Projeto do Departamento de Agronomia analisa a qualidade física do solo com a interação de diferentes culturas

Como afirma o coordenador, o projeto é abrangente e envolve outras pesquisas

Pauta: Claudia Yukari Hirafuji
Reportagem: Beatriz Botelho
Edição: Karina Constancio

De acordo com o Prof. Dr. João Tavares Filho, a vinhaça é rica em matéria orgânica e muito importante para o solo

Vinte quatro anos é o tempo que o professor do Departamento de Agronomia, João Tavares Filho, trabalha com qualidade física do solo. Desde então ele desenvolveu vários trabalhos na área. Formado em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Lavras, com mestrado em Física do Solo pela mesma universidade e com doutorado em Ciência do Solo pela Université Henri Poincaré, Nancy I, o mais recente trabalho do professor é o projeto “Qualidade física do solo em diferentes sistemas de manejo e cultura”. O doutor João Tavares Filho conversou com o Conexão Ciência a respeito desse e de outros trabalhos que ele desenvolve na Universidade Estadual de Londrina.

Conexão Ciência: Primeiramente, o que é a qualidade física do solo?
Prof. Dr. João Tavares Filho: Quando se fala em qualidade do solo, está se falando em qualidade química, física e biológica. Essas três qualidades precisam estar juntas pra dar condições para a planta se desenvolver bem. Eu estudo só a parte física. Analiso se a porosidade está boa ou não, se a planta precisa respirar, fazer troca gasosa, se precisa entrar água no solo, se ele está compactado ou não, se a raiz consegue se desenvolver.

Conexão Ciência: E quando se iniciou o projeto sobre a qualidade física do solo?
Prof. Dr. João Tavares Filho: Eu tenho um projeto grande que está na CNPq (Conselho Nacional de Pesquisa) que é “Qualidade física do solo em diferentes sistemas de manejo e cultura”. Esse projeto começou em março desse ano e, a princípio, durará três anos, até 2014. Dentro dele há outros projetos como o de cana-de-açúcar, de batata-doce, de vinhaça, entre outros.

Conexão Ciência: Como os alunos escolhem o projeto que vão participar?
Prof. Dr. João Tavares Filho: O aluno me procura e se ele aceitar trabalhar dentro dessa linha de pesquisa de qualidade física do solo, nós vemos uma especificidade para ele. Dentro desse projeto grande, tem alunos de mestrado e doutorado que estudam coisas específicas. Tem uma aluna de doutorado que estuda o plantio direto com batata doce, tem uma outra que trabalha com cana-de-açúcar e outra, com o efeito da vinhaça no solo.

Conexão Ciência: Como é o projeto com a cana-de-açúcar?
Prof. Dr. João Tavares Filho: Este projeto é especifico com a cana e faz parte de uma tese de doutorado. Queremos ver, a partir da implantação da cana na região estudada, o quanto que ela ocupou de área e como que está a ocupação pela usina. Queremos também ver se a área de cana respeita as Áreas de Preservação Permanente (APPs)*, que a lei do solo exige; se as áreas de reserva legal foram preservadas; o que a cana trouxe de benefício para esse município ou se houve apenas prejuízo. Uma das partes da tese é saber também como fica o solo com a utilização intensiva de maquinário pesado. Além disso, queremos saber o efeito que a queima da plantação de cana causa no solo, ao longo dos anos que vem ocorrendo. A plantação de cana abrange uma área muito grande, então tem áreas de solos argilosos e arenosos.

Conexão Ciência: E qual a diferença entre o solo argiloso e o arenoso?
Prof. Dr. João Tavares Filho: O solo argiloso é o que contém argila que é partícula mais fina que se tem do solo e a mais reativa, que faz mais troca com os elementos químicos. O arenoso é o que tem areia, tem menos ação e reação no solo, mas que tem grande importância também. São dois extremos no mesmo solo analisado, com a mesma cana, o mesmo manejo e a mesma queimada.

Conexão Ciência: Quais os resultados já obtidos?
Prof. Dr. João Tavares Filho: Como a tese ainda não está concluída, está no processo de redação, nós não podemos falar muito sobre ela. Temos também um acordo feito com uma usina para podermos realizar o trabalho e só poderemos divulgar os resultados depois da defesa da tese. Só depois poderemos divulgar nomes e dados.

