Presidente do IPEA discute problemas socioeconômicos brasileiros

Em palestra ministrada na UEL, o economista Márcio Pochmann ilustrou o panorama econômico mundial e brasileiro

O presidente do IPEA, Márcio Pochmann, explicou, em palestra na UEL, o panorama social e econômico atual do Brasil

Edição: Beatriz Pozzobon
Pauta: Cláudia Hirafuji
Reportagem:Rafael Gratieri
No fim de agosto, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e economista, professor doutor Márcio Pochmann*, ministrou uma palestra na Universidade Estadual de Londrina (UEL). No evento, sob o título “Conjuntura socioeconômica brasileira e Universidade”, Pochmann discutiu temas da economia brasileira.

Antes de se aprofundar na realidade do Brasil, o presidente do IPEA expôs o atual cenário socioeconômico mundial. “Estamos diante de uma transição de uma velha ordem para outra ordem. Ela revela-se justamente pelo fato que há um deslocamento do centro dinâmico do mundo, constituído dos Estados Unidos, para outros países. Aos Estados Unidos acresce a União Européia, a Ásia, especialmente a China, e o Brasil”, explica Márcio Pochmann.

Temas ambientais também foram abordados pelo economista. Ele utilizou como exemplo o padrão de desenvolvimento industrial dos Estados Unidos. “Esse padrão não pode atingir mais do que um quarto da população mundial. Mais do que isso há efeitos maléficos desse padrão de produção e consumo, que se tornaria insustentável do ponto de vista ambiental”, afirma Pochmann.

Esse modelo norte-americano não poderia se aplicar a todos os países ou pessoas do globo. “O debate que estamos vivendo hoje é como transitar desse padrão de desenvolvimento insustentável ambientalmente para outro. Evidentemente, temos dificuldades que não são pequenas, apesar de esforços de determinados setores”, esclarece o economista.

A partir disso, o professor doutor Márcio Pochmann discutiu a problemática brasileira, comentando algumas deficiências do país quando comparado a países mais ricos. “Nós não somos um país desenvolvido, ele ainda é caracterizado pelo subdesenvolvimento, pela profunda desigualdade que marca a sociedade, pelas diferenças entre pobres e ricos. E ademais, não reunimos as características básicas dos países capitalistas desenvolvidos, como: moeda de curso internacional, um sistema de defesa, ou seja, forças armadas de nome e inovações tecnológicas”, exemplifica o presidente do IPEA.

O economista elucida os desafios que serão enfrentados pelas políticas públicas no futuro, como a questão da demografia e envelhecimento da população brasileira, fatos intimamente ligados. “A partir de 2030, devemos entrar em uma fase de regressão absoluta no número de brasileiros. Nós vamos ter uma quantidade de pessoas que nascem menor do que o número de pessoas que morrem”, mostra Pochmann. “Nós não estamos preparados para conviver com essa mudança etária, considerando o que significa do ponto de vista da saúde pública, o impacto que vai ter isso do ponto de vista da mobilidade social, da mobilidade territorial”, completa.

Com base em estatísticas e levando em consideração as características da sociedade brasileira de hoje, o professor doutor Márcio Pochmann explica por quê levar em consideração o fator étnico. “Em 2030 podemos ter quase 70% dos brasileiros na condição de não-brancos. Digo isso não por uma questão preconceituosa, mas pelo reconhecimento de que as pessoas não-brancas no Brasil são aquelas que têm mais dificuldade de acesso à educação, à saúde e aos bons empregos. Se nós não tivermos uma ação adequada, do ponto de vista de políticas públicas, nós corremos o risco de aprofundar as desigualdades no Brasil”, esclarece o economista.

Ainda sobre o tema, o presidente do IPEA comenta sobre as cotas, relacionando-as sob um viés econômico e social do país. “As políticas de cotas são um avanço certamente, mas elas se mostram suficientes apenas para gerar uma elite não-branca. Nós precisamos trabalhar cada vez mais na universalização das políticas. É um desafio inegável no Brasil de hoje”, destaca Pochmann.

O papel da educação ao longo da vida, incluindo o cidadão inserido no mercado de trabalho, também foi abordado por Márcio Pochmann. “Na sociedade atual, do conhecimento, é fundamental estudar a vida toda. Mesmo estando no mercado de trabalho, mesmo sendo adulto, é necessário estudar – seja para o trabalho, seja para a complexidade da vida que representa o mundo moderno das tecnologias de informação”, esclarece o presidente do IPEA.

Após mostrar o panorama completo socioeconômico brasileiro, o economista encerrou sua palestra fazendo um apelo. “Nós que temos acesso à educação temos mais responsabilidade, pois nós temos o conhecimento, que é uma peça fundamental da construção do novo Brasil. Não há nada que nos impeça de transformar o Brasil senão o medo. O medo de ousar, de se rebelar, de escrever a nossa história com nossas próprias mãos”, conclui o professor doutor Márcio Pochmann.

* Márcio Pochmann é economista e formou-se pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com especialização em ciências políticas e em relações do trabalho. É mestre e doutor em economia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).Desde 2007 é o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

Crédito da foto: Rafael Gratieri

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