Projeto devolve valor histórico para revistas dos anos 50 e 60

Revista Capricho e Grande Hotel retrataram a vida e os costumes da sociedade brasileira

Segundo Prof. Dr. André Luiz Joanilho, a ideia do projeto é estudar um material cultural que a historiografia tradicional esqueceu

Edição: Karina Constancio
Pauta: Ana Karla Teixeira
Reportagem: Beatriz Botelho

“Um fenômeno cultural que foi completamente apagado da memória”, é assim que o professor André Luiz Joanilho do Departamento de História da Universidade Estadual de Londrina define as revistas que utiliza como objeto de estudo no projeto “No mundo das sombras literárias: práticas de leituras femininas no Brasil dos anos 50 e 60”. Graduado em História pela Universidade de Campinas e com mestrado pela mesma universidade, doutor em História Social pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” e com dois pós-doutorados, um em Antropologia pela Université Lumieré Lyon 2 e o outro em História pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS) de Paris, o coordenador, juntamente com a professora Mariângela Peccioli Galli Joanilho* analisa revistas voltadas para o público feminino que foram sucesso nas décadas de 50 e 60, principalmente, a revista Capricho e a Grande Hotel.

“Essas revistas tiveram milhões de leitores, algo que hoje não existe no mercado editorial em termos de produção gráfica. A Capricho chegou a 500 mil exemplares mensais, mas ela foi esquecida,” conta André Luiz Joanilho. Mesmo sendo fontes esquecidas, o professor conhecia as revistas devido à sua mãe que as lia. Ele encontrou 1500 revistas num sebo de Londrina, com número mais expressivo da revista Capricho e da Grande Hotel e também outras revistas como a Sétimo Céu, Ilusão, Almanaque Fotonovela, e elas passaram a ser estudadas.

Segundo André Luiz Joanilho, a ideia do projeto é estudar um material cultural que a historiografia tradicional esqueceu. “Na história há determinadas fontes que são ‘boas’ e outras que não são, por isso são esquecidas. A ideia de pesquisar um fonte documental que foi esquecida é para justamente colocar em xeque essa percepção de fontes ‘boas’ e fontes ‘ruins’ e mostrar que tudo é história,” afirma o coordenador do projeto.
Para o professor doutor, determinadas fontes que são desprezadas pelos historiadores e pesquisadores, pois estes gostam de documentos oficiais, podem ser interessantes para revelar aspectos de uma época e de um grupo social. No caso, as duas revistas analisadas “são fontes preciosas para tentar perceber o que as pessoas pensavam sobre a vida, o amor, a moda, o comportamento e as boas maneiras”, afirma.

O foco do projeto na análise dessas revistas são as fotonovelas. Segundo André Luiz Joanilho, este estilo de literatura tem origem italiana e são storyboard** de filmes. “São histórias bem simples. Eles faziam o desenho do filme e publicavam. Posteriormente, este gênero teve certo sucesso e começaram a publicar histórias desenhadas. Depois fotografaram atores com os diálogos e o narrador em off,” conta o professor. De acordo com ele, na disciplina de História, essas telenovelas são chamadas de representações que mostram a percepção de moral, de identidade e da maneira de interpretação do mundo das pessoas daquela época.

Essas fotonovelas mostram, segundo o professor doutor, a realidade da época: uma sociedade de baixa e média renda, que mora na cidade e que sofre as transformações urbanas do país causadas pelo processo intenso de industrialização. “As pessoas tem expectativa de ordem, de lugares, de certo e errado, de moral, porque o mundo em que elas vivem está em transformação. Então, essas revistas trazem, de certa maneira, um conforto para elas”, explica André Joanilho.

Os dados que o ele já coletou com o projeto, que se iniciou em 2009 e que se encerra do fim deste ano, mostram como os leitores recebiam as informações dos periódicos. “A leitura, não só do meu ponto de vista, mas dos autores que eu utilizo como Michael de Cherteau e Roger Chartier, nunca é passiva. O leitor interpreta e isso reflete no material. Há uma reciprocidade, não é um material imposto. Ele deve funcionar de acordo com os desejos e expectativas dos leitores. É uma tentativa da indústria cultural em atingir o que o público deseja, por isso não há passividade, justamente porque os leitores atuam.”

A pesquisa está em fase de conclusão. A parte da discussão teórica já está feita e publicada na Revista Brasileira de História. Falta uma parte da pesquisa que o pesquisador ainda não concluiu, que são entrevistas com leitoras dessas revistas. Mesmo com o encerramento do projeto no fim no ano, o coordenador pretende continuar as pesquisas para depois publicar um livro. O trabalho deverá comportar a discussão teórica a respeito da documentação, da teoria da história e uma análise do Brasil desse período através desse universo feminino, e terá como conclusão as entrevistas com as leitoras.

As 1500 revistas usadas pelo professor doutor André Luiz Joanilho serão limpas e catalogadas, depois digitalizadas e estarão disponíveis online no site do Centro de Documentação e Pesquisa Histórica (CDPH) da UEL. Será o primeiro lugar do Brasil com esses materiais arquivados, pois nem bibliotecas e nem mesmo a Capricho tem uma arquivo organizado dessas revistas.

* Graduada em Letras e Ciências Humanas pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho e em Pedagogia pela Faculdade de Educação Antonio Augusto Reis Neves, com mestrado e doutorado em Linguística pela Universidade Estadual de Campinas e pós-doutorado pela Ecole Normale Supériéure Lettres et Sciences Humaines de Lyon.
**Os Storyboard são organizadores gráficos com uma série de ilustrações ou imagens arranjadas em sequência com o propósito de pré-visualizar um filme, animação ou gráfico animado.

Crédito da foto: Beatriz Botelho

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