Pesquisa do departamento de Ciências da Saúde acompanha tratamento de tabagistas

Tratamento é baseado em grupos motivacionais, medicações e sessões psiquiátricas individuais

A professora doutora Sandra Odebrecht Vargas Nunes revela que com tratamento, 20 a 30% da população tabagista para de fumar

Edição: Karina Constancio
Pauta: Cláudia Yukari Hirafuji
Reportagem: Beatriz Botelho

A professora Sandra Odebrecht Vargas Nunes, graduada em Medicina pela UEL, com especialização em psiquiatria pela Universidade Complutense de Madrid-Espanha, Mestrado e Doutorado em Medicina e Ciências da Saúde pela UEL, desenvolve há alguns anos o projeto de pesquisa do Departamento de Ciências da Saúde “Adesão ao tratamento e acompanhamento do tabagismo: Centro de Referência do Ambulatório do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Londrina”, que já beneficiou centenas de tabagistas de Londrina e região. O Conexão Ciência conversou com a coordenadora do projeto para saber mais a respeito.

Conexão Ciência: Quando o projeto foi iniciado?
Profª, Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: O projeto se iniciou em 2005. Primeiramente os professores e eu fomos cadastrados e capacitados pelo Inca – Instituto de Nacional de Câncer – e depois começamos o trabalho no Centro de Referência de Abordagem e Tratamento do Tabagismo do Ambulatório do Hospital das Clínicas da UEL.

Conexão Ciência: Qual é o objetivo do projeto?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: Primeiramente, buscar essa população tabagista, conscientizá-la sobre a tendência do tabaco e depois motivá-la a buscar ajuda, pois o tabagismo tem tratamento. Sem o tratamento, de 3 a 5% da população consegue parar, enquanto que, com tratamento, 20 a 30% para de fumar.

Conexão Ciência: E quais eram as expectativas quando ele se iniciou?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: Quando se começa um projeto, têm-se expectativas de 100% de cessação do paciente, mas com o tabagismo é difícil que isso aconteça. Nós temos de 20 a 30 % de cessação, que é media nacional. Ou seja, 70% não conseguem, mas isso não quer dizer que fracassamos, pois a doença tem vários ciclos e depende também da própria pessoa, às vezes não é o momento dela parar.

Conexão Ciência: Com é feita a escolha das pessoas?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: Para o projeto, as pessoas fazem cadastro via Prefeitura. Depois elas são selecionadas e chegam até ao hospital da Universidade.

Conexão Ciência: Quem são os pacientes e quais tipos de problemas eles apresentam?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: No início, começamos a observar que os tipos de pacientes que vinham para gente eram mulheres com faixa etária de 40 anos. Apesar de o tabagismo ser mais comum em homens, são elas que buscam mais ajuda. O que percebemos foi que mais de 50% dos processos são crônicos, há muita cormobidade* na dependência do tabaco, muita depressão, abuso de calmantes e muitos problemas cardíacos.

Conexão Ciência: Por estar ligado ao INCA, a intenção do projeto é analisar o tabagismo relacionado ao câncer?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: Não só ao câncer. Nossa intenção era prevenir a causa de morte pelo tabagismo. Quanto mais se consegue cessar, previne-se não só o câncer e o enfisema pulmonar, mas também as doenças cardiovasculares. Na população estudada, nós não encontramos paciente com câncer de pulmão, pois ele é mais comum em homens com faixa etária de 60 anos e, nosso caso, eram mulheres com faixa etária de 40 anos.

Conexão Ciência: Como é o processo de tratamento?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: Primeiramente a pessoa precisa desejar parar de fumar. Então, ela vem até aqui e tem uma avaliação inicial para ver gravidade, tabagismo e comorbidades. Depois ela participa de um grupo onde se faz a motivação e, para algumas pessoas que têm grande dependência, faz-se também uso a medicação. As duas partes ajudam. Além de participar dos grupos motivacionais, ela também tem consultas individuais para ver suas necessidades. O acompanhamento com os pacientes é feito durante um ano. As quatro primeiras sessões são semanais, depois quinzenais, por fim a cada mês, até completar-se um ano.

Conexão Ciência: Quais foram os resultados obtidos até agora?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: Nos já capacitamos e fizemos o atendimento de mais de 400 dependentes do tabaco e muitos conseguiram cessar, outros recaíram, outros abandonaram o tratamento, o que é o normal. Mas a cessação está em um nível bom, do que é esperado pelo INCA que é de 20 a 30%. Com isso, pode-se dizer que o tratamento tem sido eficaz.

Conexão Ciência: Como a pesquisa está sendo feita?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: Atualmente nós estamos fazendo uma análise genética do paciente, por meio do consentimento livre e esclarecido**, para trabalharmos com o transportador da seratonina que é um neurotransmissor responsável pelo humor, ansiedade, sono, apetite, sexo e motivação. A dificuldade de cessação do tabaco está ligada a esse neurotransmissor e é ele que nós estamos investigando. Em algumas pessoas o transportador não funciona bem geneticamente e se elas têm ansiedade e depressão elas têm também mais dificuldade em parar de fumar.

Conexão Ciência: O que ainda se espera constatar?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: Nosso interesse agora é ver essa população com dificuldade de cessação, analisar essa parte genética ligada ao transportador de seratonina e se há uma metodologia diferente para essa pessoa, que é algo que nos ainda estamos começando a estudar.

Conexão Ciência: Quais serão as contribuições da pesquisa na área de saúde?
Profª. Drª. Sandra Odebrecht Vargas Nunes: Se conseguir que uma pessoa pare de fumar, estamos prevenindo diversas doenças e 15 anos de mortalidade precoce. Isso, para saúde, é um benefício sem tamanho.

*Comorbidade: O termo comorbidade é formado pelo prefixo latino “cum”, que significa contigüidade, correlação, companhia, e pela palavra morbidade, originada de “morbus”, que designa estado patológico ou doença. Assim, deve ser utilizado apenas para descrever a coexistência de transtornos ou doenças, e não de sintomas.
Fonte: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462001000600006

** Consentimento livre e esclarecido: Conselho Nacional de Saúde – Resolução 196/96- II.11- Consentimento livre e esclarecido – anuência do sujeito da pesquisa e/ou de seu representante legal, livre de vícios (simulação, fraude ou erro ), dependência, subordinação ou intimidação, após explicação completa e pormenorizada sobre a natureza da pesquisa, seus objetivos, métodos, benefícios previsto, potenciais riscos e o incômodo que esta possa acarretar, formulada em um termo de consentimento, autorizando sua participação voluntária na pesquisa.

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