Projeto de pesquisa avalia os benefícios do plantio direto

Técnica reequilibra a biodiversidade da área plantada

Edição: Tatiane Hirate
Pauta e reportagem: Rosana Reineri Unfried

O projeto de pesquisa ‘Efeitos das operações agrícolas na estrutura do solo em plantio direto’, do departamento de agronomia da Universidade Estadual de Londrina (UEL); coordenado pelo professor Dr. Ricardo Ralisch, visa investigar os impactos causados pelo plantio direto que, segundo explicação do pesquisador, consiste no plantio de culturas diretamente na palha, sem o preparo do solo. Dr. Ricardo Ralish é graduado em Agronomia na UEL; mestre e doutor em mecanização agrícola e impacto no sistema de produção, pela Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho (UNESP-Botucatu).

Conexão Ciência: O plantio direto surgiu em substituição do plantio convencional. Como era feito esse plantio?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: O plantio convencional é baseado em uma agricultura temperada, importada da Europa, principalmente, que se baseia no preparo do solo a cada safra. Nesse sistema se faz, periodicamente, o preparo do solo com implementos agrícolas, como arados, grades, entre outros.

Conexão Ciência: Quais eram os benefícios e os malefícios desse sistema?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: Ele possui alguns efeitos importantes e indiscutíveis. A aração tem a capacidade de incorporar, ou seja, colocar insumos, adubos e matéria orgânica dentro do solo através do revolvimento mecânico. Por serem operações que revolvem bastante o solo, esse método é muito agressivo, o que compromete o equilíbrio biológico. O segundo ponto negativo é a perturbação da estrutura do solo. Esta tem a ver com o material de origem, com o clima em que esse solo está, tem a ver também com a atividade biológica associada a essa área. Além disso, essas são operações onerosas, em energia, tempo e dinheiro. Nessa linha o preparo convencional deixa de ser periódico e passa a ser opção corretiva, ou seja, se o agricultor quer de fato corrigir alguma característica do solo, por exemplo, melhorar a aeração para haver uma maior penetração de raiz, uma alternativa seria a utilização do preparo do solo, o agricultor somente vai fazer esporadicamente e em condições mais próximas possíveis da adequada. A melhor alternativa é evitar que o solo se desgaste, isso com o manejo adequado.

Conexão Ciência: Em que consiste o plantio direto?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: O plantio direto é feito diretamente na palha, sem que se faça um revolvimento no solo.

Conexão Ciência: Como e porque foi desenvolvido esse sistema?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: O plantio direto deriva de uma situação do final dos anos 50, 60 quando a agricultura passou a se tecnificar muito. Nesta época, houve um grande desenvolvimento de máquinas e tratores. As ações de preparo do solo que antes eram feitas por tração animal passaram a ser feitas por tração mecânica, os tratores começaram a aumentar de potência exponencialmente e os implementos ficaram cada vez maiores, desta forma as operações de preparo do solo foram ficando cada vez mais pesadas, exigindo cada vez mais potência e isso estava criando um circulo vicioso negativo de busca de mecanismos cada vez maiores e cada vez mais onerosos em energia. Nas décadas de 50 e 60, surgiram as primeiras manifestações americanas sobre a real necessidade de se preparar solo. Então, houve uma coincidência de iniciativas americanas e inglesas para discutir por que era feito e quais eram os efeitos desse preparo intensivo. A partir de então, começou a se estudar isso com um pouco mais de atenção, começaram a ser feitas pesquisas rudimentares e descobriram que a planta não responde ao preparo do solo.  Os primeiros trabalhos para não preparar solo foram feitos nos EUA. Começaram a pensar em máquinas para semear nessa nova condição. Nos EUA , foram desenvolvidas as primeiras semeadoras (plantadeiras) para plantio direto na palha. O objetivo era não se fazer mais preparo do solo nas culturas anuais. Os agricultores americanos foram os pioneiros na utilização dessa técnica substituindo o preparo do solo para controle do mato por herbicida, para diminuir a demanda de energia.

Conexão Ciência: Como esse sistema chegou ao Brasil?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: No Brasil, esse sistema chegou pelas mãos de um proprietário de terras da região de Rôlandia, Herbert Bartz, em 1972. Principalmente no verão, quando era preparado, o solo apresentava problemas de erosão, ele começou a ficar preocupado porque era o patrimônio que estava sendo jogado fora, então ele associou diretamente a erosão com o preparo do solo. Lendo ele teve contato com a experiência dos EUA, o No-till (plantio direto), sem preparação. Ele teve contato com jornais e revistas e foi pra lá. A tecnologia foi sendo aperfeiçoada e difundiu-se para outras regiões e, no Brasil ,começou a ser chamada de plantio direto. No entanto, não adianta somente substituir a preparação do solo pelo plantio direto, há a necessidade de três fatores: não preparo do solo (mínimo revolvimento possível), cobertura permanente do solo e rotação de cultura.

