Dificuldades de aquisição do português é tema de pesquisa

Projeto de pesquisa do Departamento de Letras Vernáculas quer transformar o modo de ensino da Língua Portuguesa nas escolas públicas

Edição: Fernanda Cavassana
Pauta: Edson Vitoretti
Reportagem: Amanda Vaz Tostes

O projeto “Dificuldades de aquisição do português padrão culto pelos alunos de escola pública” quer deixar claro que existem regras tanto na fala quanto na escrita e que elas são compartilhadas para que a comunicação seja possível. “A nossa preocupação não é propriamente focalizar o estudo dessas regras, mas observar como os alunos se relacionam com elas e quais as dificuldades que eles encontram para transportá-las para o texto escrito.”, declarou o coordenador Wagner Ferreira de Lima. Graduado, mestre e doutor em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), atualmente Wagner Lima é professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Segundo o professor, é na modalidade escrita que as normas gramaticais são mais importantes, já que conferem objetividade na exposição de idéias. Ele esclareceu que o texto escrito supõe condições de produção diferentes daquelas do texto oral. As idéias têm de ser bem estruturadas e claras. A gramática é então um instrumento para atender a essas exigências: expor e articular melhor as informações.

“Embora as regras na fala proporcionem clareza na comunicação entre os indivíduos, o uso do português padrão nessa modalidade não é tão importante porque ela está num processo natural de variação.”, comentou. Na escrita, as normas são mais conservadoras. Na oralidade, há maiores dinâmica e velocidade no processo de transformação. O doutor Wagner Lima lembrou que um dos agravantes da dificuldade do aprendizado da norma culta é que hoje no Brasil as modalidades escrita e falada são muito distintas. “Para transferir as informações da expressão verbal para a escrita, o conhecimento da norma gramatical é essencial.”, justificou. Algumas regras acabam desaparecendo com o tempo: como pontuação, uso adequado das regências verbal e nominal e concordâncias nominal e verbal, que ficam evidentes nos textos da amostragem. São reflexos da linguagem adotada na oralidade.

Para identificar as dificuldades dos estudantes, o grupo de pesquisadores aplicou uma avaliação chamada por eles de ‘teste de consciência linguística’ numa turma de oitava série de uma escola pública. O teste consistia na produção de uma redação por uma turma de oitava série e de uma versão gramaticalmente correta pelos pesquisadores que foi entregue aos estudantes que formam a amostragem da pesquisa. Os adolescentes deveriam apontar as diferenças entre os dois textos. De acordo com o professor Wagner Lima, a maioria deles apenas transpõe a fala para a escrita. E , em geral, os estudantes somente identificam as diferenças de vocábulo e encontram dificuldade em diferenciar o estilo aplicado no texto (norma culta ou coloquial) e em perceber como estão organizadas as informações (nível gramatical). “Percebem qual dos dois textos ficou mais claro, mas se identificam com o mais informal.”, destacou.

Além de transformar o ensino da gramática em algo mais instigante para os estudantes, o projeto pretende fazer com que eles adquiram uma consciência linguística mais ampla, explicou o coordenador do projeto. O estudo trabalhado com os adolescentes é de sintaxe, que diz respeito à organização das frases em textos. Wagner Ferreira ainda esclarece que o grupo não tem como objetivo que os estudantes tenham uma consciência metalingüística, sendo capazes de analisar as frases e nomear as estruturas; mas sim fazê-los apontar no texto que escreveram onde estão os erros e quais seriam as possibilidades de resolver esses problemas.

De acordo com o doutor Wagner Lima, a aprendizagem dos estudantes também é influenciada pelo histórico escolar: “Quando o aluno vem de uma sucessão de fracassos, fica mais difícil.” O projeto, portanto, trabalha com a afetividade dos adolescentes. “O projeto não tem só interesse técnico. Temos que trabalhar um pouco com a psicologia do aluno e não tem como não fazer isso. Essa geração nasceu dentro desse paradigma de valorização das imagens e, com isso, a aprendizagem da produção de textos escritos fica comprometida.  A imagem transmite informações muito rapidamente, fazendo com que ocorra uma perda no estímulo para ler e escrever.”, explicou o professor.

O grupo notou que a impetuosidade própria do adolescente causa desinteresse nas aulas expositivas das regras gramaticais pela abordagem tradicional e que trazer a realidade deles para a sala de aula os motiva a escrever. Concluiu-se que, para isso, atividades lúdicas poderiam ser implantadas. Elas enredariam os problemas pessoais dos adolescentes e contribuiriam para extravasar toda a necessidade deles de opinar sobre o mundo e de fazer uma auto-afirmação, características da idade.

O coordenador acredita que uma alternativa para melhorar a produção dos textos desses adolescentes seja o incentivo a assistir programas com legenda. E o grupo adotou a construção de um jornal mural como outra resposta a essa questão. O doutor Wagner Lima contou que eles têm assunto para escrever: “Na maior parte das vezes, as sugestões de temas partem dos próprios alunos. Saúde, esportes e celebridades, entre outros assuntos, empolgam os garotos, que começam a exercitar a escrita.”.

Os trabalhos são corrigidos e devolvidos aos seus produtores, que são orientados com possíveis maneiras de aprimorar as redações. Os estudantes aprendem a prestar mais atenção àquilo que escrevem. O que agora é feito de forma instintiva, irá se tornar uma atividade mais planejada. No jornal, há um cuidado com a estética dos textos que, segundo o professor, cria uma competitividade saudável entre os grupos de redatores.

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