Conexão Ciência: Como é o projeto com a vinhaça?
Prof. Dr. João Tavares Filho: Ele é um projeto de mestrado. A vinhaça** é proveniente da moenda da cana-de-açúcar e quando vai fazer a produção de álcool, pra cada litro dele é produzido 13 de vinhaça. Antigamente as pessoas jogavam essa vinhaça no rio. Mas como ela é muito rica em matéria orgânica, quando jogada no rio, ela mudava completamente o DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio)*** dele, ou seja, sumia todo o oxigênio para decompor essa matéria orgânica, e os peixes e tudo o que tinha vida morriam. Isso mudou. Hoje há leis que proíbem jogá-la no rio. As usinas jogam, então, no solo. Essa é uma das utilizações. Agora nós sabemos que se tem outras. Estão, inclusive, tentando fazer disso alimentos para animais.

Conexão Ciência: Qual a importância da vinhaça?
Prof. Dr. João Tavares Filho: Essa vinhaça é rica em matéria orgânica e é algo muito importante para os nossos solos. A aluna de mestrado que está nesse projeto fez o seguinte: pegou várias doses de vinhaça e, no laboratório, ela aplicou em amostras de solos degradados, que não produzem mais, que não conseguem desenvolver plantas, que já sofreram erosão e estão em situação muito crítica. Ela coletou esse solo degradado de várias regiões, trouxe para a UEL e montou um experimento para se ter uma ideia do que pode ocorrer. Ela analisou se a utilização da vinhaça faz com que ele volte a ter melhores características. Ela terminou os experimentos agora e também está na fase de redação.

Conexão Ciência: Quais foram os resultados obtidos com este projeto da vinhaça?
Prof. Dr. João Tavares Filho: O que podemos dizer disso é o seguinte: fazendo estatísticas, parece que a vinhaça pode ajudar na melhoria desse solo degradado, mas a gente ainda não tem condições de dizer que é algo certo.

Conexão Ciência: E o projeto feito com a batata-doce, como ele é desenvolvido?
Prof. Dr. João Tavares Filho: Tem uma outra aluna que está num projeto sobre plantio direto da batata-doce. Ela está vendo a possibilidade de desenvolver o plantio sem que o solo seja muito mexido. A batata-doce é um tubérculo, ou seja, ela cresce abaixo do solo. É bastante interessante fazer esse tipo de plantio principalmente porque a batata, na maioria das vezes, é plantada em solos um pouco mais arenosos que são mais fazeis de sofrer erosão, e mexer menos no solo vai ser bom para preservá-lo. Isso está dando um resultado interessante.

Conexão Ciência: Como é realizado esse plantio direto?
Prof. Dr. João Tavares Filho: É preciso de máquinas específicas, diferentes do arado. Elas são feitas para criar o menor revolvimento possível no solo, abrir um suco menor possível sem ficar revertendo-o.

Conexão Ciência: Como é feita a análise do solo?
Prof. Dr. João Tavares Filho: A ideia é mostrar a maneira como esse tipo de manejo atua no solo e se o resultado está bom, médio ou ruim. Nós temos alguns parâmetros de comparação e utilizamos um método trazido da França que chamamos de método de perfil cultural, que é abrir o solo e estudar a relação entre ele e a raiz da planta.

Conexão Ciência: Dessas culturas estudadas nos projetos, qual é mais importante?
Prof. Dr. João Tavares Filho: Na realidade, com o que eu trabalho, o nome da cultura é o menos importante. Primeiro eu me preocupo com o solo, com a física do solo.

*APPs: As Áreas de Preservação Permanente são áreas de grande importância ecológica, cobertas ou não por vegetação nativa, que têm como função preservar os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora, proteger o solo e assegurar o bem estar das populações humanas. Como exemplo de APP estão as áreas de mananciais, as encostas com mais de 45 graus de declividade, os manguezais e as matas ciliares. Essas áreas são protegidas pela Lei Federal nº 4.771/65
**A vinhaça (denominada também de vinhoto, vinhote, restilo, calda de destilaria, caxixi, garapão, tiborna, a depender da região) é um subproduto do etanol (álcool), butanol e aguardente.
REZENDE, Joelito de Oliveira (Coordenador). Vinhaça: Outra Grande Ameaça ao Meio Ambiente. UFBA, 1984.
***Demanda Bioquímica de Oxigênio: A palavra demanda quer dizer, entre outros significados, quantidade consumida ou a consumir; a palavra bioquímica significa, aí; um misto de reações de origem biológica e química. Dessa forma, podemos resumir que DBO é um consumo de oxigênio, através de reações biológicas e químicas.

Crédito da foto: Imagem Google – Usina São Martinho

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