Conexão Ciência: Qual a diferença do No-till americano e do plantio direto brasileiro?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: Temos uma mudança significativa de rumo da técnica do No-till que é desenvolvido em clima temperado, sem a agressividade do clima e o plantio direto que é feito em clima tropical, no qual é necessário conciliar a atividade com a agressividade do clima. A vegetação seria uma proteção do solo dos efeitos da chuva e do sol. Por esta razão, o solo em clima tropical tem que estar permanentemente coberto; seria uma espécie de proteção física do solo. Por muito tempo, foi considerada, como melhor alternativa para essa cobertura, a utilização de palha, ou seja, vegetais mortos, hoje já não se trabalha mais com essa alternativa. Atualmente, se fala muito em cobertura viva, por isso são utilizadas as combinações pecuária, lavoura-florestal.

Conexão Ciência: Como pode ser feito o controle do mato no plantio direto?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: Fala-se que o plantio direto é dependente de herbicidas, mas não é verdade. Desde que se adote práticas adequadas  e se mantenha uma área com plantas permanentemente, a probabilidade de ter invasoras vai diminuir. Algumas plantas têm a capacidade de inibir o surgimento de outras em função de seus extratos vegetais e aspectos químicos. Por exemplo, a aveia preta tem a capacidade de inibir o aparecimento de outras gramíneas na área, isso pode ser considerado uma aleopatia. Hoje é possível se adotar técnicas culturais, ou seja, usar plantas para controlar plantas. Em grandes áreas comerciais, as pessoas ainda preferem trabalhar com o herbicida, pois é mais fácil de gerenciar. A redução de mato, doenças e pragas está relacionada a biodiversidade; se o agricultor conseguir manter o equilíbrio dessa biodiversidade, consequentemente diminuirá o potencial de ataque desses problemas e em conseqüência a dependência de controle químico.

Conexão Ciência: E como ele atua no controle a erosão?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: Agora, a aplicação do plantio direto para a contenção de erosão merece mais atenção até em termos conceituais, porque o plantio direto nasceu para controlar a erosão e realmente reduz o potencial erosivo, mas ele não pode ser utilizado isoladamente para isso porque talvez ele não seja suficiente. Mecanismos para diminuir o potencial erosivo: aumentar a infiltração da água da chuva no solo, as áreas compactadas são muito mais erosivas do que áreas sem compactação. A erosão nasce do escorrimento superficial, que é mais água caindo do que a capacidade que o solo tem de absorver e com a declividade essa água vai escorrer dando inicio a erosão. A capacidade de absorção de água feita pelo solo pode ser aumentada através de raízes. Os terraços são alternativas fundamentais para o controle da erosão, a fim de conter o escorrimento superficial.

Conexão Ciência: Em sua opinião, o que seria necessário para que o plantio direto comece a ser feito de forma consciente pelos agricultores?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: Para que o agricultor se conscientize e comece a fazer efetivamente o plantio direto de maneira correta, é necessária a criação de políticas agrícolas, as quais fariam com que o agricultor fosse menos dependente do mercado . Tais políticas, como a política de preço mínimo, fariam com que o produtor pudesse diversificar as culturas de sua propriedade. Outro aspecto importante são os serviços ambientais da agricultura; os benefícios que a agricultura traz ao meio ambiente. Para isto, o plantio direto é o que traz mais benefícios ao meio ambiente, pela proteção da água em função de sua infiltração no solo, redução de erosão, etc. Aumento da biodiversidade e redução dos gases do efeito estufa na atmosfera. A agricultura faz tudo isso. Se ela está prestando esse serviço, alguém esta sendo beneficiado, esse alguém é todo mundo. Se todo mundo está sendo beneficiado isso pode ser remunerado. Em outros países, isso já é bastante discutido. O objetivo é remunerar a agricultura pelos serviços ambientais que ela presta. Já existem agricultores sendo beneficiados pelo crédito de carbono, isso deve ser ampliado.

Conexão Ciência: Se fosse para identificar o maior benefício do plantio direto, qual seria?
Prof. Dr. Ricardo Ralish: A água. Não havendo erosão, não terá transporte de soluto para dentro dos rios e com a infiltração dela no solo aumentará o volume de água no lençol freático.

 

Imagem: Google Imagens

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