Projeto de Medicina analisa casos de Hipotermia em recém-nascidos

O estudo procura identificar se há uma relação direta entre os bebês prematuros que sofreram hipotermia e o aumento nos números de mortalidade neonatal

A coordenadora do projeto, professora Lígia Ferrari, explica os procedimentos adotados para evitar a hipotermia em recém-nascidos

Edição: Tatiane Hirata

Pauta: Beatriz Pozzobon

Reportagem: Isabela Nicastro

Os limites de temperatura para definição e classificação de hipotermia variam na literatura médica. Considera-se hipotermia a redução da temperatura sanguínea central abaixo de 36,5 graus Celsius.* Com o objetivo de explicar esse conceito e buscar uma associação entre a hipotermia e a mortalidade em recém nascidos, a pediatra Lígia Silvana Lopes Ferrari desenvolve no Hospital Universitário (HU), junto a outros hospitais universitários do Brasil, o projeto “Hipotermia em prematuros nascidos em centros da rede brasileira de pesquisas neonatais: do nascimento à admissão da UTI neonatal”.  A professora Lígia Ferrari possui graduação em Medicina e mestrado em Medicina e Ciências da Saúde pela Universidade Estadual de Londrina (UEL). Atua principalmente nos seguintes temas: mortalidade neonatal, recém-nascidos de baixo peso, qualidade do atendimento e aleitamento materno.

Conexão Ciência: Como surgiu a ideia do projeto e qual a data de início e término?

Professora Lígia Ferrari: O projeto teve início em fevereiro deste ano e tem término previsto para janeiro de 2012. A ideia surgiu das observações acerca da pouca literatura existente relacionando a baixa temperatura como um fator de risco para a mortalidade. Acreditamos que a manutenção da temperatura corporal ao nascimento é um dos primeiros passos para atendimento ao recém-nascido e ela vai depender de como está o ambiente na sala de parto e das condutas realizadas para fornecer calor ao bebê.

Conexão Ciência: Como ocorre a influência dos fatores externos na manutenção da temperatura corporal do bebê?

Professora Lígia Ferrari: Um bebê pode ser considerado prematuro abaixo de 36 semanas gestacionais e estes têm uma menor capacidade de manutenção da temperatura corpórea. Por isso, faz-se necessário o uso de incubadoras após o nascimento. Além disso, eles possuem uma imaturidade do centro termo-regulador, ou seja, não são capazes de manter sua temperatura acima de 36 graus Celsius. Se o ambiente externo não tiver os cuidados necessários, o bebê pode chegar à hipotermia.

Conexão Ciência: Quais as condutas utilizadas para que haja regulação da temperatura corporal?

Professora Lígia Ferrari: A primeira conduta é a temperatura adequada da sala de parto, que deve ser em torno de 26 graus Celsius. Após isso, faz-se uma secagem rápida do bebê para reduzir a pele umedecida do líquido amniótico. A partir daí, coloca-se o recém-nascido em um berço de calor radiante e, se ele for muito prematuro, é envolvido em campos aquecidos com o  uso de gorros. Os bebês abaixo de um quilo e meio são revestidos de um saco de polietileno para promover um aquecimento mais eficaz. Passados os primeiros atendimentos, a criança, por ser prematura, é encaminhada até a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) ou Unidade de Cuidados Intermediários (UCI). No transporte do bebê da sala de parto até a Unidade, utiliza-se uma incubadora de transporte, com temperatura média de 32 graus Celsius. Após chegar na UTI, o bebê é transferido para a incubadora do local, que possui temperatura regulada de acordo com o peso do bebê e do seu  grau de imaturidade.

Conexão Ciência: Há números confirmados de mortos em decorrência da hipotermia?

Professora Lígia Ferrari: Existem vários estudos internacionais que relacionam a hipotermia em prematuros com a mortalidade. Contudo, não há comprovações a respeito. São apenas estudos, assim como o nosso, que pretendem confirmar a veracidade dessas informações e a possibilidade de uma relação direta da hipotermia com o número de mortos.

Conexão Ciência: Como é a eficiência dessas tecnologias e o que ainda deve ser modernizado?

Professora Lígia Ferrari: Consideramos que é preciso desenvolver novas intervenções para evitar a hipotermia. Entretanto, antes de buscarmos por inovações, precisamos implementar primeiramente os cuidados mínimos para evitar esse problema. Muitos hospitais não possuem incubadoras específicas, assim como outras medidas necessárias. No HU, possuímos uma tecnologia bastante eficiente que permite a adoção de um sensor à pele do bebê para que a temperatura na incubadora seja regulada automaticamente, de acordo com a programação feita pelo médico.

Conexão Ciência: No momento, quais são as conclusões já tiradas do projeto e o que ainda deve ser realizado?

Professora Lígia Ferrari: Ainda não foi feita nenhuma conclusão. Estamos em processo de coleta de dados, que foi iniciada em agosto e o objetivo do projeto é colher informações de aproximadamente 1.400 bebês das 16 universidades participantes no Brasil, como a Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), a Universidade Federal do Paraná (UFPR), a Universidade Federal de Santa Maria (UFMS), dentre outras. Isso gera em torno de 100 bebês por instituição e aqui, no HU, até o momento já acompanhamos o nascimento de 22 bebês prematuros. Estamos caminhando com sucesso.

* Fonte: http://www.saj.med.br/uploaded/File/artigos/Hipotermia.pdf

Créditos da foto: Isabela Nicastro

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