As inquietações do cotidiano sob a perspectiva da psicanálise

UEL sedia evento sobre psicanálise e suscita discussões sobre as fantasias do cotidiano       

Psicanalistas promovem palestras sobre os delírios do cotidiano e motivam discussões acerca da psicanálise

Edição: Beatriz Pozzobon
Pauta: Cláudia Yukari Hirafuji
Reportagem: Ana Maria Simono 
O psicanalista Daniel Omar Perez*, ministrou uma palestra intitulada “A perda da realidade, delírios, alucinações, vozes e fantasias”, no dia 12 deste mês. O debate, que ocorreu no anfiteatro maior do CCH/UEL, faz parte de um evento que engloba um total de sete palestras sobre psicanálise, coordenado pela psicanalista Sandra Regina Turke**.
A psicóloga afirmou que o maior objetivo do evento é ampliar o acesso aos conceitos psicanalíticos para pessoas que se interessam pelo assunto. Por isso, não há um segmento específico a que se destinam as palestras, que são abertas à comunidade em geral. Segundo ela, os temas escolhidos para o cronograma foram baseados em sugestões e pesquisas de campo, ambos conciliados com a experiência do professor ministrante.

De acordo com Sandra Regina Turke, delírios, alucinações e fantasias estão presentes no cotidiano das pessoas, muitas vezes não como patologia, mas como parte inconsciente das particularidades de cada sujeito, e foi esse o aspecto que se priorizou na abordagem de Daniel Omar Perez sobre o assunto.

“Os temas desenvolvidos esse ano nas palestras estão relacionados a inquietações do cotidiano através de uma abordagem psicanalítica”, afirma Daniel Perez.  Para o psicanalista, de algum modo, em algum momento de suas vidas os indivíduos se deparam com algo que imaginam poder ser uma alucinação, uma fantasia. O que se buscou então com a palestra foi apresentar como, atualmente, esses fenômenos entre a realidade e a fantasia podem ser abordados do ponto de vista psicanalítico, ou seja, como, a partir de referências como Sigmund Freud e Jacques Lacan, pode-se compreender e acolher esse fenômeno.

Sandra Turke ressalta que na abordagem psicanalítica das palestras, delírios e alucinações são vistos como neuroses pertencentes ao “mundo normal”, ao contrário da psiquiatria, que os aborda sob o viés de uma estrutura psicótica. “Por que às vezes a gente entende uma coisa em um determinado momento e só depois é que percebemos que o fizemos do modo como desejávamos? E por que em algumas ocasiões escutamos algo diferente do que foi dito? Será que de repente o que se tem a falar não é algo muito difícil de suportar/escutar? Você pode psicotizar em alguns momentos e não ser psicótico”, destaca.

“A fantasia é um elemento fundamental para que possamos estabelecer o que é real, porque a realidade é também construída de fantasia”, expõe o doutor Daniel Perez.  As relações que mantemos na vida real, segundo o palestrante, são compostas não apenas de objetos exteriores, mas de símbolos, sentidos e antecipações, ou seja, essa relação está, de algum modo, pautada em uma realidade sensorial em que o desejo pessoal interfere diretamente. “Em um diálogo, por exemplo, não é apenas uma fonte sensorial que chega ao ouvido do outro; é também a relação que o ouvinte tem com seu desejo que outorga às palavras do outro algum sentido”, afirma o professor doutor.

Para o psicanalista, qualquer pessoa pode dizer que tem delírios amorosos, alucinações de algum tipo, ou mesmo fantasias. Mas, do ponto de vista da estrutura psíquica, não é qualquer um que alucina. “Quando esses delírios possuem traços ou marcas de constituição concreta diante daquilo que o sujeito entende como realidade, isso habita uma estrutura fantasmática que Lacan chama de psicose. Tem-se, então, uma psicopatologia. E é a ordem de certeza do indivíduo frente a sua alucinação que faz com que possamos entender que se trata de uma estrutura clínica diferenciada”, explica Perez.

Os psicanalistas acreditam que a “manifestação sintomática patológica depende de vários fatores, que envolvem genética, caráter orgânico, laço social ou familiar e traumas, entre outros; mas, em geral, as pessoas tendem a desencadear esses transtornos quando, precocemente, sofrem falhas importantes. Alguns estudos mostram, entretanto, que indivíduos com o mesmo problema genético e acolhimentos familiares diferentes se desenvolvem de formas completamente distintas”.

“Se tratássemos aqueles que têm delírios, alucinações, ou escutam vozes como retardados mentais que precisam ser sedados constantemente com drogas, certamente estaríamos privados de muitos prêmios nobéis, artistas, matemáticos, lógicos e músicos”, declara o professor doutor Daniel Omar Perez.

Para Sandra Regina Turke, tratar de alucinação e delírio no campo do cotidiano e não somente na realidade daqueles a quem chamamos de loucos, mas que de vez em quando se arriscam a alguma loucura em sua vida, em sua arte, é o objetivo fundamental do evento. “A loucura de nosso dia-a-dia pode ser bem mais comum do que se imagina”, afirma.

* Daniel Omar Perez – Graduado em filosofia pela Universidade Nacional de Rosário (Argentina), professor de filosofia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC/Curitiba) e doutor em filosofia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

** Sandra Regina Turke – Graduada em psicologia pela UEL, mestre em psicologia pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e professora /supervisora pela Fundação HUTEC do curso de Psicologia Hospitalar do HU/UEL desde 2001.

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