são orientados com possíveis maneiras de aprimorar as redações. Os estudantes aprendem a prestar mais atenção àquilo que escrevem. O que agora é feito de forma instintiva, irá se tornar uma atividade mais planejada. No jornal, há um cuidado com a estética dos textos que, segundo o professor, cria uma competitividade saudável entre os grupos de redatores.


Edição 104

setembro 15, 2010

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Projeto de enfermagem resgata memórias de idosos

setembro 14, 2010

Livro sobre envelhecimento é produzido por estudantes de escola

 

Professora Sandra Perdigão atua no projeto “Atenção Integral e Interdisciplinar a Idosos na Comunidade” há sete anos

Pauta e Edição: Tatiane Hirata

Reportagem: Renan Cunha

  

Manter-se jovem é um padrão para a sociedade atual. O Brasil, por exemplo, é campeão de cirurgias plásticas. De 2007 a 2008, de acordo com publicação do site da Editora Abril* , foram feitas no país 1,2 mil cirurgias plásticas por dia. Essa mentalidade acaba por tornar a velhice algo antiquado e a pessoa idosa perde seu valor. Pensando nisso, a fim de sensibilizar os jovens a respeito do valor das pessoas idosas e de seu papel para com os demais, professores de vários departamentos da Universidade Estadual de Londrina (UEL), sob coordenação da professora Mara Solange Gomes Dellaroza* , elaboraram o projeto de extensão “Atenção Integral e Interdisciplinar a Idosos na Comunidade” pertencente ao Departamento de Enfermagem da UEL. As atividades do projeto, realizadas no Colégio Padre Wistremundo Roberto Peres Garcia (Zona Norte de Londrina), resultaram na criação de um livro chamado “Histórias de Vida: integrando jovens e idosos”, que é um acervo de histórias colhidas pelos estudantes do colégio ao entrevistarem idosos da comunidade. Quem concedeu entrevista ao Conexão Ciência foi uma das colaboradoras do projeto, a professora Sandra Perdigão Domiciniano – formada em Serviço Social pela UEL, especialista Gerontologia pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e mestre na área pela Pontifícia Universidade Católica (PUC). 

  

Conexão Ciência: Como surgiu a ideia do livro?

Professora Sandra Perdigão: Nós sentimos a necessidade de ampliar o projeto “Atenção Integral e Interdisciplinar a Idosos na Comunidade”, que é desenvolvido na região dos Cinco Conjuntos de Londrina, para as escolas, a fim de divulgar as questões do envelhecimento nesse meio. A partir disso, a nossa coordenadora, a professora Mara Solange Dellaroza, articulou uma proposta de atuação na escola. Com a autorização, elaboramos um plano de intervenção junto a professores e alunos de sexta série no sentido de desenvolver atividades mostrando-lhes algumas questões relativas ao envelhecimento. Neste contexto, um dos professores da escola propôs que os alunos tivessem uma maior aproximação dos idosos para que conhecessem suas histórias. Então, os alunos elaboraram um roteiro e entrevistaram vários senhores e senhoras que conheciam. Das histórias, criaram várias ilustrações. Com esse material produzido, nós achamos oportuno disseminá-lo de uma maneira simples e objetiva para os adolescentes. Assim, nasceu a ideia do livro.

  

Conexão Ciência: De que forma o livro foi elaborado?

Professora Sandra Perdigão: A elaboração do livro se deu a partir das histórias que os alunos coletaram. Nós percebemos que o material era rico em informações e possível de ser trabalhado. Todas as histórias que os estudantes trouxeram foram usadas na obra. O programa de intervenção, entre atividades e criação do livro, durou cerca de dois anos.

 

Conexão Ciência: Qual a importância desse trabalho para a juventude?

Professora Sandra Perdigão: É um trabalho muito importante, pois com ele os jovens aprendem a valorizar a velhice e se preparam para isso de maneira que tenham uma condição de vida melhor e entendam quais são as transformações que sofremos durante esse período. Penso que esse tema do envelhecimento deveria ser inserido nos estudos desde o começo. Desse modo, as crianças aprenderiam sobre o papel social do idoso na sociedade e que eles devem ser respeitados e valorizados.

 

Conexão Ciência: O que leva o jovem a não ter interesse pelo diálogo com idosos?

Professora Sandra Perdigão: Eu acredito que a condição social. Devido a modos de vidas diferentes, essa aproximação é prejudicada. O idoso tem uma necessidade de comunicação. Ao se aposentarem, eles acabam se desligando do cotidiano e, por isso, quando encontram alguém, querem compartilhar suas histórias. No futuro também gostaremos de compartilhar o que fizemos em nossa vida, com nossos filhos e outras pessoas e por isso temos que valorizar o diálogo com os mais velhos. 

 

Conexão Ciência: Quais os resultados já alcançados com o projeto?

Professora Sandra Perdigão: Houve uma grande valorização do trabalho realizado. Os jovens passaram a respeitar mais os idosos; passaram a dar mais atenção; serem mais gentis. Os idosos também gostaram, principalmente porque puderam se comunicar e resgatar suas experiências de vida.

 

Conexão Ciência: Como está sendo feita a distribuição do livro? Pretendem lançar outra obra?

Professora Sandra Perdigão: O livro foi elaborado como material didático para as escolas. Por isso os distribuímos nas bibliotecas de escolas municipais e estaduais. A função dele é disseminar esse conhecimento e aproximar o jovem do assunto. Se tivermos a oportunidade, gostaríamos de lançar outro, sim.

*A professora Mara Solange Gomes Dellaroza é formada pela UEL em Enfermagem e Obstetrícia. Especialista em Saúde Pública e em Ensino, pesquisa e Assistência de Enfermagem e Mestre pela Universidade de São Paulo (USP) com o tema Dor no Idoso.

*http://www.abril.com.br/noticias/brasil/brasil-registra-1-2-mil-cirurgias-plasticas-ao-dia-268017.shtml

crédito da foto: Renan da Silva Cunha