Projeto analisa Período Militar no Brasil

Estudo busca discutir e ampliar os conhecimentos a respeito dos governos militares na América Latina, com destaque para o brasileiro


Edição: Fernanda Cavassana
Pauta e Reportagem: Guilherme Vanzela

O projeto “O Brasil se prepara para o golpe militar” coordenado pelo professor Hernan Ramiro Ramirez, Licenciado e Bacharel em História e Mestre em Partidos Políticos pela Universidad Nacional de Córdoba (Argentina), Doutor em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul(UFRS), e Pós-Doutorado em Ciência Política no Instituto Universitário de Pesquisas do Estado do Rio de Janeiro (IUPERG), aborda segundo o doutor Ramirez, um tema muito importante em muitos aspectos, não apenas desde o ponto de vista histórico. “Muitos desdobramentos têm tido consequências políticas e sociais concretas para a vida em democracia”, afirma o coordenador.


De acordo com o Dr Hernan Ramirez, o tema da ditadura militar se encontra ainda um tanto encoberto para a sociedade brasileira. “O que me preocupa é que as ditaduras são vistas como militares e não em toda sua dimensão. A sociedade civil participou, por isso devemos considerar esses eventos como civico-militares. Empresários, meios de comunicação, igrejas, políticos de diversos partidos, ainda na ativa, e acadêmicos, dentre outros, foram fundamentais para desestabilizar os governos democraticamente constituídos e fizeram parte das administrações autoritárias”, argumenta Hernan Ramirez.

O papel dos meios de comunicação no período e o discurso que os militares transmitiam por meio deles,é presente nas discussões do projeto. De acordo o Dr Ramirez, “os militares não agiram sozinhos, eles tiveram apoio para deslegitimar o governo Jango, durante o golpe e para tocar e legitimar a ditadura depois. O Estadão estava metido no golpe até o pescoço. A Folha inclusive emprestava seus carros para a operação Bandeirantes. Apenas a Última Hora do Samuel Wainer, sustentava o Jango”, e ele complementa falando que os militares optaram em usar os meios de comunicação já existentes, comprando espaço e pressionando alguns dos seus donos, editores e jornalistas ao invés de criar meios próprios.

A questão da “marcha da família com Deus pela liberdade”, movimento que deu certa sustentação ao regime militar, também é abordada no projeto. O professor identifica que houve grande manipulação para que realmente ocorresse o protesto. “No meu livro e no do Dreifuss¹, que me serviu de base, fica claro que não foi um movimento espontâneo, importantes setores da sociedade civil estavam participando de forma articulada. Inclusive, já em 1962, em uma reunião do Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (IPES), um dos seus membros colocava a questão de como a classe média poderia ser manobrada para os seus propósitos. E mais, colocava a mulher como virtual ponta de lança da estratégia. A aliança da cruz, da espada e do dinheiro já se deu várias vezes na história mundial. A Igreja até essa época tinha muito poder ideológico. No entanto devemos distinguir: a Igreja de 1964 não era a de 1968”, afirma o professor.

Ao ser perguntado sobre punições as pessoas envolvidas em crimes de tortura, Hernan Ramirez fez a seguinte consideração: “O delito de tortura é considerado pela justiça internacional como imprescritível. Devem ser julgados, não apenas para punir, mas para demonstrar que as instituições funcionam e reparam, mas tarde do que cedo, as atrocidades cometidas”, e conclui dizendo: “Essas são discussões circulares, que permanecerão vivas enquanto os atores sociais que as protagonizaram permanecerem vivos e as suas consequências ainda sejam sentidas”.

1. O cientista social René Armand Dreifuss é graduado em Ciências Políticas e História pela Universidade de Haifa, em Israel, mestre em Política, pela Universidade de Leeds e PhD em Ciência Política pela Universidade de Glasgow, ambas na Grã Bretanha. Escreveu vários livros como 1964: A Conquista do Estado (Vozes, 1981); A Internacional Capitalista (Espaço & Tempo, 1986); O Jogo da Direita na Nova República (Vozes, 1989); Política, Poder, Estado e Força – Uma Leitura de Weber (Vozes, 1993); A Época da Perplexidade (Vozes, 1996).

Ano 7 – Edição 87 -18/04/2010

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