O Mal-Estar Contemporâneo sob o olhar da Psicanálise

UEL sedia palestra psicanalítica que aborda temas sobre a insatisfação humana e as relações sociais na atualidade

Durante a palestra, o psicólogo Valdemir Leonarde promoveu discussões sobre temas atuais e os abordou sob o ponto de vista psicanalítico através de referências como Sigmund Freud, Charles Melman e Dany-Robert Dufour, entre outros

Edição: Beatriz Pozzobon
Pauta: Cláudia Yukari Hirafuji
Reportagem: Ana Maria Simono

O Departamento de Psicologia e Psicanálise da UEL promoveu, no fim de agosto, a palestra “Um mundo sem limites. O mal estar na contemporaneidade e a sua conseqüência na clínica Psicanalítica”, ministrada pelo psicólogo Valdemir Leonarde*. A discussão faz parte de um evento direcionado para estudantes e profissionais de Psicologia que engloba um ciclo de palestras realizadas todas as quartas-feiras sobre a temática da psicanálise.

Para Valdemir Leonarde, o sentimento humano que comumente afeta os indivíduos no sentido da “dor de existir em um mundo que não se mostra, na maioria das vezes, como se pretende que ele seja ou como se julga que ele deveria ser, é um mal estar que atinge a sociedade contemporânea”, e suas causas, segundo o psicólogo, devem-se, principalmente, às “mutações culturais” da sociedade.

Segundo ele, as relações sociais mudaram muito com o decorrer do tempo. A relação primeira de um sujeito com o meio em que se insere, por exemplo, era fundamentalmente uma relação de submissão. O próprio sustento de um bebê já na fase inicial de sua vida não está nele, mas em outro ser (no caso, na mãe). “A mãe seria o primeiro vínculo estabelecido pelo ser humano desde sua existência, e o pai seria, à primeira instância, apenas aquilo que a mãe diz que ele é”, afirma Leonarde.

“A mãe torna-se, então, o objeto de maior desejo dessa criança, que passa a acreditar que ela lhe pertence e que o amor que ela lhe tem é de todo modo incondicional e maior que tudo. O pai deveria interferir nessa situação como forma de ruptura da ilusão da criança. À medida que ela percebe que sua mãe também ama o pai e, portanto, que o amor dessa mãe deve ser dividido, compartilhado, cria-se uma espécie de desilusão necessária da criança”, diz o psicanalista.

Para Valdemir Leonarde, são essas mesmas relações que se refletiram, de certa forma, ao longo das décadas, nos vínculos sociais. Conforme sua análise, a família seria, portanto, a princípio, um caldeirão da vida do sujeito, uma forma de preparação desse indivíduo para a vida em sociedade.
De acordo com o psicólogo, assim como o bebê/criança sentiu um desconforto, um mal-estar, na forma de lidar com a chamada “desilusão necessária”, também o ser humano esteve, em todo seu percurso histórico, envolto de discursos que o submetiam. A narrativa religiosa, a narrativa do estado-nação e a narrativa do proletariado são exemplos disso.

“A democracia, entretanto, subverteu toda essa lógica. Desde o seu surgimento, o sujeito passou a ser não mais sujeito de um grande sujeito, mas de si mesmo. O avanço da ciência, as novas descobertas, a entrada da mulher no mercado de trabalho e o sistema neoliberal fizeram com que os discursos que permeavam o social fossem, gradativamente, perdendo força”, ressalta Leonarde.

“A nova ideologia vigente convidava os parceiros sociais, ou seja, os casais, a transpor todas as restrições de gozo que antes lhes eram delimitadas de acordo com os preceitos éticos e morais estabelecidos, segundo o discurso religioso, de acordo com as vontades de um grande sujeito, de um senhor maior”, destaca o psicólogo. Ele ainda afirma que a tecnologia, contudo, tornou-se capaz de dominar perfeitamente o processo de reprodução, e os excessos da reprodutibilidade técnica do capitalismo também submeteram os indivíduos, mas à lógica do consumo e não mais aos fundamentos de um grande sujeito.

Para o psicólogo, as consequências desse “mal-estar” são inúmeras. A dificuldade do indivíduo contemporâneo em lidar com os limites, a perda da capacidade de julgar, os excessos diários, e a constante luta contra o tempo são, sob o seu ponto de vista, indícios do mal-estar da sociedade contemporânea. “As conseqüências da perda de símbolos diretores e desse mal-estar contemporâneo tem afetado diretamente os indivíduos, que se sentem perdidos, não sabem o que querem e, internamente, encontram-se completamente desarranjados”, afirma Valdemir Leonarde.

Segundo ele, daí o desenvolvimento de casos clínicos de depressão, ansiedade e de patologias psicossociais, além do uso indiscriminado de drogas de todos os tipos. “Um dos aspectos que tenho notado em minha clínica é justamente o aparecimento desse novo perfil de paciente”, observa o ministrante da palestra.

A solução mais fácil seria, para ele, aceitar que a vida é assim mesmo e que podemos conviver com essa dor. “Se existisse algo que nos suprisse totalmente, isso seria a morte do desejo, e quem não deseja está morto”, afirma o psicólogo. Segundo Valdemir Leonarde, o papel do psicanalista ao lidar com esse tipo de situação seria justamente dar um lugar ao sujeito para que ele possa se ver à distância, um lugar onde ele possa organizar, através da fala, a sua vida; e, a partir daí, proporcionar oportunidades para que ele possa refletir a respeito de si mesmo e decidir o que é melhor para sua vida.

*Valdemir Leonarde é psicólogo e psicanalista. Graduado em Psicologia e especialista em Psicanálise pela Universidade Estadual de Londrina, atua há 25 anos no atendimento clínico. Atualmente, atende na Clínica de Psicologia Triade.

Crédito da foto: Ana Maria Simono

 

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