A internet perde o papel de vilã na educação

Projeto de pesquisa do departamento de Letras Vernáculas e Clássicas da UEL utiliza a internet como meio inovador de métodos pedagógicos

Folha de rosto da 1ª edição do livro "Dom Casmurro" de Machado de Assis

Pauta: Laura Almeida
Edição: Fernanda Cavassana
Reportagem: Paola Moraes

Indo na direção oposta de muitos pesquisadores que criticam o “mau uso” da internet apenas para fins sociais, o professor Alamir Aquino Correa, graduado em Letras pelo Centro de Ensino Unificado de Brasília, em Direito pela Universidade Estadual de Londrina, mestre em Literatura pela Universidade de Brasília e doutorem Literaturas Hispânicaspela Indiana University Bloomington, decidiu tirar proveito dos sites de relacionamentos a fim de averiguar quais eram as impressões disponibilizadas por leitores medianos a respeito de suas leituras obrigatórias e de entretenimento; para, então, pensar em novas propostas pedagógicas que aproximassem e envolvessem os estudantes na prática literária.

“Leitor mediano é aquele que lê de forma obrigatória ou pelo seu hábito de leitura, porém sem a preocupação de um leitor letrado que, devido ao seu treino escolar, analisa a obra ou procura as que sejam mais rebuscadas”, esclarece Alamir Aquino. Através das pesquisas etnográficas realizadas por Alamir e colaboradores de seu projeto “Hipercontexto: estudo da literatura em meio eletrônico”, pode-se observar como esses leitores medianos vêem o mundo literário e o caracterizam e como a escola trabalha o texto literário com seus discentes. O entrevistado aponta que ao recolher esses dados, o objetivo do projeto é pensar como incluir o mundo digital na escola de forma estimulante tanto para alunos quanto professores.

É nesse contexto de utilização benéfica da internet que entra a criação do site Hipercontexto. Este site, que está fechado para experimentação com alunos da área de Letras, funciona como canal comunicativo de cursos à distância sobre a leitura de poemas e estudo das figuras de linguagem. O coordenador do projeto destaca os lados positivos das aulas realizadas em salas de bate-papo exclusivas: “A flexibilidade do horário de aula é muito importante. Você pode marcar uma aula e participar dela sem sair de casa e interagir mais facilmente, já que na sala de aula convencional só participam o professor e o aluno que tem coragem para levantar a mão. Outro ponto é ter o histórico de conversa da aula. Por meio dele você pode analisar melhor o comportamento e as ideias de cada aluno sobre determinado assunto”.

Outras vertentes do projeto são citadas pelo pesquisador: armazenamento de técnicas de trabalho para futuros professores e recuperação de obras literárias que foram modificadas ao longo dos anos. A primeira é destacada por Alamir Aquino como a prevenção de perda de dados pedagógicos e bibliográficos. Segundo o doutor, há cada vez menos procura pelo curso de Letras no Brasil para formação de novos professores e, os que se interessam pela prática, deixam de lado os estudos literários de séculos passados. Dessa forma, armazenar as análises já realizadas poupa a necessidade de erudição do novo professor para compreender tanto o vocabulário quanto a complexidade de tais obras.

Sobre a recuperação de obras literárias, Alamir Aquino explica que este é um trabalho de recuperação da 1ª edição do livro escolhido, a fim de detectar fielmente seu conteúdo, sem cortes ou anexos. Após isso, é realizada uma atualização vocabular. “No livro ‘Dom Casmurro’, Machado de Assis usa a palavra ‘aposentação’. Hoje, essa palavra foi substituída por ‘aposentadoria’. Assim, nós trocamos palavras arcaicas pelas utilizadas atualmente”, exemplifica o docente. Sobre o exemplo citado, Alamir expõe que esta obra foi recuperada e corrigida pelo projeto da Universidade Estadual de Londrina, integrado com o NUPILL (Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística) da Universidade de Santa Catarina e a Universidade Federal do Piauí.

A edição de “Dom Casmurro” feita pelas instituições de ensino superior citadas foi adotada pelo Ministério da Educação em 2008 e disponibilizada eletronicamente para todo o país. No site da FUVEST (Fundação Universitária para o Vestibular) – fundação responsável por elaborar o vestibular da Universidade de São Paulo, o mais concorrido do país – a edição realizada pela integração da UEL, UFSC e UFPI é a disponibilizada para download.

O professor Alamir Aquino lembra que o tempo para realização dos objetivos propostos pelo projeto é longo e este deve durar muitos anos. Por fim, o entrevistado comenta que uma curiosidade encontrada nas pesquisas da mídia eletrônica é sobre o caráter sagrado destinado ao livro em papel. “Os escritores usam a internet para divulgar sua obra, mas almejam a sua impressão no papel como uma forma de eternizar seu trabalho e torná-lo sagrado. A internet pode popularizar a literatura, mas não descarta a procura pelo livro impresso.”

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